Como e Por Que a Educação Pública Brasileira está morrendo? Algumas respostas

Não é novidade para ninguém que a educação pública brasileira e seus profissionais encaram dificuldades que parecem cada vez mais numerosas e maiores. Este texto foi pensado a partir do debate com pessoas que não trabalham com a educação, mas que não faziam ideia da sensação de esgotamento (ou simplesmente fim) da educação que os educadores vêm sentindo na última década. É comum falarem que “A educação está morrendo é um exagero!” Será?

Resposta 1: A primeira resposta que a gente poderia dar a esta pergunta tem a ver com o dia-a-dia dos profissionais da educação. Todos os profissionais necessários ao funcionamento da escola (coordenação pedagógica, limpeza, direção, inspetoria, professores, cozinha etc) sabem por experiência direta uma realidade estatística: a escola adoece seus profissionais. Este fato é tão notório que pesquisar sobre o tema significa achar muitos textos, diversos outros que tentam explicar por que professores adoecem , e alguns que elencam as doenças mais comuns (as ligadas  à voz e à audição, ao aparelho respiratório, ao sistema locomotor e a problemas psíquicos). A presença de psicólogos em escolas não é garantida, e um projeto de lei que tentava criar esta obrigatoriedade em São Paulo foi vetada pelo governador Geraldo Alckmin em 2013 (situação atual do projeto aqui). E mesmo que a presença destes profissinais fosse aprovada, ela seria voltada para a psicologia escolar, buscando o desenvolvimento dos alunos, não o acompanhamento dos professores. Ainda assim, a presença destes profissionais ajudaria indiretamente os professores, pois há pesquisas que falam da relação entre ausência de profissionais de psicologia e a violência escolar. E por falar em violência, um levantamento indicou que 44% dos professores de São Paulo já foram agredidos em sala e outro aponta o Brasil como o líder mundial de agressão de professores em uma amostragem de 34 países.

Há também naturalmente a questão da outras condições materiais que ajudam a produzir adoecimento entre os professores: a quantidade de alunos por turma (em 2010, último ano para o qual há estatísticas disponíveis, a média do 1º ao 9º ano era de 25 alunos por turma e, no ensino médio, 32,9 alunos por turma; estes números provavelmente aumentaram); os problemas físicos das salas (luz, calor, acústica etc); a violência urbana que atravessa a escola (em alguns casos, literalmente). No plano psíquico, também é difícil não entender como fator de desgaste a imensurável e compreensível desilusão dos que profissionais que compartilham a sala dos professores.

É fundamental destacar que estas discussões geralmente seguem o padrão de prática e discurso medicinal. Isto é, elas tentam entedender o que produz estes adoecimentos, por que eles acontecem e recuperar os profissionais para que possam desempenhar suas funções. Poucos estudos, contudo, questionam a própria estrutura tal como ela é, e por isso a própria ideia de abolicionismo escolar é recente e comumente mal compreendida.

Na relação saúde-doença, a morte da educação pública brasileira aparece como questão de escala.

Resposta 2:  O setor público concentrava 86% das matrículas na educação básica em 2011. Apesar deste número bem alto, o deficit no número de professores no mesmo período era também muito alto: 300 mil. Esta cifra corresponde a 15% dos educadores em sala de aula no mesmo período. Muito embora o número de ingressantes nas licenciaturas (faculdades que formam professores) tenha aumentado nos últimos 15 anos, a distância entre a quantidade de alunos que entram nos cursos e que se formam é grande. Da mesma forma, não há garantia que mesmos os formandos vão exercer a profissão. E, dos que a exercem, muitos desistem e pedem suas respectivas exonerações (demissões) do setor público. Em agosto de 2014, a quantidade de professores que tiveram seu pedido de exoneração aceito e publicado pela Secretaria de Educação do Rio de Janeiro foi de 354; somados aos 146 demitidos temos, em apenas um mês, 500 professores a menos na rede . Nos vestibulares as licenciaturas não raro estão entre os cursos menos procurados . Alunos de Ensino médio não pensam em ser professor pela experiência direta que têm com  professores, ouvindo dos mesmos os problemas da profissão . Algumas universidades públicas chegam a contar com alto número de vagas ociosas, tanto para alunos quanto para professores. Os motivos alegados para o desinteresse e o cada vez maior abandono da profissão não são desconhecidos: baixos salários, desvalorização da profissão, desprestígio profissional, insatisfação no trabalho etc.. O deficit ainda existe e não é pequeno. Precisamos de estudos mais recentes para uma conclusão, mas a tendência parece ser que a ausência de professores está aumentando, e não diminuindo.

Se isto se confirmar, a morte da educação pública é questão de tempo.

 

Resposta 3: Alguns professores ainda resistem contra a piora da profissão e tentam fazer com que os diferentes governos façam valer o que está escrito na lei. Já houve um momento histórico em que os profissionais da educação conseguiam se organizar de forma a conseguir novos direitos que tornaram a profissão mais atraente. Hoje a questão, na maior parte dos setores, é tentar evitar perder e tentar fazer valer a lei. Os professores que se organizam coletivamente para tentar salvar a educação e a si mesmos. A resposta têm vindo de duas formas.

A primeira forma é a força bruta. Quando os professores conseguem mobilizar esta quantidade de gente…

… a resposta é esta

Cinelândia sitiada, na aprovação do plano de carreira da prefeitura do RJ.

Cinelândia sitiada, na aprovação do plano de carreira da prefeitura do RJ.

