“Por que o marxismo não é oposto ao feminismo?” Ou “Quatro razões para se pensar um feminismo marxista”.

Muito se fala sobre uma pretensa incapacidade do marxismo em explicar e apontar respostas para algumas questões sociais que não parecem estar ligadas diretamente ao princípio básico da luta de classes no campo econômico, como as opressões sofridas por mulheres, negros, homossexuais e transgêneros.

Feminismo marxista

O que inicialmente é apenas uma associação do marxismo a um economicismo tosco, no qual as únicas relações de exploração que importam são aquelas entre as classes, acabou se fortalecendo em espaços que não valorizam uma leitura atenta da rica tradição iniciada por Marx e Engels, mesmo que muitos desses espaços sejam compostos por pessoas que se reivindiquem marxistas.

Por isto pensei em escrever um texto dedicado especialmente a mostrar para as minhas alunas e alunos como o marxismo não só não é avesso ao feminismo, mas, pelo contrário, esteve desde seu princípio voltado a ajudar na explicação e no combate à exploração de gênero. Sendo assim, baseado nesse texto do Paulo, pensei nos quatro pontos seguintes, na esperança de que respondam às dúvidas sinceras que me foram colocadas na sala de aula, que ainda me é um dos espaços mais estimulantes à reflexão.

1) Os pais fundadores do marxismo já estavam preocupados com a exploração de gênero.

Friedrich Engels e Karl Marx pensaram sobre a condição de opressão das mulheres desde suas primeiras obras. Engels, em sua Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra (1844) criticou a exploração do trabalho feminino nas fábricas e chegou a declarar que supremacia do homem sobre a mulher era inumana. Nos anos seguintes, ele se juntou com Marx para elaborar A Ideologia Alemã (1845-46), na qual fizeram uma trajetória histórica que aponta a dominação dos homens sobre as mulheres e crianças na família como a primeira forma de propriedade privada, estabelecida sobre uma divisão sexual do trabalho, ainda nas sociedades tribais. Assim, na década de 1840, os dois autores já apontavam a necessidade de uma economia doméstica comunal e da abolição da família como prerrequisito para a libertação das mulheres.

Marx em charge do LatuffN’O Manifesto Comunista (1848), Marx e Engels avançam na crítica à família burguesa, afirmando que nela o homem trata a mulher como sua propriedade e que num mundo socialista, as relações sociais de sexo seriam baseadas apenas no afeto, sem interferência das autoridades seculares ou religiosas ou da propriedade privada (que mantinha a mulher como dependente).

O grande salto dos fundadores do marxismo em relação à questão de gênero, todavia, aparece somente em 1884, quando Engels elabora sua A Origem da família, da propriedade privada e do Estado, a partir dos Cadernos Etnológicos escritos por Marx entre 1880-1881 em seus estudos sobre a obra do antropólogo Lewis Morgan. N’A Origem, Engels teve acesso a novos estudos sobre sociedades tribais de povos caçadores e coletores baseadas em lares comunais, que apontam para um igualdade entre homens e mulheres,  conforme argumentado em pesquisa recente.

A opressão masculina seria, portanto, fruto da revolução neolítica e da invenção da agricultura, que teria levado à abolição do direito materno na tentativa de manter a propriedade familiar. A partir daquele momento, os filhos permaneciam na família, enquanto as filhas eram deslocadas para outros grupos familiares. Ao mesmo tempo, a monogamia substituiu a família de casais flexíveis, com o homem assumindo o controle da casa e submetendo a mulher à servidão. O fim do lar comunal fez com que o trabalho doméstico deixasse de ser uma atividade coletiva, tornando-se uma obrigação privada de responsabilidade das mulheres.Foice-Martelo feminista

Engels afirmou que o capitalismo teria criado as condições para a libertação das mulheres ao inseri-las no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo em que esta inserção aumentou a exploração sobre as mulheres, com o estabelecimento da dupla jornada (trabalho assalariado mais trabalho doméstico), permitiu tanto a independência econômica feminina quanto a aumentou sua capacidade de associação para lutar por liberdade. Todavia, para Engels, só o socialismo permitiria criar uma nova estrutura familiar, que correspondesse ao papel de mulheres livres. Para isto seria importante a coletivização do trabalho reprodutivo (trabalho doméstico e criação de filhas e filhos), mas este foi um assunto em que as feministas marxistas avançaram mais.

2) Parte importante da teoria marxista foi pensada por feministas preocupadas em lutar contra a opressão de gênero.

