A Evolução Política do Tucanistão Paulista (notas sobre a atuação política da pequena-burguesia paulista)

Por Uiran Silva e Fábio Morales, doutores em História pela USP.

Tucanistão

Circula por aí no senso comum (e por senso comum queremos dizer sites, blogs e postagens em redes sociais escritos por analfabetos políticos orgânicos) que a esquerda se define por ser a favor da intervenção do Estado na economia e a direita por ser a favor da liberdade individual e do mercado. O que se pode dizer a respeito de tal definição? Em primeiro lugar, que ela é enganosa, deformadora e mistificadora do desenvolvimento histórico que levou à cristalização dessas duas tendências políticas dentro da modernidade burguesa (ou ocidental). Contudo, em segundo lugar, também pode-se dizer que tal definição do par esquerda-direita é representativa (muito representativa) da origem política e social dos que a enunciam: uma pequena-burguesa que depende profundamente do Estado burguês, mas que, negando-negativamente sua própria condição, por meio de sua intelectualidade orgânica, recalca (reprime ou sublima) com uma intensidade incrível essa dependência. Esse recalque é particularmente paulista? Ora, a história política no século XX de São Paulo não pode ser compreendida sem que se lide com esse recalque, que tem implicações importantes para a compreensão dos seus movimentos de trabalhadores e sua intelectualidade associada também.

Em poucos lugares do Brasil serão encontrados exemplares tão bem-acabados e coerentes dessa pequena-burguesia recalcada como em São Paulo (no Estado e na cidade). E é exatamente no recalque do Estado, e na maneira com que ele transborda para as definições de esquerda e direita que se encontram valiosas pistas para a compreensão da direita paulista – do malufismo ao tucanismo (o malufismo modernizado).

Nas manifestações que ocorreram no dia 15 de março no Brasil inteiro, a de São Paulo foi a maior (não importa se foi de 100.000 – o número dos opositores das manifestações – ou 1 milhão de pessoas – o valor insuspeito oferecido pela PM –, porque mesmo a menor cifra foi muita gente).  Nesse dia, algumas entrevistas pontuais foram feitas com os participantes e posteriormente disponibilizadas na forma de um vídeo. Uma das principais questões feitas pelos entrevistadores indagava se o manifestante era de esquerda ou direita. A resposta mais reveladora era de uma moça de 17 anos que se afirmava de direita e que, ao ser novamente questionada, agora sobre os motivos de tal posicionamento, virava-se para a mãe em busca do sentido da sua orientação política. A mãe prontamente respondia que como o atual governo federal é de esquerda, e a moça era contra, então ela é direita. O tal governo de esquerda é o do Partido dos Trabalhadores e da presidenta Dilma. Este governo ser ou não ser de esquerda (o que não é nenhuma certeza) é um debate importante para os trabalhadores, para os movimentos sociais e para os partidos que se colocam no lado da esquerda na matriz política brasileira hoje. Mas o fato de ele ser visto como “de esquerda” pela direita organizada em São Paulo é revelador dos nós de construção de identidade política desse movimento (não tão espontâneo como tenta caracterizar a Grande Mídia).

Uma pesquisa quantitativa feita na segunda manifestação, agora por professores da USP,conseguiu informações importantes sobre o perfil dos manifestantes contra “esse governo de esquerda”. Ora, o que se revelou nessa pesquisa foi o que muitos suspeitavam, mas não tinham ainda bases para afirmar: o alto perfil de renda, de instrução e de condição social dos manifestantes. Vejamos três conjuntos de dados cruciais para tal conclusão:

Em primeiro lugar, os resultados com relação à pesquisa de renda:

Dados sobre a Renda Familiar

Como se pode ver, a partir das respostas dadas aos pesquisadores, quase metade dos entrevistados tem renda familiar que os coloca na classe A ou B (29,5 % entre R$ 7,880 a R$15,760 e impressionantes 19,5% dos manifestantes com renda acima de R$15,760). Se olharmos para o outro lado do espectro de renda presente nas manifestações, poderemos constatar que a faixa correspondente aos emergentes, ou ao precariato (a da renda familiar C2 que vai de R$ 2,364 a R$ 3,940) temos 14,40%, os quais mesmo se somados aos manifestantes das faixas D e E, ainda assim não compõem um quarto do total. Se somarmos ao primeiro grupo o percentual de entrevistados que estão na faixa de renda C1, possivelmente uma classe média tradicional, temos que 72,8 % dos manifestantes representados na pesquisa estão na parte de cima do espectro de renda.

