O cercamento do Campo

Cresci em Conselheiro Paulino, um bairro de origens operárias, praticamente um subúrbio de Nova Friburgo, cidade da região serrana do Estado do Rio de Janeiro. Abrindo a janela da sala da minha casa, ou indo à varandinha do quarto dos meus pais, eu dava de cara com o Pastão. Um campo até bem grande, para um bairro de população razoavelmente densa. Ao seu lado estava o Cofec, maior escola estadual do bairro. E ao redor desse conjunto escola-campo, ruas basicamente residenciais, apenas com o Rio Bengalas delimitando o território ao fundo.

Mapa da região do Campo do Pastão, em Conselheiro Paulino

Mapa da região do Campo do Pastão, em Conselheiro Paulino

Ali ocorriam, aos sábados e domingos, jogos de alguns campeonatos locais de futebol amador. No resto do tempo, era o principal espaço de lazer das crianças, adolescentes e jovens de todo o distrito. Vivi parte significativa da minha infância no Pastão. Muito novinho pesquei meus primeiros girinos em poças no campo (que naqueles tempos estava mais para um pantanal). Meu primeiro banho de chuva, daqueles que toda criança deve tomar pelo menos uma vez, também foi lá; mergulhei nas largas poças que se formaram (nessa altura o campo já estava em melhores condições, mas a drenagem ainda não era lá muito champions league) com mais gosto do que qualquer criança de mesma idade pularia em uma piscina.

E óbvio, joguei muita bola. Como aquele gol era grande, deus do céu! Para um perna-de-pau que disfarçava jogando na posição que ninguém quer, aquele gol era especialmente ingrato. Um chute alto bem dado e já era. A melhor saída era jogar só meio campo, na transversal, marcando os gols com chinelos. Assim, ainda podíamos dividir o campo com outros grupos de crianças sem maiores problemas.

As outras crianças: e chega-se ao tema mais importante. Sou filho de um arquiteto e de uma professora, típica família de classe média. Como costuma acontecer com quase todas as crianças, a maioria dos meus amigos eram mais ou menos da minha mesma faixa de renda. Mas como eu morava em um bairro de verdade, e não num desses bairros de condomínios sem esquina, e tinha o principal espaço público de lazer para as crianças da região em frente à minha casa, brinquei com muitas crianças diferentes. E convivi com crianças pobres e negras. E criei empatias e simpatias com elas – e algumas brigas, raivas e choros, como não poderia deixar de acontecer em qualquer relacionamento independentemente de classe social ou qualquer outra coisa.

Não tenho sombra de dúvida de que essa convivência teve um papel central na formação das minhas sensibilidades e convicções políticas. Mais importante do que qualquer Marx que eu tenha lido, foi a experiência da convivência com pessoas vivendo em condições diferentes das minhas (e passando necessidades que eu não passava e sofrendo opressões que eu não sofria) que tornou a solidariedade com aqueles expostos a condições opressivas um dos valores políticos mais importantes para mim.

O pastão antes de ser um campo.

O pastão antes de ser um campo.

O Pastão era desses espaços públicos cada vez mais raros frente à sanha da especulação imobiliária que domina as cidades brasileiras. Mas não, a tragédia a que fiz referência acima não foi sua destruição para a ocupação imobiliária privada. O Pastão se parecia também com outros espaços públicos que tiveram final ainda mais terrível. Outro campo em que joguei bola na minha infância, o campo do Nova Friburgo Futebol Clube é um bom exemplo. Hoje, o campo jaz tristemente como um estacionamento rotativo, vítima de outra das sanhas do mundo moderno, a automotiva.

O Pastão não sofreu destino tão inglório (contudo, e falo isso morrendo de medo de dar ideia para os empreendedores de Conselheiro Paulino, o Pastão corre o risco de chegar ao mesmo fim, dada a situação cada vez mais caótica das vagas de estacionamento no bairro). Felizmente o campo está lá até hoje. Mas como os campos comunais da Inglaterra nos séculos XVI e XVII, ele foi cercado. Os camponeses da Inglaterra foram expropriados de seus meios de produção, as crianças de Conselheiro Paulino foram expropriadas de seus meios de lazer e convivência. Eu e meus amigos fomos vítimas tardias de um singular enclosure.

