“Deixa estar”: fé e ação interessada no banquete da Direita

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Cena do filme “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luís Buñuel.

Quem não ganhou convites para o banquete da Direita ficou confuso. Televisões, professores e jornais passaram anos e anos cacarejando que de podre caiu a velha síntese. Aqui e ali se negava a possibilidade de entender o espectro político e as oposições entre Esquerdas e Direitas: “o quadro é complexo”, “esses conceitos reduzem o colorido da realidade”. Sobrava alquimista transformando chumbo em ouro.

Com as evidências de crise da Nova República de 1988, os traços da maquilagem de má qualidade escorreram. Até o responsável por arrebanhar velhos clientes para nova assinatura d’O GLOBO me perguntou se a negativa era pelo fato deu ser de esquerda. Em pleno Abril de 2015, negar o crescimento e a organização de forças políticas da Direita é perder o início da tragédia.

Mas quais os grupos sociais acocorados nas posições típicas da Direita? E quais são as características elementares dessa inclinação política?

Expulsa a fumaça

Neste blog (“O que significa ser deesquerdaou ser dedireita‘?”), o contexto de profundas transformações, iniciado na França de 1789, foi lembrado como terra fértil dos conceitos de “esquerda” e “direita”. Numa síntese, enquanto vigorava a Assembleia Legislativa (1791-1792) daquele país, setores conservadores se aninhavam à direita da plenária e zelavam pela manutenção das “coisas como elas estavam”. À esquerda, sacudiam-se parlamentares defensores de políticas mais progressistas (buscando a transformação do que consideravam “atrasado”, “pouco civilizado”). Enquanto ganhava força a luta por uma cidadania mais profunda e completa, igualitária, capaz de multiplicar e dividir realmente a riqueza social, alguns políticos e setores da sociedade que àquela época se identificavam com pautas de transformação e de defesa dos interesses dos cidadãos (‘citoyen’) “pisaram no freio” das transformações e agiram como “forças conservadoras”, realidade que pode desorientar os sentidos.

Os cenários e personagens da política se transformam rapidamente, mas um Estado controlado por quem vive de altas rendas, frutos do trabalho alheio, e irrigada pelos seus interesses é uma realidade até os dias de hoje, o que ajuda a clarificar as coisas. Se as Esquerdas se identificam com a conquista de direitos para desprivilegiados, engajando-se na consolidação dessas vitórias e das várias formas de organização política de grupos sociais historicamente em posição de desvantagem (na terra Brasil, consolidação de direitos é muito mais um caminho para as transformações: vide as forças titânicas contrárias ao princípio da “função social da propriedade privada”). As Direitas, por seu turno, a)agitam-se pelo protagonismo do indivíduo no gozo de suas propriedades, b)acreditam na necessidade de seguir normas que julgam maiores do que sua ousadia (leis fora do alcance à humanidade, naturais e/ou divinas), mesmo que elas atentem contra o desejo de superar a desigualdade e c)se esforçam para que o país e sua população se alinhem a processos econômicos e políticos que, na maioria das vezes, são alheios à ideia de desenvolvimento autônomo, independente, altivo e soberano do país e de sua população. É como se o objetivo fosse “deixar levar” pelas ondas poderosas do capitalismo, na toada ciclópica do Império.

Por isso, ainda que as forças da direita estejam trabalhando intensamente para fazer valer seu ponto de vista, alcançados seus objetivos imediatos ou profundos, resta “tocar música pronta”. Entre os “sucessos nacionais”, o objetivo de retorno ao modelo rígido e dogmático de “família brasileira”, a sanha por segurar com unhas e dentes as condições de desigualdade. Basta reproduzir as estruturas já conhecidas, idosas e em pleno vigor: sua pulsão não é expansiva e florescente, mas empedernida e conservadora.

Os “sucessos internacionais”, cantados em inglês, dirigem o Brasil e sua gente para um papel pequeno, de gente fascinada com a cultura civilizada e “de fora”, além de uma posição na ordem política e econômica global subalterna e colonizada. Nos centros dinâmicos do capitalismo mundial, estudiosos já sinalizam que economias dedicadas às atividades complementares à produção, que abandonam a “manufatura”, podem apresentar deterioração de interdependência entre as atividades de produção e a capacidade de gerar inovação tecnológica, mostrando antídotos para países que estão muito longe da catástrofe. A Direita brasileira, por seu turno, através do Instituto de Política Econômica/Casa das Garças e na pessoa de sua presidente, Monica Baumgarten de Bolle, propõe o inovador caminho da velha “vocação agrícola” e, ainda, sustentam a economia brasileira mais baseada em serviços e não em indústria, […] não é necessariamente ruim.

Academia e fazendeiros ensaiam o sentido da colonização (especialmente págs. 7 e 8) no coro do liberalismo econômico.

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Monica de Bolle, Presidente da Casa das Garças

Classes sociais e os interesses econômicos e políticos da Direita

Condições de vida muito distintas produzem interesses antagônicos, mas a esperada harmonia entre representantes de uma mesma classe pode ser frustrada. O papel econômico de suas partes pode se desdobrar em interesses não convergentes e, as vezes, em conflito.

