Notas sobre administração armada da vida “Feliz pra sempre”

* Artigo de Felipe Brito. Professor da Universidade Federal Fluminense e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). O autor agradece os provocadores diálogos com Clarice Chacon, Henrique Sater e Pedro Rocha de Oliveira.

A maior empresa produtora de mercadorias culturais do país, vez por outra, destina um pequeno intervalo de horário tarde da noite para exibir uma mercadoria denominada seriado. Como uma derivação mais sofistica das telenovelas (mercadorias que, junto com o futebol, geram a maior rentabilidade da empresa), os seriados são endereçados a consumidores tratados como mais “exigentes”, ou seja, que demandam mais do que as telenovelas dos horários tradicionais oferecem.

Caricatura retrata Carlos Lacerda como corvo, por conta de sua elevação do golpismo à categoria de modo de ação político prioritário

Caricatura retrata Carlos Lacerda como corvo, por conta de sua elevação do golpismo à condição de modo de ação político prioritário

Em janeiro de 2015, estreou mais um desses seriados, com um time global de peso, com o reforço de um cineasta brasileiro consagrado em Hollywood e de um ator/diretor teatral também consagrado em seu meio, escalado como protagonista da trama. A exposição dos dramas interpessoais das personagens de “Felizes para sempre?” contou, como pano de fundo, com o “mar de lama” brasileiro – expressão cunhada por Carlos Lacerda para designar uma “epidemia” de corrupção e vinculá-la a Getúlio Vargas, no bojo de renitentes tentativas golpistas que, concretizadas em 1964, inauguraram uma ditadura empresarial-militar de duas décadas. Passada em Brasília, a trama concatena-se ao circuito das denúncias (seletivas) de corrupção que, junto com a dramatização sensacionalista da violência urbana, satura os veículos de comunicação, marretando insistentemente a recepção dos espectadores. Na proposta de mimetizar o “mar de lama” brasileiro, a corrupção encontra-se tão esparramada no seriado que nem a personagem Black Bloc escapou. Depois de anunciar a um debutante político de classe média alta oriundo dos atos de rua de junho de 2013 que “em Brasília você não pode confiar em ninguém”, foi flagrada depois pelo mesmo adolescente (visceralmente apaixonado) recebendo dinheiro e se agarrando com o seu corruptor. Cena de péssimo gosto, aliás, com tinturas machistas, na qual uma pretensão de realce da venalidade política incluiu sexo com o corruptor.

Entretanto, é importante registrar um fato crucial: a ubiquidade da corrupção em “Felizes para sempre?” só não se completou graças à polícia, a única instituição incólume do seriado, retratada, a propósito, com traços heroicos: na cena final, a polícia não apenas captura o calculista, nababesco, licencioso e corrupto protagonista, mas também evita o assassinato da cônjuge do empresário, “laranja” involuntária de contínuos esquemas de corrupção do marido. Completando o desfecho do seriado, tomadas pelo alto, em preto e branco, do Congresso Nacional, Palácio do Planalto, Ministérios, da Bandeira Nacional, com sonoplastia e plasticidade que, decerto, contaram com a expertise hollywoodiana. Tais recursos estéticos (querendo ou não os diretores e produtores), quando articulados à totalidade da narrativa, geram um efeito de sublinhar a condição da polícia de instituição incólume, vocacionada ao combate do “mar de lama” – inclusive o pai do protagonista ultracorrupto era um delegado aposentado da polícia federal, moralmente austero nos atos mais comezinhos da vida cotidiana e, decerto, enojado com o “mar de lama” do país. Cabe pontuar que tais recursos (especialmente os das tomadas panorâmicas em preto e branco) foram usados no “Tropa de Elite 2”, conferindo uma certa familiaridade ao espectador que muito provavelmente consumiu tanto o primeiro como o segundo filme da série.

A polícia como agência que estrutura a ação do Estado nas favelas

A polícia como agência que estrutura a ação do Estado nas favelas

Nessa linha argumentativa, podemos considerar que se trata, em alguma medida, da elevação da polícia à condição de “agente de transformação social”, conforme proclamou, certa feita, o famoso “comentarista de segurança” do RJTV, Rodrigo Pimentel (roteirista e fonte inspiradora para a criação do protagonista do filme mais assistido do cinema brasileiro – o já citado “Tropa de Elite”), em um dos seus enaltecimentos das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Por falar em UPP, na medida em promovem uma “gestão” policial de determinados territórios favelizados da cidade do Rio de Janeiro (leia-se relações sociais), consagram o modelo da “segurança como porta de entrada da cidadania”, de modo não somente a assegurar, mas a acionar, engendrar a “cidadania” (cada vez mais plasmada pelo e para o mercado). Em 2008, nos 200 anos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, uma propaganda comemorativa estetizava tal modelo: em síntese, um camburão da Polícia Militar sobe uma ruela de uma favela carioca em alta velocidade. O veículo para. Um policial militar de semblante sisudo dele sai e, subitamente, abre a caçamba, de onde surgem médicos, professores, assistentes sociais, etc. Nesse momento, entra uma idílica trilha sonora e um narrador declara: “segurança, a porta de entrada da cidadania”. A presença “social” do Estado nas periferias urbanas brasileiras (requerida pela Constituição Federal de 1988) encontra-se, no mínimo, escasseada e fragmentada (ao contrário da dimensão estatal vigilante-punitiva-repressiva). Isso coloca a propaganda num trânsito entre a empulhação, o autoengano e a ideologia (nos sentidos marxianos), e esse trânsito compõe a expansão de administrações socioespaciais armadas, circunscritas à hipertrofia do sistema penal-punitivo. Mais do que legitimada, tal hipertrofia fica monumentalizada quando as representações dominantes conferem os papéis de “agentes da cidadania” ao aparato policial e a própria forma política de atuação e regulação da sociedade passa a ser cada vez mais pautada pela “lógica da segurança”. Dentre muitos exemplos, o que seria a retomada da internação compulsória de usuários de drogas, que mobiliza uma abordagem interdisciplinar de médico, psicólogo, assistente social, guarda municipal, polícia militar etc, senão alguma coisa nesse registro?

