Retórica da ponderação e Direita. Ou sobre ponderadinhos e isentões.

“Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar”. A sabedoria popular consolidada em poderosas frases feitas tem uma força admirável. O valor dessa formulação em específico, que remonta à teoria de justa medida que Aristóteles sustentava em sua Ética, é inegável. Na arena política, a metodologia de buscar posições equilibradas traçando mediatrizes entre as distintas posições em disputa é uma antiga e importante ferramenta política para a construção de consensos. Para aqueles que acreditam na máxima bismarckiana de que a Política é a arte do possível, a ponderação entre as distintas posições e a construção de consensos são as estratégias políticas par excellence.

Esse texto, contudo, não é um elogio da realpolitik. O parágrafo acima é uma ponderação e, metalinguisticamente, este é meu assunto. Se a política é a arte do possível, a ponderação é a arte de estabelecer o que vai ser aceito como possível. Dentro das arenas políticas da sociedade, os diferentes grupos de poder em conflito disputam a construção de uma posição hegemônica sobre o que é razoável dentro das fronteiras do possível daquela arena política. Michel Foucault falou em Regimes de Verdade para se referir àquilo que é aceito como discurso verdadeiro dentro de uma sociedade. Poderíamos falar em Regimes do Possível para as arenas políticas.

Uma das formas retóricas mais poderosas nesse tipo de conflito é a ponderação. A identificação dos limites das posições radicais em conflito permitiria a construção de um caminho próprio, nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, que possibilitasse a conjunção de aspectos positivos dessas posições ao mesmo tempo em que se evita seus extremismos. A ponderação pode variar entre duas formas, nesse caso: o repúdio aos extremismos per se (identificados como práticas politicamente reprováveis, na maioria das vezes ignorantes); ou o pragmatismo (identificando-se o extremismo em particular como inexequível, utópico, ainda que ideologicamente interessante).

O ponto M, por onde passa a Mediatriz, está equidistante dos pontos A e B. Deveria se chamar ponto P, de ponderadinho, ou I, de isentão.

O passo fundamental desse procedimento retórico é justamente a identificação dessas posições extremas a partir da qual se opera a ponderação. Da mesma maneira que a posição de uma mediatriz é determinada pela escolha dos pontos dos quais se pretende traçar um segmento equidistante, o mesmo ocorre com as ponderações. Temos assim um duplo movimento: por um lado, a posição ponderada será determinada pelas duas (ou mais) posições a partir das quais se pretende ponderar; por outro lado, o movimento de ponderar exclui essas posições dos limites da razoabilidade. “Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar” exclui o céu e o mar do rol das possibilidades aceitáveis.

Os ponderadinhos ganharam tanto espaço e fama no twitter que há alguns meses tem crescido uma certa reatividade contra essa postura na rede social de microblogs.

Os ponderadinhos ganharam tanto espaço e fama no twitter que há alguns meses tem crescido uma certa reatividade contra essa postura na rede social de microblogs.

A força da retórica ponderada está em seu véu de imparcialidade. Não apenas a posição ponderada se coloca na posição de construção do consenso para a realização do possível, como o ponderado se constrói como o isento. Enquanto os extremistas partem de suas visões deturpadas por seus lugares de fala, a retórica ponderada cria uma aparência de isenção (ainda que o ponderado não se reivindique imparcial abertamente em qualquer momento). A ponderação funciona como um autoelogio à própria capacidade de pensar acima de tudo que está em conflito. A retórica da ponderação coloca os extremistas como aqueles que não conseguem fazer tal movimento, que exige maturidade e inteligência. Mais realizável e mais isenta, a ponderação rapidamente se vende também como a posição mais madura e inteligente.

Enquanto ferramenta retórica, é verdade que a ponderação pode (e é) utilizada a todo momento pelos mais distintos grupos políticos nas mais diferentes localizações do espectro político. Por que esse texto compõe um dossiê sobre as Direitas, então? Como todos os fatos sociais, a ponderação também é historicamente determinada. Desde a retomada neoliberal no início da década de 80, passando pela crise do Bloco Oriental e da União Soviética e pelo avanço da Direita moralmente conservadora nas últimas décadas, o espectro ideológico das arenas políticas contemporâneas passou por um grau sensível de endireitamento. Isso, de certa maneira, empurrou a retórica da ponderação para a direita – ainda que, na verdade, esse movimento seja muitas vezes espontâneo por parte dos ponderados.

Vendo você ponderar com outras pessoas – Palocci era uma espécie de herói dos ponderados até mexer no sigilo bancário de Francenildo.