Dados sobre a Escolaridade

Ao acrescentarmos os dados de escolaridade, o que se tem é um protesto altamente qualificado, em que 68,5% dos manifestantes já tem o ensino superior completo. O quanto essa qualificação não se traduz em compreensão adequada da realidade fica claro quando se olha o grau de confiança dado à Mídia corporativa.

Confiança na Imprensa

Não é, portanto, nada surpreendente a enorme confiança dos manifestantes verde-e-amarelo na mídia corporativa (Globo, Estado, Veja, Folha) e nos porta vozes da Barbárie que nela tem lugar garantido (Reinaldo Azevedo, Rachel Sherazade, William Boner, José Luiz Datena, etc.). O que ficou claro com esta pesquisa foi a configuração de classe do movimento que tomou a avenida Paulista: pequena e alta burguesia. Como se suspeitava é uma massa cheirosa (expressão cunhada pela colunista da Folha de São Paulo, Eliane Catanhede, em 2010 para explicar a singularidade do caráter popular do eleitorado tucano em São Paulo).

E é a partir dessa massa cheirosa que tem se desenvolvido um fenômeno aparente novo em são Paulo: movimentos organizados de direita. Mas se a organização em público é recente, a sua existência não é. O seu impacto na política paulista, na capital e no interior pode ser verificado claramente no que poderíamos chamar de a Evolução Política do Tucanistão Paulista.

A história da constituição política do Tucanistão Paulista só pode ser compreendida a partir do descompasso entre a história política do Estado como um todo e a história política específica da região metropolitana de São Paulo. Algumas variáveis determinantes – como o papel das lideranças pemedebistas ou a militância sindical, por exemplo – estão presentes de modo bastante diferente nas esferas estadual e metropolitana. Considerar este descompasso é fundamental para a crítica da naturalização do tucanismo em São Paulo, seja de sua natureza ideológica, seja de seus compromissos sociais. Assim, se por um lado a adesão paulista e paulistana a figuras como Aécio, Serra e, acima de todos, Alckmin, pode parecer, hoje, um fenômeno braudeliano, por outro a análise de sua história específica revela tanto sua força – e perigo – quanto sua precariedade. Vejamos.

As origens do Tucanistão devem ser encontradas na formação do espectro político paulista no final dos anos 80 e início dos anos 90. No nível estadual, a oposição básica se dava entre os herdeiros do MDB, então PMDB e os herdeiros da ARENA, capitaneados por P. Maluf. O malufismo foi construído durante a ditadura militar, fundindo as tradições populistas de um Adhemar de Barros – em que a corrupção era amenizada pelas “realizações”, numa prévia do célebre “rouba mas faz” malufista –, a ideologia tecnocrata pela qual o governo deve ser dado aos capitães da indústria, tal como o engenheiro politécnico e empresário do ramo da construção civil P. Maluf, e o reacionarismo punitivo da pequena burguesia ávida por se proteger das classes perigosas, i.e., os negros e os imigrantes nordestinos. O pemedebismo, por sua vez, se fundava na aversão à ditadura militar associada ao imenso capital político de suas lideranças, tais como Orestes Quércia, F. Montoro e L. Fleury, e a um conservadorismo associado à construção da identidade bandeirante e constitucionalista paulista, com sua particular autorepresentação de liderança nacional e seu imenso amor à ordem social. No início dos anos 90, o pemedebismo era hegemônico no nível estadual: o partido permaneceu no poder de 1983 a 1994. Diferente era o caso para a região metropolitana.