Policial carrega taco com a insrição "Direitos Humanos", evidenciando o triunfo da lógica punitiva

Policial carrega taco com a inscrição “Direitos Humanos”, evidenciando a força da lógica punitiva

O fato é que as relações sociais do capitalismo tardio, perpassadas pelo “fetichismo da mercadoria” (Marx), vão se reproduzindo com pesadas doses de automatismo e, enquanto tal, reiterando a interdição de uma práxis transformadora. Uma das expressões socioculturais mais recorrentes dessa interdição (continuamente reiterada) é algo que podemos caracterizar como um ceticismo passivo. Erguido sobre a naturalização das categorias fundantes da sociedade capitalista (como mercadoria, dinheiro, mais-valia, Estado etc.), o ceticismo passivo tende a banalizar fenômenos sociais do dia-a-dia, como a violência (letal) sobre favelados e negros. E vale frisar que segundo indicações históricas e sociológicas, momentos de crise capitalista agudizam essa tendência. O ceticismo passivo favorece a propagação de um clima cultural de incredulidade e esculhambação, vulnerável à adesão (ou, pelo menos, aquiescência por “inércia”) aos “choques de ordem” e “pacificações” diversas que prometem “ordenar” uma sociedade “zoneada”, “esculachada”, “enlameada”. A propósito, é muito fácil isso tomar a forma de uma “ideologia da defesa social”, que busca debelar as fontes “desarmonizadoras”, “desestabilizadoras” de um fantasioso “organismo” social “harmônico” e “estável”. Não são raras as descargas de ira contra as entidades militantes dos direitos humanos, acusadas de atrapalhar o embate dos “cidadãos de bem” contra os “inimigos da ordem” (delinquentes/meliantes/bandidos). Assusta também a facilidade com que a maioria esmagadora de brasileiras e brasileiros acolhe propostas de diminuição da maioridade penal e outras no sentido do recrudescimento penal-punitivo.

Certamente esse clima cultural de incredulidade e esculhambação encontra respaldo nos sucessivos capítulos da modernização conservadora brasileira, caracterizados, grosso modo, por mudanças pelo alto (costuradas por acordos das elites dominantes) para manter “tudo como está”, numa formação social edificada sobre a escravidão. Mas, também recebe uma (calculada) insuflação artificial da grande mídia, cujos laços atávicos com o poder econômico e político pautam seus funcionamentos e organicidades, contribuindo para instrumentalizações arrivistas do ceticismo passivo, como a proposta (golpista) do impeachment de Dilma Rousseff feita por PSDB e afins. Nesse rastilho conservador que articula objetividade social opressiva e marretadas de representações e símbolos da grande mídia, a aludida dramatização sensacionalista da violência urbana desempenha papel destacado: perenizando a sensação social de medo e insegurança, alimenta a supracitada “ideologia de defesa social” e, por extensão, o ceticismo passivo. Expressões desse processo podem ser identificadas na privatização/terceirização da segurança e na correlata expansão da “indústria do controle do crime” (Nils Christie), que constituem tendências significativas do agigantamento vigilante-punitivo-repressivo.

O MTST ocupa as ruas do país em sua luta por moradia e em defesa de uma nova lógica societária

O MTST ocupa as ruas do país em sua luta por moradia e em defesa de uma nova lógica societária

Tratar o sistema punitivo (com ênfase nas polícias) como o refúgio, por excelência, à redenção do “mar de lamas” e de outras mazelas sociais é se colocar na contramão dos rumos que visam uma efetiva e radical transformação da sociedade capitalista. Como alternativa, urge o destravamento da práxis transformadora, que é um desafio para a prática social, na busca da superação do ceticismo passivo e do nível alarmante de automatismo com que as relações sociais capitalistas são reproduzidas. E, como já anunciara Henri Lefebvre, o desafio de destravar a práxis transformadora passa pela “questão urbana”, posto que a transformação radical da sociedade capitalista é, em elevadíssima medida, a transformação radical do urbano. Movimentos de luta territorial, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), passam a (re)adquirir papel estratégico na transformação efetiva e radical da sociedade capitalista.

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Uma resposta para Notas sobre administração armada da vida “Feliz pra sempre”

  1. Sandro disse:

    A foto em que o policial carrega um bastão com tal inscrição na verdade foi parte de uma operação contra a famigerada milícia “Liga da Justiça” e junto com este, outro bastão foi aprendido com a inscrição “Liberdade”. O horror.

Comentários

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