A barbárie em nós: reprodução ampliada do capital e do ódio

*Texto de Tatiana Poggi, professora de História da Universidade Federal Fluminense

Vítimas da violência na Nigéria

Vítimas da violência na Nigéria

Mais um ano se inicia. Sempre me intrigou a ideia de pensar e medir o tempo em ciclos. Não apenas mais um ano; um ano novo. E com ele, um recomeço, a oportunidade de refazer e de transformar. Um novo ano renova as energias, traz esperança e fôlego aos desesperados. Em tempos como o nosso, marcado pela extrema desigualdade, pelo ódio e pela intolerância, pela perda de espaços e de direitos, esse sentimento é quase uma necessidade, ainda que inconsciente, para não sucumbirmos ao derradeiro fim, qual seja, a perda da esperança. A esperança de que no próximo ano as coisas possam ser diferentes, melhores.

Essa é um pouco a essência da modernidade. O ser moderno é, em seu âmago, um otimista e também um ser de fé; comunga de uma fé particular na mudança, na ideia de progresso, na razão, na ciência, na política e na diplomacia como meios racionais de solucionar contendas. Com esse sujeito, dono do mundo, emerge um conjunto largo de expectativas em torno da emancipação, da prosperidade, da inclusão e da felicidade. Isso é basicamente o que Marshall Berman caracterizou como “promessas da modernidade”, a promessa da possibilidade.

O ano de 2015 iniciou quente. Abrimos janeiro com fortes manifestações de violência motivada pelo ódio: o ataque à revista de Charlie Hedbo; o massacre da Nigéria; as palavras de desprezo de Silvia Pilz contra os pobres, negros, anões e portadores de síndrome de down; a escola de samba vitoriosa do carnaval, sendo financiada por uma ditadura genocida que dura 35 anos.

O massacre de Curitiba

O massacre de Curitiba

A brutalidade desses primeiros meses do ano é nada mais que um recorte, uma amostra mais crua e feroz da contemporaneidade. O tempo presente constitui um tempo marcado pela contradição e pela desigualdade: a falta de esperança, da tal crença na mudança, a apatia política e a sensação de que não há alternativa. No que se transformou o conjunto de expectativas dos seres humanos modernos? Concretizaram-se as “promessas da modernidade”?

Segundo o discurso dominante, amplamente difundido pela grande mídia, por intelectuais da ribalta e entranhado no senso comum, as promessas foram alcançadas e prova disso está na expansão e exaltação mundial do paradigma civilizacional do ocidente em contraposição à barbárie. Emancipação e liberdade finalmente garantidos com a vitória da democracia e do neoliberalismo sobre o totalitarismo opressor e outras formas de coletivismo castradoras da liberdade. A ampliação de direitos civis e a conquista de espaços e de direitos pelas minorias garantiram inclusão política a todos, abrindo as portas da prosperidade a qualquer um disposto a dedicar-se com afinco ao labor. Está aberto o caminho para a felicidade!

Contudo, apesar da tão exaltada vitória, persiste um mal-estar; persistem as contradições; persiste a insatisfação e o descontentamento; persiste a sensação de que a vitória chegou, mas não chegou. Se neoliberalismo e democracia liberal são caminho para a prosperidade e “não existe outra alternativa”, há algo no mínimo estranho com esse ideal que nos aprisiona em um mundo cada vez mais empobrecido, desigual e cheio de ódio. É esse desconforto que importa discutir. De onde vem? Por que existe? Por que temos tanta dificuldade de encará-lo e insistimos, muitas vezes, em ignorá-lo e “varrê-lo pra baixo do tapete”?

Manifestantes contra a corrupção, o comunismo e pela tutela militar da constituição.

Manifestantes contra a corrupção, o comunismo e pela tutela militar da constituição.

Acredito que o mal-estar deriva justamente do caráter complexo e paradoxal da democracia contemporânea, um ambiente sócio-político que produz e se nutre dessas mazelas. Nesse sentido, todas essas peculiaridades da contemporaneidade estariam conectadas e faz-se urgente nos colocarmos o desafio de relacioná-las. É fundamentar entendermos que o aprofundamento da desigualdade, as manifestações de ódio e intolerância, o terrorismo, a alienação e a apatia política, a desesperança e a banalização da injustiça social estão interligados.

Venho há tempos pensando nesses termos, ou seja, como o alargamento das desigualdades, a precarização da vida, o desespero, a falta de horizontes e a desesperança fomentam o ódio e a intolerância. A demonização de um terceiro elemento, do elemento externo e construção social de bodes-expiatórios, imputando neles a culpa pelas mazelas presentes não é algo novo ou desconhecido na história. É certamente uma solução mais fácil, imediatista e de rápida popularização. Vimos isso durante as grandes pestes que assolaram a Europa medieval; na Inquisição moderna; Alemanha dos anos 1920 e 1930, antes mesmo da vitória do nazismo; nos EUA do Jim Crow; etc. O desconhecido e o deslocamento social geram medo, revolta e indignação, sentimentos que muitas vezes se traduzem na demonização do outro. Em alguns casos o simples sentimento de ameaça de mudança, ainda que irreal, já é suficiente para deflagrar manifestações de discriminação e perseguição.