A década de 80 foi um período de grande crescimento do movimento sindical autônomo, construído ao longo da década anterior. No final dos anos 80, o movimento sindical, associado ao PT: Diadema teria prefeitos petistas de 1983 a 1996; Santo André e São Bernardo elegeriam prefeitos petistas em 1988; e apenas São Caetano (para completar o ABCD) alternaria entre petebistas e tucanos. A cidade de São Paulo, seguindo o petismo metropolitano, elegeria a paraibana L. Erundina em 1988, deixando P. Maluf em segundo lugar. Neste ponto, já estava consolidada a oposição entre o malufismo pequeno-burguês e o petismo, que concentrava os grupos antimalufistas da região, com maior ou menor aderência à proposta ideológica do partido.

Em 1994, ocorre uma mudança fundamental no nível estadual. O tradicional rival do malufismo M. Covas, antigo quadro do PMDB e membro do PSDB desde 1988, foi eleito governador do Estado, dando início à dinastia tucana que dura até os dias atuais. Com Covas e o ocaso das outras lideranças pemedebistas – O. Quércia em particular –, o PSDB passou a representar as aspirações de ordem, empreendedorismo e eficiências das elites do interior. Isto ocorre quando, na cidade de São Paulo, P. Maluf era prefeito, tendo sucedido L. Erundina. Assim, enquanto o estado se fidelizava ao PSDB como herdeiro “mais eficiente” do PMDB, a região metropolitana se polarizava ainda mais entre malufismo e o petismo.

Neste ponto, a esfera federal, então nas mãos do PSDB do paulista Fernando Henrique, acrescenta novos elementos. No nível federal, constrói-se a oposição entre PT e PSDB, que não era efetiva nem no nível estadual (por conta da fraqueza do PT estadual) nem no nível metropolitano (por conta da força do petismo e do malufismo). Este descompasso permitia, por exemplo, que alianças entre tucanos e petistas fossem efetivadas contra o malufismo, como ocorreu no apoio de M. Suplicy a M. Covas no segundo turno das eleições estaduais de 1998. Desse modo, se no nível federal o petismo se confundia com a crítica ao neoliberalismo tucano, no nível metropolitano o petismo e o tucanismo se uniam contra a “corrupção eficiente” malufista.

Em 2002, uma nova inflexão (já anunciada pelo apoio à política de tolerância zero do M. Covas contra greves de professores em anos anteriores). A eleição de Lula alterou radicalmente as regras do jogo: o malufismo no nível metropolitano, antipetista por natureza, se associaria ao tucanismo no nível federal. É neste ponto que o antipetismo malufista da região metropolitana se encontra com o pemedebismo/tucanismo estadual, mas não completamente: a fraqueza (e em certos casos, o transformismo precoce) do petismo, no nível estadual, não promoveu uma polarização ideológica entre “neoliberalismo” e “social-democracia” tal como ocorria no nível federal, nem entre “eficiência corrupta” e “direitos sociais”, como ocorria no nível metropolitano. A maior representação disto são os longos anos em que o pindamonhagabano G. Alckmin está no governo do Estado, sem nunca ter precisado se apoiar no malufismo. Muito pelo contrário: ao longo da década de 2000, o próprio Maluf se aproximaria cada vez mais, no nível federal, do PT. Um golpe duro aos malufistas. Mas a ressurreição estava próxima.

A eclosão do midiático “escândalo do Mensalão”, em 2005, promoveu o grande trauma no petismo que, apesar da política das alianças, se pensava absolutamente ético. Neste ponto, o tucanismo, cujos escândalos eram ciosamente abafados pelas corporações de mídia, concentrou as expectativas sobre a eficiência e a moralidade que pairavam em uma pequeno-burguesia assolada pelas conquistas sociais de trabalhadores – a infâmia! – e pelos casos de corrupção que agiam no coração ideológico deste grupo: o sistema fiscal. Este episódio é rico de consequências.

