Organizações Globo – uma história de serviços prestados às direitas

* Texto escrito por João Braga Arêas, doutor em História pela UFF e professor do Colégio Pedro II.

“Sinto-me feliz, todas as noites, quando ligo a televisão para assistir o jornal [nacional]. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.

"É o Brasil ao vivo aí na sua casa."

“É o Brasil ao vivo aí na sua casa.”

Essas célebres palavras do presidente-general-ditador Médici ilustram o apoio do Jornal Nacional à ditadura militar (1964-85). De fato, as Organizações Globo têm uma história profundamente vinculada ao regime ditatorial.

Roberto Marinho, dono do jornal O Globo e da Rádio Globo, esteve envolvido nas articulações militares, políticas e empresariais que redundaram no golpe civil-militar de 1964. A rádio de Marinho reproduzia mensagens do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) – organização ligada às multinacionais voltadas para a deposição do governo João Goulart – sem citar a fonte ou indicar que se tratava de matéria paga. Um dos “fatos” transmitidos de maior impacto foi o de que a União Soviética instalaria um “Gabinete Comunista” no Brasil. O empresário do IPES, Leopoldo Figueiredo, pagou 714.000 cruzeiros pelo apoio político de O Globo. Também foi dado dinheiro para a publicação em fascículos do livro Assalto ao parlamento, que narra a ascensão dos comunistas na Tchecoslováquia. O envolvimento de Marinho também é ilustrado pelo fato de a primeira reunião da Campanha da Mulher Democrática – movimento conservador ligado ao IPES que visava reunir mulheres de classe média – ter ocorrido no auditório de O Globo.

A derrubada de João Goulart foi celebrada por um editorial de O Globo, que chamou o movimento de “revolução”:

Graças à decisão e heroísmo das Forças Armadas, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo a rumos contrários à sua vocação e tradições (…) Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares.

Instaurada a ditadura militar, Roberto Marinho se mostraria uma figura influente já no primeiro governo militar, de Castelo Branco. Documentos norte-americanos escritos pelo embaixador Lincoln Gordon, recentemente tornados públicos, revelam que Marinho vinha “trabalhando silenciosamente” pela prorrogação ou reeleição do presidente da República. O dono das Organizações Globo vinha contatando vários indivíduos centrais do governo de então, como general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar, o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) e Luiz Vianna, chefe da Casa Civil. Marinho observava que as eleições diretas poderiam consagrar a oposição, risco que não existiria se o pleito fosse indireto, vide a força do governo no Congresso. Marinho sugeriu ainda mudanças no ministério, propondo que a pasta da Justiça passasse de Milton Campos para Juracy Magalhães, alteração que viria a ser realizada por Castelo Branco.

Logotipos da Rede Globo

Com tamanha influência no establishment político-militar, não é de se estranhar que a ditadura tenha livrado Roberto Marinho das denúncias referentes à organização da Rede Globo, criada em 1965, um ano após o golpe militar. Infringindo a Constituição, Marinho se associou a um grupo de comunicação estrangeiro – a norte-americana Time-life. O know-how e os recursos financeiros obtidos a partir dessa associação colocariam a Rede Globo à frente das emissoras concorrentes. A TV de Marinho contratou importantes nomes que pertenciam à TV Excelsior, à TV Rio e à TV Tupi, entre eles: Chacrinha, Dercy Gonçalves, Flávio Cavalcanti, Dias Gomes, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Regina Duarte, Francisco Cuoco, Walmor Chagas, Jô Soares, Chico Anísio, Cid Moreira e Walter Clark.

Uma CPI chegou a ser organizada e seu relatório final considerou os contratos firmados entre a Globo e a Time-life irregulares. Porém, importantes figuras da ditadura militar saíram em defesa das empresas de Marinho e declararam que suas operações haviam sido legais, o que garantiu a expansão das Organizações Globo, que em pouco tempo se tornaram o maior grupo midiático do Brasil.

Grupos dirigentes do regime militar, em sintonia com a Doutrina de Segurança Nacional, tinham interesses no desenvolvimento das telecomunicações (ilustrados pela criação da Embratel) e na instituição e fortalecimento de pelo menos um grupo de mídia no país – o que favoreceu as Organizações Globo. Estas, por sua vez, veiculavam notícias e entretenimentos que legitimavam a ditadura militar, daí as célebres palavras de Médici, que citamos no início deste texto. A sintonia entre a Globo e o regime militar foi admitida por Walter Clark, ex-diretor da TV Globo, em seu livro de memórias: “ok, a Globo prestigiava os militares. Fizemos a festa do Sesquicentenário da Independência, cobríamos as Olimpíadas do Exército, transmitíamos as paradas de 7 de Setembro”. Mesmo um livro bajulador, como a biografia de Roberto Marinho escrita por Pedro Bial, registra a sintonia Globo-ditadura: “acontecia que onde chegasse um novo braço da Embratel, lá iam em seguida os executivos da Globo, ver se valia a pena adquirir uma nova emissora concessionária na região”.

