Por que feminismo?

Há um par de meses me incumbi da tarefa de escrever um texto para inaugurar nosso Dossiê Feminismo fazendo uma breve apresentação do que é e não é o feminismo (ou os vários feminismos). Tarefa esta que precisaria de alguns anos de estudo, uma tese de doutorado e toda uma biblioteca pra ser de fato bem feita. Ia abrir mão de um texto completo por um simples, resumido e com lacunas para falar de como o feminismo continua sendo absolutamente necessário, mesmo nesse nosso mundo supostamente moderno, explicar que o feminismo não é um machismo ao contrário, que feministas não são mulheres que odeiam homens. Conclui que se era pra falar superficialmente desses pontos, bastava essa última frase e que valia mais tentar responder “por que feminismo?” em forma de recados a interlocutores imaginários, masculinos e femininos. Vamos a eles.

1. O argumento dos números

O “deixa disso”: acha que feminismo só foi  importante quando mulheres não podiam votar nem trabalhar sem autorização do marido

Feminicídios por 100 mil mulheres

Feminicídios por 100 mil mulheres

“Feminismo é a ideia revolucionária de que homens e mulheres têm os mesmos direitos.” (Facebook, meme com a foto da Simone de Beauvoir) Ninguém vai negar que estamos melhor do que estávamos há meio século atrás. Hoje uma mulher pode morar sozinha, se sustentar e pagar suas contas sem precisar de homem nenhum, temos a garantia constitucional de igualdade. Acontece que direito não é só lei. Mulheres ainda recebem 28% menos que homens no Brasil. Os índices de violência doméstica, estupros e assédio sexual são assustadores. São números que mostram o quanto a igualdade de direito está longe da igualdade de fato.

2. O argumento jurídico

O “não tenho nada com isso”: se a constituição diz que homens e mulheres são iguais, por que tem a Lei Maria da Penha pra defender as mulheres? E se a minha mulher me agredir?

Se a sua mulher te agredir você denuncia ela por agressão, querido. Agressão é crime. Foi criada uma lei específica para proteger mulheres de agressão doméstica pela constatação de que existe uma violência endêmica atingindo uma parte da população em situação de fragilidade. Existem crimes causados especificamente em função de uma cultura em que homens se consideram donos de suas companheiras e no direito de fazer com elas o que querem. Fruto de uma cultura mais geral de que homens podem dispor das mulheres para seus prazeres e vontades quando quiserem, a menos que estas já “pertençam” a outros homens, que têm o direito de defender suas “posses”. E, ainda que a lei tenha sido crida com este objetivo específico, pelo princípio da analogia, ela vale também para homens que sejam agradidos por suas perceiras.

3. Sim, é você também

O “não me mete nessa não”: estes homens são criminosos, quem tem que lidar com eles é a justiça. Eu nunca agredi ninguém.

Tem certeza? Você nunca estuprou, bateu ou humilhou uma mulher. Ótimo! Já é meio caminho andado pra ser um bom cidadão. Mas você certamente já agrediu alguém com seu machismo (leitoras do sexo feminino, isso vale pra vocês também).

Calma! Antes de se perguntar quem é esta louca que acha se sabe alguma coisa da sua vida, lembre que eu também sou machista e já oprimi com o meu machismo. E sim, isto vem de alguém que se considera feminista e luta por isso. Feminismo e machismo não são etiquetas que colamos na testa, não são barrinhas de vida de videogame que crescem quando acumulamos pontos, são posição e atitudes que tomamos o tempo todo. O que faz de mim feminista não é nunca ter sido machista, é buscar perceber quando eu ou alguém à minha volta o está sendo e fazer algo quanto a isso.

E agora você deve se perguntar quando, então, está agredindo alguém com seu machismo.

4. O argumento do “meu corpo é meu”

O “nunca disse que não era”: o que você faz com seu corpo é problema seu, óbvio!

Meu corpo, minhas regras

Meu corpo, minhas regras

Nem tanto. O tempo todo, onde quer que estejamos, tem alguém dizendo que não, o corpo não é nosso. Espera-se que eu pinte as unhas, que eu use roupas femininas, que tenha o cabelo assim e assado, que tenha um certo comportamento, um certo jeito. E mesmo quem não me proibe de ser o que quero, pode estar sim me agredindo.

– Mas você é uma menina tão bonita, por que não anda mais arrumada?

Tradução:

– Seu corpo não é seu, você não pode ter a aparência que quer sem ser chamada a atenção.