Entre os do topo da pirâmide social, um dos setores mais antigos, enraizados e “muito vivo” é o dos proprietários de grandes faixas de terra e os donos de imóveis nas cidades que rendem aluguéis cobrados de famílias ou de empresas. Seja o seu negócio uma nada produtiva espera pela valorização desses imóveis, seja a tradicional condução familiar da produção em imensas terras ou empresas agrícolas de alta tecnologia financeira e jurídica (como as do agronegócio), qualquer subversão ao “direito de propriedade privatista” compromete os rendimentos desses setores. Sua face conservadora ruboriza diante das ideias de atualização de índices de produtividade agrícola (que pode dar munição para quem luta pelo acesso à terra e à moradia), restrição de aumentos no preço do aluguel de imóveis, IPTU progressivo para imóveis desocupados etc.

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Fazendeiros e suas famílias protestam: será que essxs senhorxs vivem de seu trabalho?

Outra parte da classe burguesa privilegia grandes investimentos nas finanças e tem na compra e venda de ações de empresas, títulos de fundos de investimento, pensão e previdência (ou seja, aposentadoria alheia) seus meios de viver com muita riqueza material. Depois de vitória estrondosa na derrubada de imposto que incidia sobre transações financeiras (CPMF) e na condição de estabilidade e poucos riscos que lhes é comum, o terror mais palpável dos rentistas da atualidade é a intervenção de políticas de Estado no sentido de reduzir os juros cobrados em empréstimos e financiamentos (como a redução da taxa de juros decretada pelo Banco Central, que orienta a cobrança dos demais bancos ou, ainda, o incentivo à competição entre bancos públicos e privados). É com ardil que a inflação venenosa, combatida com instrumentos de correção da moeda de aumento dos juros, torna-se benção para algumas pessoas e, por vezes, até as quedas na produtividade industrial e no emprego se desdobram em lucro fácil para o rentismo (há títulos do Tesouro que prometem 12,5% de lucro anual, sem descontar a inflação, enquanto atualmente as maiores economias do mundo oferecem até taxas negativas para títulos de suas dívidas públicas).

Gente ligada aos setores industriais e porções da classe que atuam no varejo, como donos de supermercados, de lojas grandes de comércio especializado, e-comércio, televendas e de hortifrutigranjeiros dependem da qualidade do consumo e da fome dos consumidores pelos seus produtos. Emprego e renda do trabalhador, assim como o valor da moeda nacional em comparação com as moedas estrangeiras são realidades que lhes tocam diretamente. A desvalorização da moeda nacional torna peças e equipamentos importados mais custosos, enquanto arrocho salarial e desemprego comprometem o consumo.

A intervenção do Estado em sociedades capitalistas é aliado velho da burguesia industrial nacional ou de forte dependência das forças produtivas nacionais, como empreiteiras, siderúrgicas, montadoras de automóveis e outras. É comum, portanto, ver esses setores sustentarem posições sobre economia mais à esquerda dos demais segmentos da classe burguesa, mas há limites claros para seu apoio às políticas de nacionalismo econômico em prol da indústria nacional. A estabilidade econômica (que significa abraçar as expectativas do capital internacional) e a qualidade de bom pagador de intermináveis dívidas garantem selos de agências de avaliação de riscos de investimento, como Fitch, Moody’s e Standard & Poors, e são determinantes dos juros estabelecidos para empréstimos internacionais a esses setores: ou seja, seus interesses de classe não permitem desafiar radicalmente as coisas como elas estão. Fiadores da política de conciliação de classes levada a cabo pelos governos nacionalistas e embebidos até o pescoço nos negócios com investimentos públicos, sua preferência por políticas de industrialização e incentivo ao consumo não diminui seus ataques contra direitos dos trabalhadores e suas formas de organização (vide sua vitória no andamento da regulação da terceirização de mão de obra e a solidariedade desse setor com as restrições ao direito de greve).

Porções da classe burguesa querem humanizar o capitalismo com o receituário do novo keynesianismo, outras, por seu turno, veneram sua inumanidade voraz, confiam nas sagradas leis de mercado e rezam a cartilha do novo liberalismo econômico. De quando em vez, os pais fazem as pazes e cuidam da criança de braços dados.

Inserção política e projetos de Estado burguês

Decerto não passa despercebido o crescimento retumbante da “bancada evangélica”, composta por congressistas de diversos partidos e ativismo notável, inclusive entre as agremiações que defendem bandeiras históricas das esquerdas (como o PT e o PSOL). A conservação de modelos de famílias, modelos de relações amorosas, modelos de interpretação dos caminhos da fé, modelos de controle da saúde do corpo e, especificamente, da saúde da mulher forma inclinações políticas de muitos aliados no Brasil, frutas maturadas por séculos de pregação sob a mesma bíblia judaico-cristã. Extensão complicada dos púlpitos e altares nas engrenagens de um “Estado laico”.

Bancada-evangélicaOração coletiva nas dependências do Congresso Nacional com parlamentares da “bancada evangélica”, em 2012.

