Mirem-se no exemplo das mulheres curdas

Texto de Giovanna Antonaci, Juliana Lessa e Pollyana Labre.

“Temos a única coisa que ninguém nos pode dar. Temos a nossa liberdade. Vocês não. Quem me dera que houvesse uma maneira de poder dá-la”. Amina, vice-chanceler de Rojava.

Em 2012, a população curda de Rojava – organizada em torno de ideias como liberdade, igualdade, ecologia e anticapitalismo – proclamou sua autonomia em relação à Síria de Bashar Al-Assad, em meio ao contexto de guerra civil que ocorre nesse país desde 2011. Rojava (a parte síria do Curdistão, que faz fronteira com a Turquia) passou a ser gerida pelo seu próprio povo, mas vem enfrentando ataques promovidos por grupos de fundamentalistas religiosos e pelo governo da Turquia (que resiste a dar mais autonomia à população curda localizada em seu território).

Mapa do território reivindicado pelos curdos.

Mapa do território reivindicado pelos curdos.

Essa região ganhou projeção internacional devido à tentativa de invasão promovida pelo Estado Islâmico (ISIS), que foi derrotado com a atuação determinante das Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ) – uma brigada militar formada só por mulheres – e pelas Unidades de Proteção do Povo (YPG). O Curdistão é uma região de cerca de 500 mil km2, que ocupa partes da Turquia, Iraque, Irã, Síria, Armênia e Azerbaijão. Atualmente, os curdos são a etnia mais numerosa sem Estado do mundo.

Combatentes da YPJ.

Combatentes da YPJ.

Na Turquia, os curdos vêm lutando por sua liberdade desde 1978, sendo que o Partido Trabalhista do Curdistão (o PKK) é uma das organizações políticas mais importantes. Com a prisão de sua principal liderança, Abdulah Öcalan, em 1999, o partido passou por uma reorientação em sua estratégia de atuação política. Na prisão, Öcalan aprofundou seus estudos políticos voltados para a libertação do povo curdo. Suas novas ideias têm sido muito difundidas pela região, principalmente pelo braço sírio do PKK, o PYD. Segundo ele, o conceito de Estado-nação é necessariamente opressor e ligado à xenofobia, ao sexismo e ao fundamentalismo religioso. Por isso, para ele, as lutas pela independência não deveriam ter como objetivo a criação de um novo Estado-nacional curdo, pois essa luta deve ser direcionada à superação de todas as formas de opressão, principalmente a de gênero.

Tais ideias começaram a ser vividas na região de Rojava desde quando sua população se proclamou autônoma. Lá vem se desenvolvendo um modelo político e social, denominado “Confederalismo Democrático”. Esse modelo é estruturado a partir de comunas constituídas por vizinhanças com cerca de 300 pessoas, sendo que cada uma possui dois co-presidentes (uma mulher e um homem) e cinco ou seis comitês que tratam de questões variadas. Além da política de governo, as comunas têm por objetivo discutir e solucionar problemas diretos em sua região. Há também Conselhos Populares distritais e municipais.

Convívio.

Convivência.

Um dos principais aspectos do “Confederalismo Democrático” é a tentativa de construir uma sociedade livre de qualquer tipo de opressão, sendo que a igualdade de gênero é central nesse processo, pois entende-se que o patriarcado é uma das bases de sustentação das democracias liberais capitalistas. A libertação da mulher é vista como condição necessária para a construção de uma nova sociedade. É por isso que, nas cidades em que funciona esse modelo, prevalece o princípio da copresidência. Além disso, os cargos dos Conselhos Populares possuem uma quota de 40% para mulheres. Indo além, procura-se criminalizar comportamentos tradicionais de violência contra a mulher, como o casamento forçado e o assassinato por honra.

Incentiva-se, também, a criação de unidades autônomas de atuação política e militar, como os Conselhos de Mulheres (que possuem o poder de vetar as decisões dos Conselhos Populares que se relacionem às questões femininas) e as YPJ. Há, ainda, as Casas das Mulheres, que são agrupamentos de 10-12 mulheres responsáveis por promover debates sobre o lugar da mulher na sociedade e pela resolução de problemas que envolvam violência contra a mulher. O esforço pela efetivação da igualdade entre gêneros também pode ser percebido por meio da oferta de aulas obrigatórias de feminismo para toda a população, especialmente para os agentes que atuam nas forças de segurança. Já se pode identificar os impactos dessas ações nas falas de alguns militantes curdos, que, ao se compararem com os movimentos políticos parcialmente derrotados da Primavera Árabe, apontaram a negligência com a questão da igualdade de gênero como um de seus limites.

Segundo Gonul Kaya, jornalista e representante do movimento de mulheres do Curdistão, desde 1987, foram criadas diversas organizações femininas que influenciaram decisivamente a luta por igualdade. Quando os movimentos pela libertação curda se reiniciaram, em 1989, as mulheres também ocuparam posições de liderança, e, desde então, elas têm sido protagonistas, junto aos homens, na luta pela autonomia curda. Sob o lema de “Libertação da mulher é libertação da sociedade.”, os movimentos feministas também procuraram intervir no mundo acadêmico, como uma forma de aprofundar sua atuação política.

O conceito de Jineology foi desenvolvido pelas mulheres curdas que participaram dos movimentos de independência da região. O termo significa “ciência da mulher” e propõe a criação de um novo paradigma científico totalmente baseado na ótica feminina, de modo que nos permita, ainda, repensar todos os outros paradigmas existentes nas ciências sociais. Isso porque, assim como os vencedores detêm o poder de escrever a história de acordo com suas perspectivas, as ciências sociais são impregnadas pelos valores sexistas produzidos pela sociedade patriarcal. Parte-se da premissa de que as estruturas de conhecimento expressam relações desiguais de poder, sendo necessário, portanto, reavaliar (sob a ótica feminina) todo o conhecimento produzido até aqui, para que se possa superar essa desigualdade. A oferta de condições iguais na produção de conhecimento seria uma forma de corromper as bases do patriarcado, visto que a detenção de poder sob o conhecimento científico é um elemento importante da estrutura social de classes.

Vale destacar que os movimentos feministas que deram origem ao conceito se reivindicam como críticos do liberalismo e do capitalismo. Seu grande diferencial é reconhecer que mesmo os questionamentos políticos e intelectuais ao atual sistema estão contaminados por uma estrutura social opressiva, sendo urgente atingir um nível mais profundo de questionamento – algo como fazer a crítica da crítica ao sistema social em que vivemos, para que possamos criar um novo sistema.

Curdas mobilizadas para defender a liberdade de todas as mulheres.

Curdas mobilizadas para defender a liberdade de todas as mulheres.

É claro que se pode argumentar que tal proposta reproduz os mesmos problemas das estruturas sociais que critica. Mas para que se possa apontar seus limites, é preciso esforço para compreender e avaliar com cuidado os questionamentos levantados por essas teorias e práticas. Até porque não se deve confundir essa luta com a tentativa de atingir os patamares de ~liberdade ocidental. Se até aqui, as tentativas de libertar a humanidade de todas as formas de desigualdade e de opressão não conseguiram atingir seus principais objetivos (embora tenham deixado frutos importantes), devemos passar a considerar outros caminhos.

Sobre Tim Marx

Um espectro ronda a blogosfera – o espectro de um comunista barbudo com cabelo black power.
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