Essa é, então, uma primeira dimensão do problema, qual seja, a ligação entre transformações sociais e reações na forma de uma violência simbólica ou física direcionada a determinados grupo sociais. Há, contudo, outras dimensões, outras facetas que nos ajudam a compreender um pouco melhor esse tipo de violência reativa em nossos dias.

É preciso olhar também para o fato de que, apesar de nem todos expressarem seus descontentamentos através da violência e de muitos não coadunarem com esse tipo de prática, são bastante efêmeras as manifestações de indignação. A indiferença e a apatia política são um traço do tempo presente. É notável a retração de manifestações de indignação e mobilização social por justiça e solidariedade. O aprofundamento da indiferença e da anestesia social em nossos dias já instigou intelectuais como Christophe Dejours, Giorgio Agamben e Paulo Arantes a se debruçarem sobre a questão. Como eles, não creio que isso se dê pelo fato de muitos de nós estarmos nos tornando “maus” ou insensíveis, nem de estarmos diante de fenômenos marginais, aberrações sociais ou desvios da norma. É preciso ir mais fundo e pensar sobre o que gera essa paralisia. Que sociedade é essa, que produz uma geração de jovens que não se rebelam? Que democracia é essa, na qual os cidadãos não participam? Por que não participam?

Uma democracia “de aparência”, como nos diz Ellen Wood, dotada de cidadania ampliada, inclusiva no que diz respeito ao acesso ao direito, mas passiva, pouco militante. Uma democracia alienada e alienante, composta por cidadãos que não refletem ou refletem muito pouco sobre o significado da cidadania.

Losurdo e McChesney destacaram outros aspectos como alto nível de autoritarismo implícito nas democracias contemporâneas, bem como a dificuldade de espaço para discursos dissonantes na mídia, o que alargaria as possibilidades para o real debate em torno de questões sociais. Jaz aqui um outro clássico paradoxo de nosso tempo: em tempos de globalização e de crescente acesso mundial à informação, é gritante o nível de alienação e desinteresse. Isso nos faz refletir junto com os autores acerca do conteúdo das informações veiculadas, dos interesses e das relações de poder construídas por aqueles que produzem e difundem informação, conhecimento e cultura.

Como um samba de uma nota só, a indústria cultural promove a exacerbação dos princípios basilares da cultura liberal: individualismo, empreendendorismo e uma indiferença disfarçada para com o outro. Assistimos ao fortalecimento de símbolos e representações assentados no princípio da competitividade, na filosofia do do it yourself. O medo e a vergonha de tornar-se um loser, um fracassado, estimula a pressão por vencer e alimenta propostas de auto-ajuda.

A competição como entretenimento

A competição como entretenimento

Um olhar mais cuidadoso nos programas da telinha, nos filmes da telona ou um passeio pelas livrarias e notamos como se popularizaram recentemente os seriados de tipo reality show, filmes que exaltam o mercado financeiro e a literatura de auto-ajuda, não raro na banca dos best-sellers. Nos reality shows, programas regidos pelo princípio da competição, é interessante perceber o crescimento da temática e do ambiente empresarial, como é o caso de The Apprentice, Bar Rescue e Kitchen Nightmares. Nem as crianças escapam, como podemos perceber em Junior Master Chef. Desde bem cedo a mensagem da vida é: não basta fazer o que gosta; pra fazer o que gosta, tem que competir. Dos anos 1980 para cá, temos um número significativo de filmes sobre mercado financeiro, a maioria muito pouco crítico e esclarecedor, retratando esse espaço econômico como um ambiente excitante, sedutor e envolto em certa magia. Assim, a ideia da competitividade, do individualismo e do empreendedorismo saíram definitivamente do ambiente de trabalho ou das conversas na sala de jantar e adentram com força o espaço da diversão e do entretenimento.

Produtos culturais influenciam comportamentos. Mesmo os aparentemente “vazios de conteúdo” nos fazem pensar sobre nossa vida, sobre nosso mundo, sobre o que queremos, o que temos e o que nos falta, enfim, nos marcam. A associação da prática da competitividade à ideia de sucesso, prosperidade e felicidade por certo influencia o comportamento das pessoas nessa direção. Não é de espantar, portanto, o aumento da procura por literatura de auto-ajuda, workshops e o surgimento da figura do life-coach. Todos querem saber como melhor aplicar e executar a fórmula do sucesso. Sucesso que é sempre individual, assim como a prosperidade, a emancipação e a felicidade, todas conquistas do indivíduo em benefício dele próprio e no máximo dos seus mais próximos. Os outros, que sigam seu caminho e boa sorte.

