Veja, crises, golpes e hegemonia

* Texto escrito por Carla Luciana Silva. Historiadora. Professora da UNIOESTE. Para acessar outros textos da autora: http://carlalucianasilva.blogspot.com.br/.

Uma revista que existe no Brasil desde 1968 deveria servir para contar a história do país. Mas, muito mais do que contar, a revista Veja tenta apontar os rumos da história, indicar os caminhos que devem ser seguidos. Quando ela se propõe a acompanhar e “vigiar” o poder, o que ela pretende de fato? Formar opinião que permita criar as bases sociais para as políticas que ela necessita. E essas políticas são a da dominação, da manutenção controlada do sistema capitalista brasileiro. Atualmente, é evidente o vínculo de Veja com políticos do PSDB e de seus órgãos formuladores, mas a sua organicidade cobra, o tempo todo, poder de decisão para a própria revista e seus intelectuais. Eles também participam do debate para definir as opções e rumos políticos e econômicos.

É importante separar aqueles que leem e até assinam a revista daqueles que são obrigados a “Vê-la”, e por isso o sugestivo título é tão impositivo, sugere que se veja algo que já está à frente de seus olhos: Veja nas bancas de revista, no consultório do médico, no dentista. Você não precisa ser um militante da revista para ler, basta ver. Quando alguém assina a revista torna-se um leitor assíduo, um “partidário” da revista. Quem deixa de assinar recebe para sempre sua publicidade propondo que volte a assinar: “o que vale mais? O que você ouve ou o que você lê?” e a revista responde: “Vale o escrito. A história do seu país continua sendo escrita nas páginas de VEJA”. (Publicidade da revista, março/2015) Vale o escrito, mas ela continua insistindo nos ícones, para que “vejamos” através dos seus olhos.

As capas da revista são sempre cuidadosamente preparadas e escolhidas. Há uma permanência que atravessa décadas e que parece buscar no fundo das percepções dos leitores (e também dos observadores) algum sentido. A crise que derrubou Collor foi inflada pela imprensa brasileira. A corrupção faz parte do capitalismo, mas apenas em alguns momentos figura nas capas de revistas e jornais. Quando isso acontece tem sido sistemática a postura da imprensa tentar derrubar o presidente, como fez com Collor, Mesmo tendo dado base de sustentação a ele, tendo sido seu cabo eleitoral e acreditando que ele representava o moderno neoliberal que o país precisava para os planos de Veja. Mas, não basta dizermos isso, é preciso mostrar, comprovar. A melhor forma de construirmos um contra-discurso à mídia é compreendermos a forma como o seu discurso se constrói, sistematicamente. Foi o que tentamos fazer ano analisar toda a crise que derrubou Collor em 1993 [1].

A cobertura de Veja começa com a criação do “Caçador de Marajás”. Ou seja, a criação de um candidato que fosse maleável e obediente. No momento que deixou de ser, tornou-se indesejável. (Silva, 2010). Mas engana-se quem pensa que durante o período de Fernando Henrique Cardoso (o candidato a quem também ajudou a eleger) Veja viveu uma lua de mel eterna. Ela que ajudou a construir o candidato do “Brasil que vai dar certo”, o “príncipe dos sociólogos”, cobrava dele o tempo todo mais avanços no projeto de privatização e desregulamentação da economia.

Quando houve o impeachment, a revista fez uma de suas raras edições extras, mostrando o cabisbaixo presidente que “caiu”, denominando esse ato de “revolução”.

veja - collorveja - janot

No contexto das manifestações “Fora Dilma” em 2015, outra capa imita a de Collor. Não há coincidência. Há repetição, alusão, lembrança, memória, identidade. Há elementos presentes no conhecimento prévio, no senso comum, que vão sendo repetidos e trazidos para reforçar uma tese. O que está em jogo aqui não é a figura de um ou outro candidato, mas sim o papel de quem real e efetivamente toma as decisões que precisam ser tomadas, e no caso, a imprensa, a revista da Editora Abril.

Com Collor deu certo. Com Lula no governo, houve apenas uma tentativa desestabilizadora que não se efetivou, como percebemos na capa de 17/8/2005. Ao longo dos anos, a figura de Lula foi sistematicamente acompanhada pela mídia, e acreditamos que Veja teve um papel no transformismo político que ele sofreu, passando de um político “perigoso” a um político “aceitável”.