ROSA LUXEMBURGO (1871-1919)

Rosa LuxemburgoJudia polonesa radicada na Alemanha, este talvez seja o principal nome teórico feminino da tradição marxista. Desde a adolescência trabalhando para a organização da luta operária, inicialmente no Partido do Proletariado polonês, Rosa acabou perseguida e exilada na Suiça, onde estudou economia política e direito, tornando-se uma das primeiras mulheres doutoras em Economia. Mudou-se para Alemanha para militar no Partido Social-Democrata, iniciando seu embate contra uma perspectiva reformista. Além de organizar greves alemãs, envolveu-se também no debate entre mencheviques e bolcheviques na Rússia, defendendo uma perspectiva revolucionária.

Perseguida e presa mais de uma vez pelo regime político alemão, Rosa nunca deixou de militar, chegando a polemizar com grandes nomes atualmente bem mais conhecidos no marxismo, como Lenin. Fundou, em 1918, a Liga Espartaquista, que acabou se tornando o Partido Comunista Alemão, em oposição ao Partido Social-Democrata, que considerava reformista e que apoiou a entrada da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Acabou presa, torturada e executada por grupos paramilitares de direita.

Rosa Luxemburgo escreveu algumas das mais importantes obras teóricas do marxismo e, embora não tenha se notabilizado pela luta feminista, foi um grande exemplo prático de empoderamento feminino e esteve sempre ao lado de sua amiga Clara Zetkin em suas reivindicações.

CLARA ZETKIN (1857-1933)

Clara ZetkinA alemã Clara Zetkin foi, provavelmente, o principal nome do marxismo feminista na virada do século. Fundadora da Liga Espartaquista junto com Rosa Luxemburgo e outros, ajudou a direcionar o movimento operário europeu em direção à luta das mulheres trabalhadoras, ressaltando que os empregadores preferiam contratar funcionárias para pagar menores salários (aumentando o desemprego masculino), o que demandava uma luta conjunta de homens e mulheres por salários igualitários.

Zetkin teve grande importância na fundação da Segunda Internacional (1889), propondo em seu discurso que os sindicatos deveriam começar a organizar as mulheres trabalhadoras. Na sua concepção, as lutas das mulheres não deviam ser vistas como homogêneas, pois seriam marcadas por um corte de classe: mulheres ricas lutavam pela liberdade de administrar suas propriedades; as de classe média buscavam oportunidades de emprego igualitárias para competir com os homens no mercado de trabalho; e as mulheres operárias, forçadas a trabalhar para complementar a renda familiar, deveriam lutar junto aos operários pelos interesses dos trabalhadores.

O trabalho de Clara Zetkin foi reconhecido no congresso da Segunda Internacional (1907), quando houve a Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, ratificando a necessidade de organizações especiais de mulheres dentro de todos os partidos socialistas e o apoio à luta pelo sufrágio feminino. A Segunda Internacional de Mulheres Socialistas (1910) aprovou a proposta de Zetkin de declarar o dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher Trabalhadora.

ALEXANDRA KOLLONTAI (1872-1952)

Alexandra KollontaiNascida em uma família da nobreza russa, Alexandra foi educada segundo aqueles padrões e casou-se com um jovem oficial do exército aos 20 anos. Seis anos depois, deixou o marido, o filho e sua situação privilegiada para se juntar ao Partido Social-Democrata dos Trabalhadores Russos, no qual exerceu papel de liderança.

Kollontai foi um dos principais nomes do feminismo bolchevique, exercendo um importante papel no desenvolvimento dos avanços iniciados por Marx e Engels acerca de exploração das mulheres. Ela defendeu que a família mantinha sua função reprodutora mesmo com a entrada das mulheres no trabalho assalariado. A única maneira de acabar tanto com a exploração do trabalho doméstico feminino quanto da possível exploração dos homens neste papel, seria através da socialização do trabalho reprodutivo. Neste sentido, era necessário agir contra o modelo estabelecido de família e ela teve um papel de liderança nesses debates, voltados para a elaboração de uma política de igualdade de gênero na Rússia bolchevique. Com o endurecimento do regime soviético, Kollontai foi mandada ao exílio na qualidade de embaixadora, vivendo em países como Noruega, México e Suécia.

3) As experiências de governos dos trabalhadores foram marcadas por conquistas expressivas na luta contra a opressão de gênero.

COMUNA DE PARIS (1871)

Em 18 de março de 1871, as mulheres foram as primeiras a alertarem que as tropas do governo estavam nas colinas de Montmartre tentando desarmar a cidade de Paris, após a resistência aos avanços dos exércitos da Prússia. Elas impediram as tropas de retirar as armas do proletariado dando início o primeiro governo operário da história europeia.

"Mulheres de Paris" na Harper's Weekly de 27 de Maio de 1871.

“Mulheres de Paris” na Harper’s Weekly de 27 de Maio de 1871.

Entre suas primeiras decisões, o governo da Comuna decretou, entre outras medidas, a igualdade de direitos entre os gêneros. Pelo menos três mil mulheres participaram dos esforços da Comuna fazendo uniformes, cuidando de feridos, alimentando os soldados, construindo barricadas e organizando coletivos como o Comitê das Mulheres para Vigilância e a União das Mulheres para a Defesa de Paris, que ocuparam fábricas e trabalharam na produção de munições.