Uma terceira dimensão do problema da violência motivada pelo ódio e pela intolerância é pensar em que medida o próprio sistema se beneficia dessas mesmas manifestações e se fortalece por conta delas. Ao direcionar o olhar para problemáticas fragmentadas ou contendas corriqueiras, deixa-se de pensar, ou mesmo enxergar, o problema fundamental da opressão em si. Opressão essa que é sistêmica; que é de raça, gênero, religião, orientação sexual, debilidades físicas ou mentais, mas também civilizacional e de classe.

Sendo assim, é uma opção política fazer crer que as manifestações de ódio e intolerância são um problema conjuntural, fenômenos marginais, restritos a um dado país ou a certas comunidades; algo que não se sabe muito bem como explicar; frutos da loucura, de uma maldade intrínseca a alguns indivíduos perturbados ou grupos imbuídos de uma cultura/religião afeita à violência e à devastação. É uma opção política fazer crer que opressão só existe na dimensão da diversidade, de identidades fragmentadas, e não da desigualdade social.

A análise e a luta contra essas opressões de forma descolada, ou mesmo o apagamento da opressão de classe (e sua faceta internacionalizante, o imperialismo) fortalece a coerção de classe, justamente por mascará-la. Essa estratégia de desvio do olhar é fundamental para perpetuação do sistema capitalista contemporâneo. Com o crescimento e a diversificação dos movimentos sociais ao longo dos séculos XX e XXI, muitos direitos e espaços foram conquistados. Mas essas conquistas, muitas vezes formais, válidas mais na letra da lei do que no curso da vida, não conseguiram por fim ao racismo, sexismo, homofobia, etc. Transformações de nível mental e cultural não se manifestam em curto prazo, com a criação de uma nova lei ou um novo estatuto. Contudo, o que procuramos destacar é o fato de muitas vezes não se pensar (e agir) contra a opressão em si, contra a necessidade de submeter o outro de alguma forma, usando para isso algum meio, seja o poder econômico, a ideia de raça, um sexo forte e pensante, um credo civilizado, etc. Aí reside a chave do problema; a desigualdade surge quando, pela violência, um conjunto de pessoas é privado de algo, é despossuído e quando as diferenças entre os seres humanos são hierarquizada, criando um cenário onde um grupo seleto é visto como superior aos demais. Ao desviarem o olhar da luta classes, os movimentos acabam contribuindo, ainda que indiretamente e mesmo inconscientemente, para a perpetuação da opressão de classe e de sua própria opressão, em última instância, por não combaterem a lógica da opressão em si.

Além disso, é importante pensar no financiamento de grupos extremistas que promovem o ódio e a intolerância. Quem financia essas organizações? A grande indústria armamentista lucra e muito com guerras, mortes e o ódio. A indústria da guerra tem o maior interesse em ver os povos se odiando e é uma das maiores promotoras dessa visão de que somos todos muito diferentes uns dos outros, pertencentes a culturas essencialmente incompatíveis.

Atentados terroristas e ataques individuais motivados pelo ódio tendem a gerar mais e mais ódio, estimulando manifestações de ódio organizado politicamente, como observado no aumento de popularidade do extremismo político e dos fundamentalismos religiosos.

Insistir em entender o terrorismo e demais expressões de ódio como simples ataques de bárbaros fundamentalistas ou de loucos extremistas à liberdade de expressão e à diversidade é deveras limitado, ou melhor, é a análise crítica da democracia liberal, compatível com as limitações desse sistema, que para sobrevier tem de fechar os olhos e silenciar os ódios promovidos em sua própria reprodução. É a reprodução ampliada do capital e do ódio.

Por que a barbárie insiste em nos rondar? Porque ela está no meio de nós; ela vive dentro de nós e desse mundo construído por nós. Vencer a barbárie, significa superar a opressão em todas as suas dimensões e alcançar a emancipação completa do homem. Para vencer a barbárie, como dizia Marx, é preciso findar por definitivo a pré-história.

Referências:

AGAMBEM, G. O que resta de Auschwitz. São Paulo: Boitempo, 2008.
ARANTES, P. O novo tempo do mundo. São Paulo: Boitempo, 2014.
BENJAMIN, W. Sociologia. São Paulo: Ética, 1991.
BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007.
DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
GIDDENS, A As consequências da modernidade. São Paulo: Unesp, 1991.
GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere. vol.3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
LOSURDO, D. Democracia ou Bonapartismo. São Paulo: Unesp, 2004.
MARX, K. O manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998.
McCHESNEY, R. Rich media, poor democracy. New York: New Press, 2000.
WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Cia das Letras, 2004.
WOOD, E. Democracia contra capitalismo: a renovação do materialismo histórico. São Paulo: Boitempo, 2003.

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