Eu era pequeno, não devia ter mais que dez anos de idade.  Lembro vagamente do início do disse-me-disse, “vão fechar o campo”. A justificativa que lembro ter ouvido dizia respeito à necessidade de preservar a grama para os jogos importantes (os campeonatos amadores do final de semana). Cercando-se o campo, limitando-se o acesso, melhorias poderiam ser feitas: uma drenagem mais eficiente, um gramado melhor, a construção de um vestiário. Mais “Brasil anos 90” um argumento não poderia ser: limitar o acesso a um bem público dizendo simplesmente que isso era necessário para a modernização do país (quer dizer, do campo). O consenso de Washington se fazia presente em Conselheiro Paulino.

O campo ficou um bom tempo em obras, que pareceu maior aindapara uma criança de menos de dez anos. Quem financiou eu não faço ideia. Mas lembro da inauguração: o time juvenil do Vasco foi convidado para um amistoso (contra o time da escolhinha de futebol? Não sei dizer), e teve uma daquelas bandas de fanfarra. Devem ter tocado o hino nacional, não lembro.

A indignação entre as crianças do bairro foi imensa. De uma hora para outra, o espaço que servia de eixo para parte significativa da nossa vida social estava nos sendo roubado, sem mais nem menos. Era uma injustiça! Uma injustiça tremenda, nós éramos quem mais usava o campo, quem mais precisava do campo para seu cotidiano, e o campo nos estava sendo tomado com argumentos cujo absurdo, nós, crianças de dez anos, éramos capazes de perceber: do que adiantava melhorar o campo se não poderíamos usufruir dele?

“Não se afobem crianças, vocês vão poder usar o campo se matriculando nas escolinhas gratuitas que vão ter. E assim vocês vão usar o campo sem estragá-lo”, deve ter sido nos dito em algum momento. A vontade de organizar a bagunça popular, de tutelar o povo, de ensiná-lo a usufruir do seu bem público de um jeito que ele não sabe (que apenas os iluminados sabem). Está aí, acredito, a raiz do cercamento do campo. Tirando a empreiteira que fez a obra, não sei se alguém ganhou dinheiro com essa história. Mas alguns ganharam o poder de controlar o acesso ao espaço público de lazer mais importante de todo um distrito, e suas primeiras vítimas fomos nós, as crianças do bairro, que não merecíamos usar um campo que tinha ficado tão bom depois da reforma. E tenho muito orgulho do que vou contar agora: a resistência infantil foi feroz.  Invadíamos o campo o tempo todo. Existia um pequeno platô junto a uma das bandeirinhas de escanteio da qual era possível pular facilmente para dentro do campo.  Sempre aparecia um vigia ou coisa que o valha para nos expulsar ao som de impropérios recíprocos.

Mas tenho que confessar: os dois metros e pouco de altura do pulo me assustavam bastante. Por isso sempre preferi uma alternativa: cortar o arame da cerca. O campo, na época, era cercado por aquelas telas de arame que formam losangos (hoje já existe um muro, para além da cerca). Lembro com bastante apreço da primeira atitude de contestação política da minha vida: logo depois da reforma pronta, eu e mais alguns amigos esperamos chegar a madrugada, pegamos alicates da caixa de ferramentas do meu pai e cortamos a cerca em diversos pontos. Essas “portas” foram utilizadas durante dias pelas crianças para invadir o campo, antes de serem remendadas. Dava um baita orgulho ver outras crianças entrando no campo pelos rasgos que eu tinha feito na cerca.

Como em toda resistência bem feita, organizada, orgânica e incansável, obtivemos algumas vitórias. Os administradores do campo passaram a organizar campeonatos infantis e nós começamos a ter um acesso mais regular ao campo. Mas tudo isso era muito instável, e os administradores não abriam mão de ter o controle sobre o acesso ao campo – eram Senhores do campo, Coronéis do Pastão. A solução mais definitiva acabou sendo a “construção” de um pequeno campo de terra em um terreno baldio ao lado do campo (onde hoje existe um ginásio municipal, cujo acesso também deve ser tutelado de alguma maneira, se é que ele é aberto ao público comum). A lógica era clara: um campo de dimensões quase oficiais, com grama, drenagem, gol oficial e vestiário não era coisa de criança, era coisa séria e só podia ser utilizado para coisas importantes (leia-se, controladas pelos administradores do campo). Para as crianças, bastava um campo de terra batida.

