A emancipação feminina e o socialismo

Protesto no dia internacional das mulheres

Um dos legados mais importantes da luta das trabalhadoras socialistas da virada do século XIX para o XX

A relação entre a esquerda socialista e movimentos pela emancipação feminina têm uma história longa, que remonta a muito tempo antes da reemergência do feminismo nos anos 1960 e 1970. Esta história foi permeada não somente por debates e posicionamentos, mas fundamentalmente pela participação feminina nas lutas concretas e organizações da esquerda, e na formação de coletivos, sindicatos e seções especialmente dedicados à conquista de direitos. Entretanto, além desta longa trajetória de desenvolvimento combinado, sempre foi uma relação marcada por conflitos. Refletir sobre essa relação e seu percurso é importante para que novas soluções políticas de encontro e participação possam se desenvolver.

Para contribuir com esta reflexão, gostaria de retomar a constituição dos movimentos socialistas de trabalhadoras, me focando especialmente no período entre a segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do século XX. As lutas destas trabalhadoras e militantes são especialmente interessantes para observar o contexto político em que emergiram os primeiros movimentos feministas e quais disputas internas e externas ajudaram a determiná-lo.

Igualdade de direitos, sufragismo e o movimento socialista de mulheres

Protesto sufragista

Protesto sufragista

Embora com antecedentes que remontam ao menos à Revolução Francesa, os primeiros movimentos organizados de base trabalhadora de reivindicação dos direitos das mulheres têm sua origem em meados do século XIX, especialmente na Inglaterra. Na sequência da turbulência da revolução de 1848, grupos de mulheres cartistas protestam, sem sucesso, pela inclusão do voto feminino como uma das demandas da Carta do Povo endereçada ao Parlamento inglês. Mais ou menos simultaneamente, círculos e publicações de mulheres se organizam em separado do universo da militância trabalhista exigindo mudanças em várias leis que restringiam direitos (como o de mulheres casadas de dispor de suas propriedades sem autorização de seus maridos), dando origem aos primeiros esforços que resultarão no movimento sufragista, que logo alcançaria outros países europeus e os EUA.

Entretanto, embora compartilhando oposições de governos e forças políticas conservadoras, e tendo em comum ao menos parte das mesmas metas de conquista de uma ampla gama de direitos negados às mulheres, sufragistas e grupos socialistas de emancipação feminina não constituíram um movimento unificado. Os motivos para tanto são múltiplos e variados, incluindo a origem de classe bastante distinta de suas proponentes, mas não se resumiram a desencontros fortuitos. Em grande medida, a distância e proximidade entre os grupos se deveu às alianças que ambos os setores ativamente buscaram, em sentidos opostos.

Tecelãs em greve

Tecelãs em greve

O que se punha em questão na luta por igualdade jurídica entre mulheres e homens era o sentido desta luta para a massa das trabalhadoras pobres, que o processo de industrialização e decomposição de estruturas ancestrais de produção familiar lançava aos milhões, inauditamente, para a competição direta com os trabalhadores masculinos no mercado de trabalho. Desse modo, ao mesmo tempo em que as reivindicações em defesa das mulheres enquanto cidadãs de pleno direito tomavam ímpeto, a questão da condição da mulher como proletária se colocava, também de modo intenso. Para muitas militantes de convicção socialista, a proximidade e a coincidência parcial de interesses entre trabalhadoras e mulheres de outras classes sociais não era suficiente para que compusessem uma unidade para além do esforço conjunto em algumas campanhas. As trabalhadoras só poderiam conquistar sua emancipação dependendo de suas próprias forças, se mobilizando e se organizando como um movimento autônomo, capaz de exercer pressão por conta própria e estabelecendo suas próprias demandas a partir de uma plataforma de classe. Eventuais bandeiras e campanhas unificadas, dessa maneira, não deveriam borrar as diferenças entre o feminismo de base proletária, que teria como fim a emancipação das mulheres no socialismo, e o de base burguesa, que pretendia uma igualdade das mulheres dentro da mesma sociedade. O encampamento de bandeiras sufragistas, desse modo se acompanhou de uma frequente denúncia do caráter burguês do movimento sufragista, que se intensificou à medida que um movimento socialista de mulheres tomou força dentro das sociais-democracias ligadas à Segunda Internacional, principalmente a partir de 1890. Esta denúncia, entretanto, não se baseou numa desqualificação das demandas ou dos esforços das sufragistas, mas de uma disputa pelo sentido da luta feminina.

Alexandra Kollontai, líder socialista russa que depois será uma das principais lideranças bolcheviques, fala em 1907 sobre a relação entre o movimento socialista das trabalhadoras e as feministas burguesas:

Naqueles países em que organizações de trabalhadoras assumiram primariamente a forma profissional [na forma de sindicatos, etc.] (por exemplo, a Inglaterra e a América), o trabalho [de militância] foi conduzido principalmente em conjunto com as feministas burguesas sob sua liderança direta; não se levantou a questão da luta de classes. A primeira conferência não-oficial de delegadas socialistas, ocorrida em Londres em 1896, se concentrou principalmente com um exame da relação entre o feminismo burguês e o movimento proletário das mulheres. Reconheceu-se como desejável distinguir entre o movimento das mulheres burguês e o socialista, e a ênfase foi colocada sobre a necessidade urgente de intensificar o trabalho de propaganda socialista entre as mulheres trabalhadoras, de modo a envolvê-las na luta de classes.