Mas a aceitação por parte da grande imprensa foi pontual e instrumental para poder cobrar políticas do seu governo, e as denúncias de corrupção ajudaram a criar um clima favorável a esta cobrança, ameaçando até mesmo com sua destituição:veja - impeachment do lula

A revista ajudou a criar um contexto de “luta de Lula contra o impeachment”, deixando claro seu papel de pressionar e julgar, como se ela falasse em nome de todos: “a defesa do presidente na televisão não convence e ele perde a chance de explicar o escândalo”. Isso nos remete a colocar o problema de como a imprensa elege problemas para exigir sua solução da forma que ela mesmo deseja.

É preciso tentar entender como a imprensa, e no caso, Veja, tem lidado com a crise. Em primeiro lugar, devemos tentar localizar seu lugar na formulação da própria crise. Ela busca indicar a existência de ameaças para, depois, indicar a solução. Em 4 de março de 2015 a capa alertava: “A crise é de confiança”. Ao dizer isso está subentendida uma relação pessoal, de camaradagem, de relação rompida, mas que poderia ser reatada dadas as condições necessárias, e com isso, justificava-se mais pressão ao governo.

Em 15 de março, segundo análise do Editorial da revista, o problema, além da crise, estava em “energias desestabilizadoras”. Qualquer semelhança com o discurso de renúncia de Janio Quadros em 1961, que se justifica por “forças ocultas”, não é coincidência, é tática.

veja - trab domésticoAssim como nas revistas femininas que fazem as mulheres se sentirem gordas e feias para depois apresentar produtos que resolvem isso, na política, a tática é criar o problema e depois dizer como deve ser resolvido. Mas isso é feito em nome de uma suposta universalidade, ou seja, a fala da revista mostra a si mesma como portadora do discurso de todos, “do país”, da “sociedade” dos que “não aguentam mais pagar impostos”. Ou seja, ela busca criar uma racionalidade histórica universalizante. E dentro dessa hegemonia proposta, a exclusão social tem lugar garantido. Ela fala em nome da classe média que certamente se identificou com a capa de 3/4/2013: VOCÊ AMANHÃ, com a foto de um homem “fora do lugar”, pelo que se depreende de sua expressão corporal, lavando louça, e o alarme: “As novas regras trabalhistas das empregadas são um marco civilizatório para o Brasil – e um sinal de que em breve as tarefas domésticas serão divididas por toda a família”.

Por tudo isso, não é o caso de desposar a tese da “imprensa golpista”, porque isso não resolveria o problema. Que a imprensa apoiaria um golpe, parece claro. Apoiou em 1964 no Brasil; apoiou recentemente no Paraguai contra Lugo; apoiou o fracassado golpe contra Chavez na Venezuela, poderíamos multiplicar os exemplos. O problema é mais complexo e há uma pista na fala do colunista da Veja, o Reinaldo Azevedo: “não há saída fora do Estado democrático”. (Vejaonline, 31/3/2015) Um golpe seria imprevisível e talvez incontrolável. A corrupção que corre nos dias atuais é muito mais ampla daquela da ditadura, que era dividida a partir dos generais no comando pois é preferível ter controle do processo sem uma ruptura institucional.

Mas a questão não termina aí, porque o golpe não resolveria e não há claramente alguém capaz de assumir o timão. As últimas tentativas de criar líderes populares de Veja tem fracassado: Maycon Freitas (Entrevistado nas páginas amarelas intitulado: “a voz que vem das ruas”, autoproclamado líder da obscura União Contra a Corrupção) e Rogerio Chequer (Movimento “Vem pra rua”).

Há um problema de fundo a resolver, e ele é a forma de tocar adiante o sistema econômico tal qual está ai. Trata-se daquilo que René Dreifuss diagnosticou no processo constituinte de 1987: o “jogo da direita”. Se ela não sabe exatamente pra onde ir, as experiências recentes parecem mostrar a necessidade de uma certa cautela. Porque as jornadas de junho mostraram, no Brasil, que a luta de classes não está morta nem o comunismo enterrado como tantas vezes foi apregoado pelo pensamento único de Veja.

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[1] SILVA, Carla Luciana. VEJA: o indispensável partido neoliberal. Cascavel, Edunioeste, 2010. A tese na íntegra está disponível em: marxismo21.org/wp-content/uploads/2012/08/Veja-Carla-Silva.pdf.

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