E o pior é que bastava mesmo. Era uma patifaria nos fazer jogar num campinho de terra batida com um campão de grama, verdadeiro latifúndio improdutivo, ao lado (vai ver daí venha minhas simpatias pelo MST). Mas começamos cada vez mais a jogar no campinho e a cada vez menos invadir o campo. Alternativas foram aparecendo, cada vez mais jogávamos “golzinho de praia” na própria rua da minha casa, as vezes conseguíamos autorização do diretor do Cofec para bater uma pelada na quadra da escola, e por aí foi, com a criatividade infantil solucionando o problema criado pelos adultos. Mas a simbologia do campo do Pastão cercado e vazio ao longo de toda a semana, enquanto nos espremíamos em espaços de lazer improvisados, mantinha-se forte: aquele espaço público não era mais nosso. Havíamos sido usurpados.

***

O campo submerso na maior enchete da história de Nova Friburgo. Em primeiro plano é possível perceber as pontas das pilastras da antiga cerca, que por pouco não se afogaram por completo.  Ao fundo, em azul, o Cofec e ao seu lado o Ginásio Municipal.

O campo submerso na maior enchete da história de Nova Friburgo. Em primeiro plano é possível perceber as pontas das pilastras da antiga cerca, que por pouco não se afogaram por completo. Ao fundo, em azul, o Cofec e ao seu lado o Ginásio Municipal.

Existe uma frase feita nos círculos de auto-ajuda que sempre aparece na grande mídia quando uma crise econômica estoura: o ideograma coreano que representa a ideia de Crise é o mesmo usado para representar Oportunidade. Alguém sabe me dizer se isso é verdade? Existe mesmo esse raio de ideograma?

Não foi exatamente uma crise, mas uma tragédia climática de dimensões bíblicas que se abateu sobre Nova Friburgo em Janeiro de 2011. O Rio Bengalas, que, como eu disse acima, delimita ao fundo esse território do campo do Pastão resolveu fazer fronteiras mais pra cá da minha casa. A correnteza do rio destruiu boa parte das cercas e muros do campo, mas a parte que ficou de pé o transformou em uma represa de lixo. A quantidade e variedade de coisas trazidas pelo rio e deixadas na represa do Pastão foi imensa.

Demorou meses para que o campo fosse finalmente limpo. No início chegaram a fazer o oposto de limpar: aproveitando que o campo já estava cheio de lixo mesmo, jogava-se o lixo retirado de outros lugares do distrito no campo. Mas finalmente o campo foi limpo. E estava com parte dos muros e cercas destruídas. Logo começou a reaparecer a vida no campo. Algumas poucas crianças jogando bola no Pastão novamente. Foi bonito ver aquilo. Infelizmente, hoje, os muros e as cercas já estão reconstruídos e o campo jaz novamente morto.

Não duvido que este cenário tenha se repetido em várias cidades brasileiras. A especulação imobiliária é a locomotiva da nossa urbanização, e espaços públicos são muitas vezes seus alvos prioritários. Um espaço em torno do qual a vida de centenas de crianças girava é hoje um espaço morto. Um espaço sobre o qual algum gênio logo pensará: tão grande e tão inutilizado, deveria virar um shopping, um conjunto de prédios ou quem sabe um estacionamento. Não! Deveria voltar a ser um espaço público de convivência entre as pessoas. Desses que cada vez mais esquecemos que existiram e deveriam existir, desses que gerações vão crescer sem conhecer sequer a noção do que é.

A oportunidade de acabar a obra do rio Bengalas e por abaixo as cercas do campo, de reintegrar aquele imenso e necessário espaço ao uso público se perdeu. Seria maravilhoso não ter que esperar outra crise para termos outra oportunidade. Urge por abaixo aquelas cercas! Ainda tenho alicates em casa, qualquer coisa, me avisem. Ainda que agora existam também muros, alguém há de ter marretas.

Uma grande festa católica no campo. À frente de um palco montado dentro do campo, uma pequena multidão se aglomera. Ainda que de tempos em tempos o espaço do campo ganhe vida e sirva como espaço (semi)público, ainda é um uso tutelado e controlado - além de esporádico. A liberdade do campo aberto em que o povo se encontrava e organizava o uso por si mesmo jaz perdida. Em primeiro plano é possível ver a nova cerca. Ao fundo, uma mancha miserável cinza, o novo muro.

Uma grande festa católica no campo. À frente de um palco montado dentro do campo, uma pequena multidão se aglomera. Ainda que de tempos em tempos o espaço do campo ganhe vida e sirva como espaço (semi)público, ainda é um uso tutelado e controlado – além de esporádico. A liberdade do campo aberto em que o povo se encontrava e organizava o uso por si mesmo jaz perdida. Em primeiro plano é possível ver a nova cerca. Ao fundo, uma mancha miserável cinza, o novo muro.

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