Assim como alguns buscam manter a hegemonia no campo dos costumes e das visões de mundo através do poder público, para sobreviver enquanto classe dominante, patrões e ricões ocupam espaços governamentais e institucionais. No que diz respeito à burguesia ligada ao campo, especificamente, seu papel no conjunto das mercadorias exportadas pelo país é tanta e sua organização tão bem conduzida, que não é difícil ver vitórias políticas desses grupos na indicação de ministros (como a Senhora Ministra da Agricultura, Kátia Abreu do PMDB do Tocantins) e na formação de uma bancada parlamentar gorda como é a dos “ruralistas” (PMDB, DEM, PSDB, PP, PR, PSD, PTB e outros partidos com menor quantidade de deputados). Os setores industriais, além dos sindicatos e organizações de patrões, como a Federação das Indústrias de São Paulo e a Confederação Nacional da Indústria (cujo último presidente, Armando Monteiro, do PTB, foi selecionado para ocupar o cargo de ministro da Indústria), irrigam os mais diversos partidos políticos com seus financiamentos de campanha e é difícil listar todas as legendas que lhes dão aporte. Sua influência vai da composição da “bancada da bala”, financiada por empresas de armamentos (e não só por ódio ou ideologia de “desobediência civil”), até os negócios pouco ensolarados nas obras e compras gerenciadas pelos governos.

A aproximação de representantes do mercado financeiro com legendas direitistas são ainda mais notórias em tempos de corrida eleitoral. Desde o PSDB de Aécio Neves, partido ungido como a maior expressão política da Direita apegada à ordem democrática (mesmo que seus quadros prefiram pensar em sua natureza como uma “centro esquerda”), passando pela presença da “educadora” e banqueira, Sra. Neca Setúbal, na campanha de Marina Silva (ainda filiada ao PSB), é difícil não encontrar as digitais desses setores. Será que alguém acredita no esclarecimento repentino do candidato de Direita, Sr. Pastor Everardo (PSC), estudioso aplicado das receitas dum liberalismo radical, conforme tentou demonstrar durante as eleições?

arminio-aecio-marina-necaArmínio Fraga, Aécio Neves, Marina Silva e Neca Setúbal

No polo mais extremo da direita, nenhuma novidade nos projetos de organizações fascistas, dos tradicionais integralistas aos skinheads, de saudosos da ditadura militar e outros coloridos da extrema direita, que há muito sustentam pregações moralistas (como as denúncias do tipo “mar de lamas” e “crise moral”) e práticas autoritárias na militância contra as formas históricas de organização dos trabalhadores (partidos, sindicatos e movimentos sociais e seus métodos de ação coletiva), além de combaterem o projeto socialista e transpirarem pautas conservadoras da ordem dos costumes (fertilizada, normalmente, por algum discurso de naturalismo religioso). Sem qualquer atualização no discurso desde a primeira metade do século XX ou transformação da característica das pessoas que assumem a liderança desses movimentos (normalmente assumida por filhos da pequenoburguesia), novo é o tamanho vulto que ganharam em apresentações públicas tão desavergonhadas. A desaprovação da intervenção militar como solução política por novas organizações como o Revoltados Online, o Movimento Brasil Livre e Estudantes pela Liberdade, não desestimulam essas lideranças do “golpe branco” do Impedimento (“Impeachment”), tampouco os convida para uma reforma política que acabe com o insidioso financiamento empresarial das campanhas eleitorais. Faz pensar…

O papel dessas novas organizações e lideranças da direita, num contexto de práticas cada vez mais extremadas e típicas da extrema direita, é incerto. Mas é evidente que não se moveu uma palha no combate frontal às práticas de ódio, seja pelos órgãos de divulgação das ideias direitistas (como o Instituto Millenium, o Instituto Liberal, revista VEJA, Grupo Jovem Pan-UOL), seja pelos influentes propagandistas desses projetos, como articulistas de jornais e revistas impressos, da televisão, ideólogos do Partido Novo etc. Lucrar com o ativismo de movimentos antidemocráticos e que atentam contra a organização dos trabalhadores parece a tática assumida pelo longo espectro da Direita (desde os que preferem derrubar o governo eleito, até os que preferem vê-lo sangrar até 2018).

Apesar do enriquecimento recorde oportunizado pelo ambiente econômico da Era Petista, a “Terra da Cocanha” Brasil acostumou o mundo a lucros astronômicos. Num contexto da maior crise mundial, desde 1929, e recessão econômica, as teses neoliberais para a economia amargaram sucessivas derrotas eleitorais no simbólico cargo principal do Executivo da União, o de Presidente da República. Ao apoio irrestrito de grupos das classes dominantes e de trabalhadores de classe média que querem valer no tapa a manutenção das condições de seus restritos privilégios (“mais realistas que o rei”!), somam-se aliados entre os setores simpáticos a projetos mais liberalizantes para a economia, do que o Ministro Joaquim Levy conseguirá construir no governo petista.

Resta saber se os fiadores do governo de conciliação de classes recusaram o convite ou já escolheram o “prato principal” para o banquete da nova “Frente de Direita”.

10407805_946262965418874_4933795962773224516_nObjetivo de alguns manifestantes do dia 15 de Março: fina flor do liberalismo latino.

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