Um exemplo poderoso desse processo de endireitamento da ponderação foi a adesão do PT à política econômica “ortodoxa” ainda no processo eleitoral de 2002 (com a famosa “carta aos brasileiros”) e consolidada nos primeiros meses do governo Lula, sob a batuta do então ministro da fazenda Antônio Palocci. Não me interessa aqui os meandros pragmáticos da gestão econômica do governo, mas a construção do discurso. Ao longo da década de 90 vimos no Brasil a consolidação de um pensamento econômico neoliberal radical, nas linhas daquilo que era chamado de consenso de Washington e alimentado pelo discurso do there is no alternative tatcheriano. Ao mesmo tempo, desde o final da década de 90 setores hegemônicos dentro do PT buscavam um caminho rumo ao centro com objetivos eleitorais, pois acreditam que era fundamental o partido ter uma imagem mais ponderada para alcançar novos eleitorados. Tendo o discurso liberal como uma das extremidades, não foi difícil para o PT vender-se como uma posição ponderada ao mesmo tempo em que abraçava políticas econômicas que durante anos o próprio PT havia identificado com a direita, sem que com isso fosse confundido com essa direita no cenário político[1].

Ao mesmo tempo em que a retórica da ponderação se encaminhava cada vez mais à direita, ela se tornava cada vez mais poderosa dentro do rol de ferramentas retóricas do discurso político. O cenário histórico desse processo foi o mesmo. A crise do “Socialismo real” pôs a esquerda radical em certa encruzilhada programática. Nesse contexto, a categoria Revolução – talvez o nêmesis da Ponderação e por ao menos dois séculos valorizada por muitos como instrumento político fundamental – perdeu muita força nas arenas políticas. Isso abriu espaço para o fortalecimento da retórica da ponderação. A forma como ela tem se consolidado em discursos da indústria cultural dá a dimensão de sua força atual.

O filme Lincoln, lançado em 2012, trata justamente de uma arena política clássica, um parlamento (no caso, o Congresso dos Estados Unidos), e os percalços pelos quais a proposta de emenda constitucional que pôs fim à Escravidão na América do Norte teve que passar até sua aprovação. Todo o filme é, de inúmeras maneiras, um grande elogio à realpolitik. Contudo, o fio condutor desse elogio é um exercício de retórica da ponderação. O enredo do filme opõe o presidente Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis), pragmático e ponderado, ao congressista radical e idealista Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones): enquanto o radicalismo de Stevens, por mais bem intencionado e moralmente correto que fosse, é identificado como incapaz de libertar os escravos, o pragmatismo de Lincoln é mostrado como o instrumento dessa libertação. É revelador que a principal figura a rivalizar com Lincoln no filme seja um abolicionista radical, e não um defensor do escravismo. Os anti-abolicionistas funcionam apenas como a perna de lá desse exercício de ponderação. Mais importante, ao longo da narrativa, o radical Stevens se vê obrigado a se curvar perante à genialidade do ponderado Lincoln para que o seu nobre objetivo, o fim da escravidão, fosse alcançado.

Daniel Day-Lewis como Linclon e Tommy Lee Jones como Stevens. Uma análise publicada no site Political Researches Associates sugere que o discurso do filme está diretamente ligado a uma crítica à oposição progressista à presidência de Barack Obama feita por setores mais à esquerda nos Estados Unidos. O próprio roteirista do filme, Tony Kushner, teria declarado que pretendia fazer um filme que dialogasse com nossos tempos, em especial com os impasses da administração Obama. O texto pode ser lido em: http://www.politicalresearch.org/2014/10/31/lincoln-slave-narratives-and-hollywoods-neoliberal-agenda/#sthash.z10lXtV4.dpbs

Para deixar mais claro esse procedimento, podemos comparar Lincoln com outro filme que trata do abolicionismo americano: Amistad, lançado no ano de 1997 e dirigido pelo mesmo diretor de Lincoln, Steven Spielberg. Este filme trata do caso de africanos que se rebelam e tomam um navio negreiro, mas acabam capturados pela marinha norte-americana e acusados de assassinato. O que aparece como uma postura inconsequente em Lincoln é um aspecto fundamental para libertação dos escravos em Amistad: o radicalismo idealista quase intransigente do militante abolicionista Theodore Joadson (Morgan Freeman), do advogado Roger Baldwin (Matthew McConaughey), e mesmo do ex-presidente John Adams (Anthony Hopkins), que faz um importante discurso defendendo a liberdade dos africanos quando seu caso chega à Suprema Corte. Para além de tratarem de cenários diferentes da disputa abolicionista (congresso x tribunal), as escolhas dos produtores dos filmes (não só do diretor Spielberg, mas de roteiristas, etc.) defendem posições políticas (ponderação pragmática x luta idealista) distintas.

Baldwin (Matthew McConaughey) defendendo os escravos no tribunal

O seriado Newsroom, transmitido pela HBO nos Estados Unidos entre 2012 e 2014, retrata os bastidores da produção de um telejornal. Na primeira temporada, os episódios dão conta da produção de edições sobre alguns casos específicos, mas há um tema recorrente: a crítica ao Tea Party, que atinge seu ápice em um editorial em que o âncora Will McAvoy (Jeff Daniels) o chama de “o Talibã americano”. Toda essa crítica é construída através da retórica da ponderação. O personagem principal da série, e responsável pelas principais críticas ao Tea Party, é identificado como um afiliado do Partido Republicano: a crítica ao Tea Party, assim, não é o enfrentamento da esquerda contra a direita, mas o enfrentamento da ponderação contra o extremismo, da maturidade contra a puerilidade, da inteligência contra a ignorância. A forma como Newsroom retrata o Tea Party exemplifica bem a posição ponderada contra o extremista ignorante.

