Imperatriz Furiosa em Mad Max: We DO need another hero*

*”Precisamos de mais um herói/heroína”, em referência à canção de Tina Turner intitulada We don’t need another hero.

Não sei se cheguei tarde demais no debate “Mad Max é ou não um filme feminista?”, mas já que só vou ao cinema duas vezes por ano — o valor da entrada inteira torna isso um evento de alto luxo exclusivo para ocasiões comemorativas –, vou dar humildemente meu pitaco.

[Contém spoilers!]

mad max

Fui ao cinema sabendo que tinha muita mulher empolgada, muito machista incomodado, mas também feministas que questionavam (e muito!) a ideia de que Mad Max fosse um filme feminista.

Daí assisti o filme assim: empolgada pra ver a Furiosa metralhando geral, mas ciente de que haveria algumas coisas questionáveis adiante. No fim das contas, fiquei no time de quem gostou do filme, mas compreendo totalmente quem não gostou e não acho que seja um filme feminista, propriamente dito.

Por mais que haja uma personagem feminina forte (e maravilhosa!), há alguns problemas significativos:

Vênus de Willendorf.

Vênus de Willendorf.

1) A questão da representatividade. No mundo pós-apocalíptico, 99% da humanidade é branca e 95% é magra. As gordas são as “leiteiras”, enquanto as “parideiras” preferidas do vilão são umas mulheres magrinhas de uma estética de modelos dos anos 2000. Inclusive é muito inverossímil, considerando a história da humanidade, essa associação entre magreza e fertilidade.

2) Eu não conheço os filmes anteriores, mas me parece que o Max é um cara atormentado por não conseguir salvar outras pessoas nesse cenário apocalíptico. Primeiro ele tinha que salvar as criancinhas da Tina Turner (não é isso?) e agora ele aparece salvando um outro grupo social considerado frágil: mulheres. Há um momento em que ele conversa com a Imperatriz Furiosa (vamos parar um momento para amar esse nome de personagem? Vamos? OK.) sobre uma “busca por redenção”, e eu não consigo deixar de perceber esse diálogo como um símbolo para a própria trajetória do Max — que no final das contas, de uma forma ou de outra, acaba salvando o dia.

Muitas outras críticas foram feitas, mas essas foram as questões mais marcantes pra mim.

Porém, eis que chegamos à Furiosa. O grande lance de Mad Max tem a ver com uma necessidade de representação de mulheres fortes na mídia. Independentemente do filme ser um produto cultural feminista ou não, o fato é que traz uma personagem feminina muito forte — literalmente.

O grande lance é que eu preciso ver a Furiosa liderando uma fuga contra todas as possibilidades, pensando estratégias em um cenário de guerra e atirando com uma pontaria perfeita (e superior à do protagonista). Preciso ver a Merida portando seu arco e flecha com maestria, disputando  – bravamente com outros homens – e vencendo — uma disputa por sua própria “mão em casamento”. Preciso da Mulan enfrentando treinamento de guerra no meio de soldados homens e se destacando entre eles. Da Brienne de Tarth e da Arya Stark, portando espadas e lutando contra a morte corpo a corpo contra cavaleiros homens consagrados.

Ilustração de Kaol Porfírio, da coleção Fight Like a Girl, retirada de sua página de divulgação no Facebook.

Ilustração de Kaol Porfírio, da coleção Fight Like a Girl, retirada de sua página de divulgação no Facebook.

Por que eu preciso delas? Porque isso de fato me empodera. Elas me ajudam a romper o lugar de fraqueza em que a sociedade quer me enclausurar. Elas me dão vontade de usar minha força (física, sim, não só a “inteligência típica das mulheres”, cof) quando eu julgar necessário e, principalmente, quando eu precisar. Eu posso lutar, eu posso me defender, eu posso revidar se alguém vier pra cima de mim. Eu não sou inerentemente fraca. Eu sou capaz de carregar peso! Eu sou capaz de dar um soco, uma joelhada, de pensar rápido, de ter sangue frio… Isso não é coisa de homem. Força não é só coisa de homem.

Isso me lembra uma propaganda de desodorante que assisti uma vez e que nunca saiu da minha cabeça. É uma propaganda complicada porque: 1) é uma propaganda, não é uma ação política de empoderamento feminino, logo tem mil interesses e bizarrices empresariais por trás, e 2) é fraca de representatividade (a maioria das mulheres é branca, jovem e magra). Mas vale a pena dar uma olhada:

Não acho que a Rexona seja uma marca feminista. A Unilever, dona da marca, é por exemplo a mesma dona da Axe, uma marca tradicionalmente campeã em publicidade machista. Assim como não acho que o Boticário esteja revolucionando ao fazer publicidade com representatividade LGBT, por exemplo. Mas faz diferença. É impactante ouvir da tevê que eu sou forte, pra variar, a despeito de todo o resto das mensagens dizer justamente o contrário.

É o velho chavão: representatividade importa. Uma Furiosa forte, complexa, resiliente, metralhando geral vale muita coisa. Por isso eu gostei de Mad Max! Porque eu preciso da Furiosa. Nós precisamos.

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Sobre Bárbara Araújo

professora de história, feminista, anticapitalista, capoeirista e flamenguista.
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