Como se ser alvejados por pedras por policiais do alto de prédios e ser alvo de deboche por parte da polícia que espanca professores não fosse suficiente, há ainda outra dimensão de agressão aos que tentam fazer da educação um espaço de resistência: a legalidade e o descrédito.

Mais especificamente, há propostas de lei relativamente recentes que tentam proibir qualquer expressão ideológica da sala de aula, tentando despolitizar a educação. Estes projetos, que naturalmente são todos também ideológicos e com lados bem claros, já correm em diversos lugares, como a câmara municipal do Rio de Janeiro e na Câmara Federal, atualmente já contando com adições que proíbem discutir questões como gênero e sexualidade nas escolas. Estas leis são todas relacionadas, de forma explícita nos próprios projetos de lei, ao Movimento Escola Sem Partido. Os professores que praticarem o chamado “Assédio Ideológico” podem sofrer pena de detenção de 3 meses a um ano e multa. O autor do projeto que criminaliza o “Assédio Ideológico” garante que professor nenhum será preso porque o tempo de detenção previsto na lei garante que a pena será cumprida em regime aberto.

De uma forma ou de outra, a educação também se torna caso de polícia.

Estes cenários, fatores e respostas tornam o magistério muito pouco atrativo, seja para o ingresso de novas pessoas, seja para manter os que já são parte dele. Se a morte da educação se anuncia também por falta de profissionais, uma pergunta muito importante precise ser feita. Por que ainda não morreu?

  

Resposta 5: A profissão de educador está quase sempre ligada a questões de afeto, ainda que os motivos e as relações que levam a isso sejam muito diversas. O afeto, tanto no sentido de afetar os alunos (individualmente ou como conjunto) como no sentido de ser afetado, também é fundamental para aqueles que fazem da educação seu dia-a-dia. Tal qual do asfalto surge a flor, do afeto e da necessidade dele também pode surgir a resistência.

Educadores resistem, de formas muito diferentes. Eles podem resistir e perseverar na profissão por motivos individuais e de formas individuais (embora desta forma seja comum resistir por menos tempo). Resistir também pode acontecer de forma coletiva: com os próprios professores da cadeira que leciona, com os professores da área de conhecimento na escola, com a comunidade escolar, com a categoria de forma mais ampla ou com os profissionais da educação como um todo.

A partir do afeto e da resistência, também é comum que educadores saibam do impacto de suas práticas nas vidas das pessoas com quem se relacionam profissionalmente. Esta percepção muitas vezes vem de forma indireta, por perceber a ampliação nas capacidades, habilidades, etc., desenvolvidas pelos alunos ao longo do tempo. Também pode vir de forma direta, da boca do alunado, do ex-alunado (e da saudade destes da época da escola) ou dos demais profissionais da escola. O (auto)reconhecimento da importância social da profissão vem da experiência prática e direta, de um desenvolvimento e envolvimento que dificilmente consegue ser medido ou quantificado.

Esta resposta não apaga, não justifica, não nubla as anteriores. Manter-se na educação pública sempre se torna, em maior ou menor medida, resistir. Com misturas de gostos e tons, sabores e cores. Entre tantas respostas possíveis, ela ainda não morreu e foi enterrada porque muitos fazem dela questão de resistência, questão de honra.

Sobre Renato Silva

nao fica ninguem. Professor de Historia, Flamenguista e suburbano.
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Uma resposta para Como e Por Que a Educação Pública Brasileira está morrendo? Algumas respostas

  1. Paulo Pontes disse:

    Será que o ensino público não está morrendo também pela postura anti-capitalista e anti-meritocracia que permeia a área como um todo?
    Fiz segundo grau em uma instituição pública e todo ano tinha greve, o calendário divulgado no início do ano já tinha um mês a mais de aulas considerando que haveria uma greve em algum momento e ainda assim o cronograma não era cumprido!
    No caso era o CEFET do Rio de Janeiro, onde todos os laboratórios de meu curso exceto dois estavam com a manutenção atrasada e com os equipamentos e EPIs muito precários. As duas exceções eram devido a dois professores que realizaram parcerias com empresas que fariam a manutenção (piso elevado, ar condicionado, trocas de peças das máquinas) em troca do direito de uso dos equipamentos fora dos horários de aula. Uso esse que podia ser visto pelos alunos, aumentando em muito a absorção da matéria (ver um profissional usando o equipamento tem um efeito didático muito grande).

    O que a direção, claramente esquerdista, fez? Ameaçou demitir os professores por estar “prvatizando o equipamento”. Para eles era mais interessante ter um ferro velho do estado na sala do que ter um equipamento funcional para os alunos mas que as empresas pudessem usar.

    O que acontece com uma pessoa que queira doar um equipamento para uma instituição de ensino? Ela é estimulada a fazer isso ou a instituição vai gerar burocracia e o governo cobrar taxas para que isso aconteça?

    Em suma, o que está matando o ensino é a ideologia socialista/comunista/marxista (chame como você quiser) e não o capitalismo.

    Para que o ensino no brasil melhore, precisamos implementar uma meritocracia de verdade dentro das escolas, usar o ENEM e outras provas padronizadas, junto com eventos como as olimpíadas de matemática para estimular a melhoria do conjunto com a concorrência das escolas, pemiando quem está melhorando de posições e punindo quem está caindo. Eu nunca vi diretor de escola cair porque a escola diminuiu suas notas médias no ENEM. Se um diretor de empresa vê sua produtividae cair, ele roda na hora!

    Não estou dizendo que a culpa é dos professores, mas que estes fomentaram um sistema que criou a maioria dos problemas que eles encaram agora!

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