– Acho que mulher sem unha feita é desleixo!

Tradução:

– Seu corpo não é seu, uma mulher de verdade é outra coisa.

– Gostosa! [Homem desconhecido na rua]

Tradução:

– Seu corpo não é seu, ele existe para meu deleite.

   [Encochada no ônibus]

Tradução:

– Seu corpo não é seu, ele existe para meu prazer.

– Piranha!

Tradução:

– Seu corpo não é seu, somos nós que decidimos com quem/quantos você pode ficar.

– Acho horrível mulher que bebe e fuma!

Tradução:

– Seu corpo não é seu, quem sabe o que condiz com ele sou eu.

Deu pra pegar a ideia, né? Todos os olhares e discursos que nos rodeiam e nos dizem o que deveríamos ser e fazer com nosso corpo são pequenos empurrões tentando nos levar para onde “deveríamos” ir, para o modelo Barbie-boa-esposa-e-dona-de-casa. Eles acontecem incontáveis vezes diariamente e juntos viram uma avalanche que acaba soterrando nossas vontades. Eles viram uma enxurrada de tarefas para quem se aproxima do padrão: dieta, cabelo, manicure, depilação, roupas caras, sapatos desconfortáveis, maquiagem, bolsas pesadas, casa arrumada, decorada e limpa. Eles viram uma eterna punição para quem não está de acordo com ele.

5. O argumento do prazer

O pseudo-biólogo: os homens naturalmente têm mais apetite sexual, mulheres têm o instinto de se preservar

Jean Désire Gustave Courbet - A origem do mundo

Jean Désire Gustave Courbet – A origem do mundo

Não é só na aparência que nos limitam, é em todo o nosso corpo. Justifica-se a traição masculina, a promiscuidade e a maior “capacidade” de sentir prazer por algum suposto instinto ancestral quando é evidente a distância entre o tratamento que se dá à sexualidade feminina e masculina. Boa parte das mulheres nunca tiveram um orgasmo na vida ou só conseguem tê-lo sozinhas. Somos ensinadas que nossas bucetas são sujas e fedorentas pelas propagandas de absorventes e sabonetes líquidos, que são feias se não estiverem depiladas. Boa parte dos homens tem nojo delas. Ser feminista é também lutar pelo nosso direito de sentir prazer, é buscar a consciência do nosso corpo e do que ele é capaz.

6. O argumento do trabalho

O “sensível”: as mulheres têm um instinto natural de cuidado, uma atenção especial para detalhes, uma sensibilidade mais aguçada

Nascemos com essa incrível capacidade e sensibilidade para cuidar, dar atenção, por isso somos tão ligadas à casa e à família. Mas que conveniente! Por puro acaso do destino nós nascemos com uma propensão natural a querer cuidar da nossa família. Não é culpa dos homens que eles não tenham nascido assim, é mera coincidência. Mulheres trabalham para manter sua independência financeira, dividem os gastos domésticos com seus parceiros, mas ainda acumulam muito mais tarefas domésticas que a maioria dos homens, além de em geral assumirem mais responsabilidades sobre os filhos. Mulheres acabam trabalhando muito mais do que homens, nas famosas duplas e triplas jornadas. Nós já dividimos com os homens a tarefa de sustentar nossas casas, é hora dos homens dividirem as responsabilidades dentro delas.

7. O argumento da união

Falando assim parece que só as mulheres sofrem na nossa sociedade.

Sim, homens sofrem também! E muito! O machismo não agride apenas a nós. Homens são ensinados a não se envolver, a não serem sensíveis a serem dominantes, fortes e independentes. Sofre opressão o homem que chora, o homem que se preocupa mais com a aparência, o homem que é sensível, que não acha maneiro “comer geral”, que não se identifica com símbolos de poder, que não quer ter o carrão pra tirar onda nem ficar rodeado de gostosas com uma garrafa de champanhe na boate. Ser feminista é também lutar pelo direito dos homens a seus próprios corpos e vontades.

Sobre esse ponto, deixo falar a Emma Watson no discurso da campanha HeForShe na ONU.

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Sobre Mariana Bedran Lesche

Ex-historiadora de profissão e ainda de coração, ex-professora - mas eternamente explicadora -, ex-outbacker, tentativa de programadora e metida a designer por teimosia. Apaixonada por fotografia e lutas. Comunista por convicção e antes de tudo por amor.
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