chargegloboAs manchetes e os editoriais de primeira página de O Globo do período 1969-71 também ilustram a proximidade das empresas de Marinho com a ditadura. O jornal comumente louvava o “milagre econômico” e sustentava que havia democracia no Brasil (mesmo nos momentos em que o Congresso Nacional esteve fechado!), além de se mostrar carinhoso com os ditadores de plantão, como no caso da grande manchete do dia 31/12/1969: “Um feliz ano novo, presidente [Médici]”. O tratamento dado pelo periódico à esquerda armada utilizava as mesmas expressões do regime, como em “Subversão só tem um objetivo: matar e destruir – outro jovem abandona o terror” (09/07/1970). Finalmente, O Globo publicou diversas matérias alegando não haver tortura no Brasil e acusando as pessoas que denunciavam os suplícios de promoverem uma “campanha contra o Brasil”. Daí o tratamento a D. Hélder Câmara, que teve uma foto sua publicada em 4/8/1970 acompanhada da frase: “D. Hélder: por toda Europa, uma cruzada contra seu próprio país”. Para o jornal de Roberto Marinho, ser contra os horrores da tortura significava ser antipatriota.

No início dos anos 80, refletindo os conflitos intra-classe dominante e a crise da ditadura militar, as Organizações Globo começavam a se afastar do regime militar. Um diretor do JN reconheceu: “não podíamos continuar tentando vender um produto tão impopular como o Ministro Delfim Neto”. Ao mesmo tempo, os veículos de Marinho mantinham sua cobertura contrária às organizações populares e às esquerdas em geral. As greves operárias do ABC paulista eram noticiadas sempre de modo favorável aos patrões – um programa do Globo Repórter sobre o sindicalismo foi censurado por ordem dos diretores da emissora. O cineasta Eduardo Coutinho, que trabalhou no referido programa televisivo, lembra: “era mais fácil trabalhar na Globo em 1970 (…), naquele momento não era a Globo que censurava. De 1979 para adiante, muda inteiramente: o governo abre e a Globo fecha. E fecha tão mais fortemente, quando começam a ascender as forças de esquerda”.

A crise da ditadura militar e a instauração da “Nova República” não levaram ao enfraquecimento das Organizações Globo. Pelo contrário, o conglomerado midiático se mostrava ainda mais influente. Os primeiros presidentes da República civis costumavam nomear os cargos de primeiro escalão de seus governos consultando Roberto Marinho. Mais uma vez, recorremos a um trecho do livro puxa-saco de Bial: “é natural que, na hora de escolher os seus ministros, o presidente eleito Tancredo Neves submeta os nomes, um a um, ao dono da Rede Globo”. Percebe-se que Bial considera “natural” Marinho agir como se fosse um chefe de governo não eleito.

As Organizações Globo valeram-se de sua influência política para combater as organizações de caráter popular que vinham se organizando na virada dos anos 70-80, destacando-se o PT e a CUT, e difundir e vulgarizar o receituário neoliberal. Em sintonia com os interesses de várias associações empresariais, as empresas de Marinho passaram a apresentar as privatizações, a abertura comercial e a desregulamentação econômica como a solução para todos os males do país.

A família Marinho, dona das Organizações Globo, detém hoje uma fortuna estimada em U$ 28,9 bilhões.

A família Marinho, dona das Organizações Globo, detém hoje uma fortuna estimada em U$ 28,9 bilhões.

O conglomerado de Marinho deu uma fundamental contribuição ao neoliberalismo em 1989. Naquele ano, ocorreram eleições presidenciais diretas, as primeiras após a ditadura. A candidatura de Lula (PT) representava, então, uma ameaça às classes dominantes, pois representava as classes trabalhadoras e apresentava um programa de esquerda. As Organizações Globo lançaram-se em uma desesperada campanha em favor de Collor e procuraram desqualificar o petista. Para se ter uma ideia dos esforços em prol do candidato da direita, vale citar as palavras utilizadas por O Globo nas matérias e editoriais sobre Lula e o PT: hordas, extremistas, fanáticos, xiitas, radicalismo, totalitarismo, ditadura, fascistas, Hitler, censura, algema, patrulhamento, assalto, selvagem, hostilizar, invadir, arrombar, rasgar, destruir, socos, pauladas, enfurecidos, lobo, velho, contramão, obsoleto, falido, caos, calote etc.

As Organizações Globo continuam servindo às direitas e as classes dominantes, seja desqualificando as organizações populares, como o MST, seja promovendo certos tipos de engajamento social, como a filantropia, ou ainda apresentando a norma como exceção. Afinal, as reportagens sobre a Operação Lava Jato exibem empreiteiros obtendo irregularmente vantagens em agências ou empreendimentos estatais. Tais casos estão sendo mostrados como exceções à norma, frutos da corrupção do governo do PT. Mas sabemos que não se tratam de casos especiais: o Estado brasileiro é estruturalmente atravessado pelos interesses empresariais e das classes dominantes. A história das Organizações Globo é um exemplo disso.

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