As mulheres também pegaram em armas para defender os interesses comunais das trabalhadoras e trabalhadores, formando um pelotão unicamente feminino, com 120 combatentes que lutaram até o último momento e morreram massacradas pelas forças da reação. Diversos cargos importantes na Comuna foram ocupados por mulheres, como Maria-Catherine Rigissart, que comandou o batalhão feminino, ou Adelaide Valentin, que chegou ao posto de coronel.

REVOLUÇÃO RUSSA

A partir das discussões elaboradas tanto pelos teóricos do marxismo, quanto pelas militantes feministas, a visão bolchevique acerca da igualdade de gênero era baseada em quatro objetivos: 1) união livre e sem interferência estatal ou religiosa; 2) emancipação das mulheres através do trabalho assalariado; 3) socialização do trabalho doméstico; 4) definhamento da concepção de família.

Poster soviético com os dizeres: "Trabalhadoras, tomem seus rifles!"

Poster soviético com os dizeres: “Trabalhadoras, tomem seus rifles!”

Para alcançar tais objetivos, ainda em 1917, dois dos primeiros decretos do governo bolchevique determinaram a substituição do casamento religioso pelo civil e o estabelecimento do direito de divórcio a pedido de qualquer um dos cônjuges.

No ano seguinte, o governo promulgou o Código de Casamento, Matrimônio e Tutela, visto como legislação de transição, uma vez que muitas das suas regras deveriam se tornar obsoletas com a consolidação do regime bolchevique e a consagração de uma sociedade socialista. Tendo Alexandra Kollontai como um dos principais nomes nos debates de sua elaboração, o código garantia a igualdade de gênero perante a lei e ampliava as garantias de pensão alimentícia para o homem e a mulher em caso de pobres e desvalidos (sendo este um exemplo de regra de transição, uma vez que no futuro todos estariam igualmente capazes de se sustentar).

A mesma legislação aboliu a ilegitimidade de filhas e filhos gerados fora dos casamentos e proibiu a adoção, numa tentativa de evitar a exploração de menores adotados para trabalhar. Determinou-se que o casamento não dava origem à propriedade compartilhada, garantindo às mulheres a manutenção do controle sobre suas próprias propriedades.

O governo bolchevique apontou ainda para uma socialização do trabalho doméstico ou reprodutivo, garantida pelo estabelecimento progressivo de restaurantes, lavanderias e creches estatais. Na perspectiva das feministas do período, o fim da dependência econômica e da associação entre o trabalho doméstico e o gênero feminino levaria ao definhamento da estrutura familiar existente e à igualdade de gênero, elevando o afeto e o amor aos únicos motivos para se manter ligado a outros indivíduos.

Posteriormente, com o endurecimento do regime, estas medidas acabaram deixando de existir, o que acabou por manter o poder do patriarcalismo na Rússia.

4) A interseccionalidade ou consubstancialidade é a única forma de entender e derrotar efetivamente todas as opressões.

Falei junto com o Marco em outro texto que para modificar o mundo é preciso antes entendê-lo corretamente e que para isto devemos nos munir de ferramentas teóricas de explicação das relações sociais. Este é caso do conceito de interseccionalidade ou consubstancialidade, muito bem apresentado aqui neste blog em um texto bem legal da Bárbara, que explica perfeitamente porque devemos ver as opressões sempre do ponto de vista do nó classe/gênero/raça. Tal perspectiva possibilita compreender como as diferentes opressões se congregam e se fortalecem e apontar para uma sociedade igualitária dependente da superação não só da desigualdade de gênero, mas também das diferenças de classe e raça.

Mulheres revolucionárias

Para saber mais:

Com exceção do livro da Wendy Goldman, que recomendo fortemente que todo mundo compre, os outros textos estão todos disponíveis na internet. Aproveitem!

GOLDMAN,Wendy. Mulher, Estado e Revolução. São Paulo: Boitempo, 2014.

D’ATRI, A. “Comuna de Paris: Mulheres Parindo um Novo Mundo”.

QUARTIN MORAES, M. L. “Marxismo e Feminismo: afinidades e diferenças”. Crítica Marxista.

KERGOAT, D. “Dinâmica e Consubstancialidade das Relações Sociais”.

HIRATA, H. “Gênero, classe e raça. Interseccionalidade e Consubstancialidade das Relações Sociais”.

Sobre Fábio Frizzo

Professor universitário, doutorando em História Social e guerrilheiro de Sierra Maestra.
Esse post foi publicado em Autores marxistas, Dossiê Feminismo, Formação, Gênero e marcado , , . Guardar link permanente.

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s