Ensinar para Libertar: Escola Nacional Florestan Fernandes – Um modelo contra-hegemômico de Educação

Texto escrito em coautoria com Ingrid da Silva Linhares, Graduanda em História pela Universidade Federal Fluminense.

enxadasA chamada “Revolução Verde” ganhou força no Brasil especialmente a partir da década de 1980, levando à modernização do campo com base no emprego de grandes quantidades de recursos. Esse processo promoveu a entrada de peso do capital na agricultura com a promessa – não cumprida – de expandir a produção e acabar com a fome. Qual foi o efeito real dessa modernização? Além do emprego maciço de agrotóxicos que causam grande prejuízo à saúde humana e à própria natureza, vemos ainda um custo social imenso: a mecanização que reduziu o contingente de trabalhadores e forçou milhões de camponesas e camponeses a migrarem para as cidades.


toxico

Desse contexto surge, em 1984, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), tendo na luta pelo acesso à terra seu elemento central de articulação. Essa luta se estruturou, em um primeiro momento, contra o latifúndio – principalmente o improdutivo –, e hoje também se posiciona contrariamente ao chamado agronegócio, nome pelo qual ficou conhecido o resultado final das “revolucionárias” mudanças na agricultura surgidas nos anos 1980.

 

O MST é um dos maiores e mais antigos movimentos sociais do Brasil: atuante até o presente – mesmo que sob o refluxo das lutas sociais em um governo petista –, ativo em suas lutas e nas críticas à atual configuração da sociedade. Porém, nesse caso, sua posição não lhe é garantida apenas pelo seu tamanho e idade, mas pelo papel que cumpre hoje esse movimento. Papel que não se restringe ao âmbito local ou mesmo nacional, mas que é internacionalmente reconhecido, sendo inclusive uma das principais organizações que compõe a articulação mundial das camponesas e dos camponeses, a Via Campesina.

mst

A relevância mundial do Movimento, sem sombra de dúvidas está relacionada, entre outros fatores, à sua escola de formação, a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), que representa um grande – e necessário – exemplo de um modelo de educação contra-hegemônica. Situada no município de Guararema (a 70 km de São Paulo), foi construída, entre os anos de 2000 a 2005, graças ao trabalho voluntário de pelo menos mil trabalhadores sem terra e simpatizantes.  Ao longo da edificação da escola, aqueles envolvidos voluntariamente na construção dedicaram-se também ao estudo, sendo muitos alfabetizados nesse processo.

enff

Desde o começo de suas atividades, passaram pela ENFF pelo menos 24 mil militantes e integrantes dos movimentos sociais do campo e da cidade de todos os estados do Brasil, bem como de outros países da América Latina e África. Cabe ainda destacar que, em 2015, ano em que a escola completa dez anos de existência na luta, foram iniciadas as primeiras turmas para falantes de língua inglesa, proporcionando uma expansão ainda maior da rede de diálogo e a capacidade de construção coletiva essencial à emancipação dos povos. Uma pequena expansão vitoriosa da classe trabalhadora que, em tempos de avanço conservador, serve de alento para todas e todos que ainda ousam sonhar que outra realidade não só é possível, mas fundamental!

 

(Vídeo de divulgação, em comemoração aos 5 anos da ENFF)

Área de estudo da ENFF, onde se concentram as salas de aula.

Área de estudo da ENFF, onde se concentram as salas de aula.

Colaboram com a escola mais de 500 professores voluntários que ministram cursos de diferentes periodicidades, vinculados a diversas instituições e áreas do saber. Além das salas de aula, que somadas acomodam confortavelmente mais de 200 pessoas , a escola dispõe ainda de uma biblioteca, hoje com mais de 40 mil volumes impressos, composta por doações, da Ciranda Infantil Saci Pererê, que promove atividades infantis e garante a participação de militantes que vão estudar levando filhas e filhos, de um espaço de artes, além de dormitórios, hortas para consumo local e uma quadra de futebol. Esse espaço, fruto da auto-organização dos trabalhadores, é também, na sua própria arquitetura um exemplo dos ideais do MST, sendo um local praticamente autossustentado no que se refere à água e energia e adequados aos modelos da chamada agroecologia.

Horta agroecológica.

Horta agroecológica.

Sendo a construção e a manutenção de todo o lugar realizadas pelos próprios militantes/estudantes, aliadas aos momentos acadêmicos e de sociabilidade, vemos a criação de novos caminhos concretos de formação através do trabalho voluntário na escola. A transformação esteve – e está – na luta pela mudança qualitativa da categoria trabalho, passando da condição de atividade alienada para a condição de atividade plena, realizada e apropriada, em sua capacidade criativa, coletivamente.

Ciranda Saci Pererê, onde semterrinhas e filhos de outros militantes aprendem enquanto as mães e os pais estão em formação.

Ciranda Saci Pererê, onde semterrinhas, filhas e filhos de outros militantes aprendem enquanto as mães e os pais estão em formação.

Dessa forma, o trabalho voluntário mobilizado para edificar a sede da ENFF mesclou vários ofícios, como o de pedreiro, eletricista e carpinteiro, com a atividade militante. Dessa forma, participar da constante e cotidiana construção da ENFF implica um dia a dia pautado pelo exercício dos princípios organizativos do MST, experimentando ao mesmo tempo as responsabilidades na divisão de tarefas domésticas e a possibilidade de se fazer escolhas, algo básico e tantas vezes negado aos jovens em formação.

agroEstamos diante, então, de uma organização social de massas que se propõe a aprofundar não só o método de formação política, mas, do mesmo modo, promover uma ascensão objetiva das condições materiais e espirituais das trabalhadoras e trabalhadores do campo. Nesse sentido, a ENFF se insere, através da construção concreta e participativa, no processo de formação de quadros, sendo ela mesma uma síntese da sua filosofia.

“Mapa” da escola.

“Mapa” da escola.

Em vista disso, a Escola não foi planejada apenas como um prédio onde são realizados os cursos do MST, mas como um conjunto de ações político-pedagógicas que se desenvolvem no seio de atividades organizadas e desenvolvidas pelo Movimento, onde quer que seja o local ou o momento de sua realização. Isto é, a Escola Nacional Florestan Fernandes representa a totalidade da política de formação do próprio MST.


luta e estudo

Mural na ENFF que mostra a integração do trabalho, estudo e as lutas do campo e da cidade

A ENFF é, portanto, um espaço fundamental no fortalecimento da luta dos movimentos sociais de todo o mundo, um sonho em construção. Sua manutenção é vital para a formação política das trabalhadoras e dos trabalhadores na luta pela construção de outro modelo de sociedade. No entanto, a realidade do movimento é dura, as dificuldades são inúmeras e as oportunidades de atuação não faltam. Nesse sentido, convidamos todas e todos a conhecer a escola, que periodicamente recebe visitações e, na lógica da participação coletiva pela transformação, contribuam para que ela possa se manter viva e atuante. Conheçam e apoiem, companheiras e companheiros de todos os quadrantes, a Associação de Amigos da Escola Nacional Florestan Fernandes (AAENFF)!

Mural em homenagem a Florestan Fernandes feito todo com sementes.

Mural em homenagem a Florestan Fernandes feito todo com sementes.

Sobre Eduardo Daflon

Professor, Historiador e Comunista. Mestrando em História pela Universidade Federal Fluminense.
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