“Mais de esquerda”? Para uma compreensão dos governos petistas

 A caracterização positiva dos governos Lula e Dilma, como governos de esquerda ou “mais de esquerda”, tem um sustentáculo principal: o aumento de benefícios materiais que teve a classe trabalhadora nos últimos anos. Em uma análise política simplificadora, há uma régua com que se mede o acesso da população a bens e, como os governos do PSDB desprezaram largamente o “social”, o PT ocupa soberanamente o lado “esquerdo”.

No discurso eleitoral, Dilma era a Coração Valente que fazia um governo de resistência à direita.

 Se essa régua não deve ser de todo desprezada para a conceituação de “esquerda” e “direita”, uma vez que em algum sentido elas são noções espaciais que se auto referenciam, por outro lado, ela restringe muito a compreensão política. Isto porque isola objetos de elementos do contexto mais amplo e de demais aspectos da realidade social. Para um breve exercício de reflexão, lembremos que, no campo da educação federal, área importante do marketing do governo na última eleição, a ditadura empresarial-militar do Brasil criou 12 universidades em seus primeiros 15 anos e mais que dobrou o número de docentes entre 1968 e 1978; os salários docentes mais que quadruplicaram entre 1966 e 1971; e, entre 1964 e 1984, enquanto a população brasileira aumentou 65%, a parcela universitária aumentou em 1.000%. Se a ampliação de vagas promovida pelo PT decorre de sua tendência de esquerda, haveria também um lado esquerdo na ditadura? (A pergunta é retórica mas não faltam os analistas da “complexidade” que falam de um lado positivo desse regime.)

 Os ganhos materiais precisam então ser vistos para além de quadros estatísticos e gráficos de propaganda. Os investimentos em educação feitos pelo governo federal nas gestões do PT, segundo Roberto Leher e Wilson de Almeida, tem alimentado o empresariado do ensino superior que oferece, via de regra, serviços de baixa qualidade a alto custo público (conforme, inclusive, conclusão do próprio TCU durante o segundo mandato de Lula), mantendo os mais pobres com uma formação universitária em cursos de menor significado econômico e político. Nas universidades públicas, é notável que o Reuni, efetivado através da repressão, signifique um aumento quantitativo às custas da qualidade. Outra área que ganha luz quando analisada para além do imediatismo é a política para moradia, que também é menina dos olhos do PT. Guilherme Boulos, do MTST, já demonstrou várias vezes como o Minha Casa, Minha Vida, principal programa habitacional do governo, está submetido aos interesses das empresas de construção, deixando de atender à faixa da população onde o déficit habitacional é maior (pois ali o lucro é menor); construindo moradias de má qualidade a um preço elevado; e fomentando a excludente lógica especulativa imobiliária. Nesse mesmo sentido, há alguém que ainda sustente que a Copa do Mundo, empreendimento de 25 bilhões, foi realizada para o bem do povo? (Com certeza há mas esta pergunta também é retórica).

O “marxista” Emir Sader é uma das faces stalinistas da intelectualidade governista.

 Mas esta faceta é tão ocultada quanto evidente: o serviço generoso que os governos petistas prestam a empresários e a aliados do Congresso em detrimento dos interesses da classe trabalhadora não constitui nenhuma novidade, é de uma obscenidade incontornável e admitido factualmente pelos “governistas críticos”. Assim sendo, foi notável que na última eleição a estratégia ideológica do PT fosse a de reforçar a sua identidade de esquerda – o que se revelou altamente bem sucedido. Essa mistificação não age apenas como mentira mas como a compatibilização de duas percepções de forma que se permite não apenas salvaguardar moralmente o governo como positivá-lo. A sua parte negativa, entende-se como um meio, um mal necessário para se atingir um fim maior; ou a atribuem a um outro: Kátia Abreu, Sarney, Lobão e teocratas estão conosco mas não são nós; ou a enquadram como frutos das “contradições” inerentes da vida política, terreno fora do qual não se pode construir o “avanço social”. Para a “esquerda governista”, a política que existe é a realpolitik, mas uma paradoxalmente idealista. O fato de a oposição partidária ser um banditismo de ódio aos pobres (PSDB), ou a Rede Globo, torna essa operação ideológica mais possível. Nesse construto, mesmo a repressão pode ser assimilada ou tolerada pelos apoiadores de “esquerda”, mais ou menos passivamente; como pode também ser incentivada.

 Se a classe trabalhadora tem atingido certos ganhos materiais (ideia bastante relativizável, diga-se de passagem), é importante não deixar de considerá-la fora da ideia gramsciana de que a dominação, para se efetivar, precisa atender em algum nível as aspirações dos subalternos. Isso não significa, como tem afirmado repetidamente um deputado do PSOL, Jean Wyllys, uma apologia da negociação e do acordo. Mas sim que, econômica e politicamente, esse enriquecimento (repetindo, bem relativo) cumpre um papel na reprodução do capital e da dominação de alguns sobre todos nós. É nesse sentido que entender como uma experiência de esquerda, ou “mais à esquerda”, os governos federais petistas, há 12 anos no poder, é um problema conceitual sobre o poder de Estado e as dinâmicas da luta de classes e do capitalismo. Porém, mais do que isso, é um notório rebaixamento das expectativas progressistas, tanto no que concerne às possibilidades de ganho material quanto no que diz respeito ao protagonismo político ainda não exercido pelas organizações autônomas dos trabalhadores.

***

Este texto abre o Dossiê “E agora, PT?” do blog Capitalismo em Desencanto. Publicaremos em janeiro e fevereiro textos sobre variados temas fazendo um balanço dos últimos 12 anos e apontando expectativas para o próximo mandato.

Sobre Wesley Carvalho

Professor e historiador.
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4 respostas para “Mais de esquerda”? Para uma compreensão dos governos petistas

  1. TioPuff disse:

    ótimo texto, ansioso pelos proximos.

  2. Giancarli Sanguinetti disse:

    O que quase nenhuma corrente ou movimento de “esquerda” (no sentido mais amplo possível) faz é caracterizar o governo do PT quanto a sua natureza de classe. É um governo burguês ou operário? A partir desta caracterização os desdobramentos ficam mais claros. CUT, Mst, Mtst. Etc. subordinam os movimentos de massas à fração “esquerda” da burguesia. Daí preferirem manter a caracterização com os binômios esquerda/direita, neodesenvolvimentista/neoliberal, progressista ou não, etc.

  3. dirlene marques disse:

    Gostei do texto. Trabalhou bem o que voce se propos. Mas – é sempre possivel dizer que deixou de trabalhar alguma questao como a questao economica. Neste caso, fica muito claro qual o compromisso do governo petista: muito para o capital e algumas migalhas para os pobres e os trabalhadores. Como dizem os economistas: é um governo do bolsa familia e da bolsa de valores.

  4. O texto é muito bom, apesar de que poderia ser mais amplo e tratar mais aprofundadamente dos outros aspectos ligados à educação que a “militância” governista repete incessantemente, ou ainda poderia ter se debruçado nos indicadores econômicos, como a farsa dos “40 milhões retirados da miséria”, mágica apenas possível através da alteração – para baixo – dos índices oficiais de pobreza e miséria. Aguardando os demais textos do dossiê.

    E apenas para constar, a mentira repetida mais vezes pela petistada para buscar controlar críticos e opositores é a tese do “GOLPE”. http://www.tsavkko.com.br/2014/11/genealogia-do-golpe-em-imagens-21.html

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