McAvoy (Jeff Daniels) ataca o extremismo do Tea Party. A cena, com legendas em espanhol, pode ser vista nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=3spZa0A3xBE

McAvoy (Jeff Daniels) destrói as ideias de uma assustada e despreparada Shelly Wexler (Aya Cash). A cena, com legendas em português, pode ser vista nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=U7NMO00qMB8

Reforça a retórica ponderada em Newsroom a forma como o movimento Ocuppy Wall Street é retratado pelo seriado. Ainda que este não seja pintado com as cores fortes que o seriado retrata o Tea Party, o OWS é tratado como um movimento ingênuo, despreparado e inconsequente. Em uma entrevista ao vivo, Will destroça com extrema facilidade as ideias de uma professora universitária identificada como liderança do OWS (a personagem da série emula obviamente a professora e militante Alexis Goldstein). Retratar o enfrentamento do protagonista da série contra um movimento de esquerda é fundamental para reforçar a posição de maturidade e inteligência deste: mais uma vez não se trata de um debate político entre esquerda e direita, mas uma oposição entre ponderação e extremismo, maturidade e ingenuidade. Algum tempo depois Will procura a professora em sua faculdade para lhe pedir desculpas: a complacência é o golpe final do ponderado contra o extremista utópico.

A ascensão da retórica da ponderação como discurso político extremamente poderoso tem consequências sérias para o debate político contemporâneo. Recentemente circulou uma notícia de que uma escola americana havia apagado de uma foto a palavra “Feminist”, presente na camisa de uma das alunas. Em nenhum momento a direção da escola se colocou como anti-feminista. Justificou-se a censura como uma forma de “evitar controvérsias”. O movimento aqui é claro: a escola busca uma posição ponderada se colocando entre os extremos “anti-feminismo” e “feminismo”. Se censuraria uma manifestação anti-feminista, deve-se fazer o mesmo com uma manifestação feminista. A falsa simetria é o cavalo de batalha dos ponderados. Em termos de disputa pelo discurso, não faz muita diferença se a escola é anti-feminista e usou a retórica da ponderação como escudo ou se ela estava apenas tentando se proteger de possíveis ataques de anti-feministas. O efeito do endireitamento da retórica da ponderação sobre o “Regime do Possível” dessa arena política é o mesmo: a censura da posição feminista sem nem sequer um debate de ideias.

Foto de aluna com a mensagem censurada pela escola e a camisa original. Reportagem em: http://g1.globo.com/educacao/noticia/2015/04/escola-apaga-palavra-feminista-em-foto-de-camiseta-de-aluna-de-13-anos.html

 No Brasil, um bom exemplo é a ascensão do olavismo. Para além da influência direta cada vez maior que o discurso de extrema direita delirante tem sobre o pensamento político dos brasileiros, o próprio espaço que esse discurso ganha já serve para puxar a mediatriz da ponderação na direção da direita. Quando posições políticas tão à direita começam a ser levadas em consideração pela geometria dos retóricos da ponderação, naturalmente a mediatriz se desloca nesse sentido. Meios de comunicação de direita não precisam concordar com todas as ideias de Rodrigos Constantinos da vida para valorizar o papel que seus discursos desempenham no cenário político. Além disso, a existência dessa direita serve para os ponderados, no movimento da ponderação, excluírem a esquerda radical do debate sem que se rotulem automaticamente como anti-esquerdistas ou como de direita. Eles são apenas ponderados e evitam os extremismos.

O discurso se inclina, assim, em favor de uma posição de centro-direita sem que haja a necessidade de um verdadeiro debate político, apenas pelo movimento de ponderar.

Uma representação gráfica do movimento no discurso político causado pela ponderação: Existe uma posição política A em torno do qual um conjunto de posições divergentes orbita, enquanto a posição B (assim como inúmeras outras que poderiam ser representadas fora do círculo A) é marginal. O movimento de ponderação escolhe essa posição B para contrapor à A, fazendo a mediatriz. O discurso A deixa de ser uma posição de centro e se torna uma posição extrema. O discurso B deixa de ser marginal e entra na arena política, trazendo consigo outras posições marginais que podem orbitar em torno dela. A posição M, que assume a roupagem de ponderada, está muito distante do que era o centro do debate antes, a posição A – apenas o uso da posição B, antes marginal, lhe permite figurar essa centralidade e ponderação.

[1] Por mais que a oposição de esquerda ao governo do PT há muito tempo já identifique o PT como um partido alheio a esquerda, de Centro ou mesmo de Direita, é inegável que no grande cenário político-eleitoral o PT ainda é visto como O partido de esquerda.

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