Trabalho e emancipação feminina

Cartaz alemão convocando para o Dia Internacional das Mulheres reivindica o Sufrágio Universal Feminino

Cartaz alemão convocando para o Dia Internacional das Mulheres reivindica o Sufrágio Universal Feminino

Se uma aliança com o sufragismo era limitada pelas diferenças de interesse de classe, a participação das mulheres, organizadas enquanto tais, no movimento socialista tampouco se deu, entretanto, sem grandes dificuldades. Enfrentaram uma ferrenha resistência e oposição por parte de lideranças, organizações e também da própria base proletária predominantemente masculina. Esta oposição não se deu principalmente (embora também tenha tido presença) em torno das demandas por igualdade jurídica, como o direito ao voto e à educação, mas sim a respeito do acesso ao trabalho.

Para militantes de ambos os sexos, as bases da libertação da mulher estavam sendo lançadas pela incorporação da mão de obra feminina no trabalho assalariado; base, entretanto, contraditória, uma vez que esta incorporação se dava sob a forma de exploração capitalista do trabalho das mulheres. Deste modo, a emancipação da massa das mulheres teria que passar necessariamente pela superação da exploração do trabalho assalariado e, portanto, pelo socialismo. Mas esta superação precisaria se dar, assim, preservando a incorporação das mulheres no trabalho extra-doméstico. Dessa forma, era necessário que as mulheres se incorporassem à luta pela “emancipação econômica do proletariado”, abrindo os sindicatos à participação das mulheres, formando sindicatos de base feminina, formando organizações políticas, jornais e centros de formação de luta pelos direitos das mulheres e realizando greves, protestos de rua e campanhas de massa, promovendo a luta por igualdade jurídica e política juntamente com a luta cotidiana por melhorias salariais e trabalhistas.

Mulheres presas e esperando deportação por participarem da Comuna de Paris em 1871. Entre elas, a militante anarquista Louise Michel

Mulheres presas e esperando deportação por participarem da Comuna de Paris em 1871. Entre elas, a militante anarquista Louise Michel

Mas vastos setores da esquerda socialista e revolucionária opuseram-se intensamente a esta incorporação. Para além da competição direta no mercado de trabalho, no qual a disponibilidade de trabalho feminino sub-pago ajudava a rebaixar de maneira geral os salários, a integração das mulheres ao trabalho assalariado ameaçava a divisão tradicional de papéis na família proletária. Expressões de um “antifeminismo proletário” atravessaram mesmo as mais avançadas experiências de organização dos trabalhadores, como a primeira Internacional, na qual avanços como a filiação, em igualdade de direitos, individual e coletiva de mulheres, conviveram com esforços de setores por vezes predominantes para negar o direito feminino ao trabalho. A militante feminista e participante da Comuna de Paris André Leo assim definiu, em 1869, os objetivos do setor mais misógino do movimento proletário:

Estes assim chamados amantes da liberdade, se não conseguem tomar parte na direção do Estado, pelo menos podem ter uma pequena monarquia para uso pessoal, cada um em seu próprio lar. Quando o direito divino foi estilhaçado, foi para que cada homem (do tipo proudhoniano) pudesse ter um pedaço dele.

Avanços importantes, entretanto, foram construídos posteriormente, especialmente no âmbito da social-democracia europeia dos anos 1890 em diante, em que o trabalho intenso de organização e propaganda de militantes como Clara Zetkin, Emma Ihrer e August Bebel e a participação de centenas de milhares de mulheres militantes pôde conquistar o reconhecimento da luta pela emancipação das mulheres como objetivo a ser atingido pelo do setor majoritário do movimento de trabalhadoras e trabalhadores, suportado pela organização autônoma das mulheres.

As conquistas desse momento de modo algum representam o passo final seja na determinação dos objetivos, seja na das formas de luta dos movimentos pela emancipação feminina. Mas forneceram, a partir das disputas travadas e da aposta na mobilização de massas, uma base importante ainda hoje para se pensar de que modos podem se combinar diferentes lutas por liberdade e igualdade. Clara Zetkin assim resumiu como pôde se construir então uma tal base:

O partido e os sindicatos são inspirados na concepção socialista da história, e portanto são conscientes da grande importância que, em princípio e na prática, tem um movimento socialista das mulheres. Consequentemente, as organizações políticas e sindicais dão apoio cordial ao trabalho das camaradas mulheres. Quanto de nosso trabalho lhes é devido por sua assistência fraternal! Deve-se, entretanto, ser enfatizado que, em última instância, seu desenvolvimento, tanto em extensão como em maturidade, é obra das próprias camaradas mulheres.

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