No nível metropolitano, o malufismo se redimiria abraçando, como se não houvesse amanhã, o tucanismo; pela primeira vez, poderiam, contra os petistas, associar a eficiência à moralidade. Trata-se do nascimento do antipetismo contemporâneo, formado por um conjunto desarticulado de propostas neoliberais e autoritárias, contra o que tal grupo considera a venezuelização do Brasil. O PT se torna, nos olhos dos antipetistas, comunistas; o PSDB se torna, então, o bastião da liberdade, com o perdão do trocadilho, liberal. Mas um bastião, digamos, de ocasião. O PSDB é o partido que aparece como principal alternativa ao PT no nível federal – o que explica as prefeituras tucanas em São Paulo na década de 2000 –, mas não se trata de tucanismo. Trata-se, justamente, do malufismo restaurado, renovado, mas malufista: a eficiência, a ordem e a defesa da propriedade, especialmente da pequena propriedade privada nas mãos da pequena-burguesia. Por isso, manifestações pró PSDB não se eximem de cartazes pró-ditadura, e segmentos do próprio PSDB, abraçando os neomalufistas, esquecem de sua herança mdbista.

Quando consideramos o nível estadual, o quadro é diferente. As décadas de governo tucano não foram sustentadas pelo malufismo, pelo contrário: começaram com o antimalufista Covas, e continuaram com um muito menos combativo G. Alckmin, o qual, se muitas vezes – especialmente no contexto da eleição presidencial de 2006 – assumiu o antipetismo, por outro não se projeta como liderança antipetista com tons neomalufistas, como o faz um Aécio, por exemplo. O tucanismo estadual, é, pois, muito menos radical ideologicamente, e muito mais forte e enraizado social e politicamente.

Sendo assim, é preciso considerar o descompasso, atualmente em harmonia, entre o tucanismo ex-pmdebista enraizado na esfera estadual, do tucanismo ex-malufista de ocasião no nível metropolitano. Tal consideração é particularmente complexa quando se tem em conta a ação da mídia paulistana, cuja amplitude é nacional: corporações de mídia como a Abril e o Estado, paulistanas por excelência, fundem uma adesão ideológica às pautas tucanas com a atitude antipetista semelhante ao malufismo. Desse modo, fenômenos essencialmente metropolitanos – como as multidões pelo impeachment desfilando na avenida Paulista – são apresentados como fenômeno estadual e, mais que isso, nacional. Mas não se tratam nem de fenômenos ideologicamente tucanos, nem fenômenos nacionais; a questão central é a operação metonímica da mídia paulistana de apresentar, como nacional e ideologicamente coerente, manifestações de matriz malufista e de viés oportunista.

O “rouba mas faz” do malufismo e a “eficiência da gestão” do tucanismo são duas faces, não necessariamente opostas, daquele mesmo recalque pequeno-burguês com relação ao papel do Estado na construção de uma gestão capitalista do estado de São Paulo. Malufismo e tucanismo sempre defenderam o mercado, a privatização dos serviços públicos e o ataque aos direitos de trabalhadores. E ambos também nunca pestanejaram em manter recursos públicos disponíveis para empresários em situação de aperto, como no exemplo do DesenvolveSP, agência de desenvolvimento de São Paulo, criada por G. Alckmin, que pega recursos federais e do BNDES e redistribui, assumindo, é claro, os ganhos de capital político junto à pequena burguesia paulista que, nessas horas, não reclama de um “Estado inchado”. (Eles tem uma linha só para padarias!). Assim como malufismo e tucanismo nunca hesitaram em acionar as forças de segurança contra qualquer tipo de movimento social. Mas tais ações foram sistematicamente acompanhadas desde o início dos anos 90 por um discurso defendendo a necessidade de redução do Estado.

O recalque do Estado e, em suas instâncias mais avançadas, o recalque da política, é parte fundamental da condição de pleno desempenho do papel de intelectualidade pequeno-burguesa que os articulistas de uma revista como a VEJA, ou já mencionados arautos da barbárie desempenham. O recalque das suas próprias conexões com as atividades políticas que acontecem no Estado e das quais sua própria condição de classe proprietária dependem, contraditoriamente é acompanhado pelos pedidos de intervenção militar, como se o Exército não fosse ele próprio o fundamento não democrático da democracia burguesa. A intelectualidade-pequeno burguesa paulista de direita (seja malufista, seja tucana), ao recalcar os fundamentos não democráticos da democracia, como negação da negação da política, nega também a condição de intelectualidade. E é por isso a que intelectualidade política pequeno-burguesa de direita (o que é ainda mais verdadeiro no caso da intelectualidade pequeno burguesa paulista) é necessariamente uma intelectualidade analfabeta política.

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