ÓDIO E RESSENTIMENTO DE CLASSE NO BRASIL HOJE

Cada geração deve descobrir a sua missão? O cheiro do vinagre não sai da roupa desde 2013

As tentativas de reflexão a propósito da geração estão fadadas ao fracasso. Em primeiro lugar, porque pertence à ação humana aquele grau de imprevisibilidade tão caro à Hannah Arendt, devido ao poder de iniciativa, isto é, de dar início a alguma coisa. Em segundo lugar, porque não existe tal coisa como “a geração”, a não ser como algo constituído após os fatos terem se revelado: existem gerações dentro da geração, composta por grupos heterogêneos e muitas das vezes conflitantes (que não estão em condições de igualdade de gênero ou de classe, por exemplo). Não obstante, os últimos acontecimentos que tiveram palco em diversas cidades do Brasil, o grau de perigo a que estamos submetidos e a condensação das convulsões históricas dos últimos 30 anos em Junho de 2013, nos forçam a uma tentativa de compreensão para que possamos avaliar melhor o caminho que decidirmos pisar daqui em diante.

A propósito de uma peça itinerante do Rio de Janeiro, Panidrom, o sociólogo Paulo Gajanigo afirmava: “Junho foi traumático, isso explica nosso silêncio. A tomada das ruas, a relação carnal com a cidade, com os edifícios, a fricção com a pele da rua, o tesão em ver o cotidiano desfigurado. (…) A peça Panidrom é a continuação de junho por outra via. Tenta encontrar junho em nós, em nosso corpo. E talvez, mais do que uma organização que traga e preserve o legado de junho, o mais urgente seja trazer à superfície essa experiência.”

Essa experiência de trazer Junho em nosso corpo, que precisa ser trazida à superfície, é uma experiência radicalmente histórica. Não porque esteja pré-determinada pelos fatos, de maneira causal: mas porque foi escrita com as armas que nos foram concedidas pelas nossas lutas sociais diárias. Essas mesmas condições forjaram as armas das classes dominantes.

Capa de “Encarnado”, de Juçara Marçal

Pinheirinho e Aldeia Maracanã

Não foi sem espanto que recebemos não apenas junho de 2013, mas também outubro de 2014. (Tão diferente desse previsível agosto/setembro de 2015, esse bimestre de fascismo aberto e despudorado.)

Quanto a junho, sabia-se que alguma energia se fermentava entre os jovens, mas não sabíamos que éramos tantos; frente à força das multidões, não imaginávamos também que a repressão estatal seria tão grande. Afinal, esta geração, muito criativa e novamente engajada, descolara-se da experiência de engajamento das velhas formas: com isso perdeu também o aprendizado da truculência do Estado, saber este que estava reservado aos poucos movimentos sociais e partidos políticos que ainda se organizavam em torno da ação direta. Em suma, o mapa da repressão foi não apenas maior do que esperávamos, mas também mais cínico (podemos tomar como acontecimento mítico – que instaura um padrão – o escancaro da brutalidade sobre Pinheirinho, em São Paulo, e sobre a Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro; antes, as remoções eram exercidas sob certa hipocrisia). Quanto a Outubro, sabia-se que a reação da direita seria forte, mas não havia como saber o quanto seu discurso poderia se contaminar, nem com que força.

É claro que esse tipo de surpresa revela certa amnésia de nossa geração, mas a psicanálise mostra como o esquecimento e a tomada de consciência desse esquecimento têm um papel importante a desempenhar no trabalho psicanalítico. Mas o que é que estamos perdendo nesse caminho?

“Não tenha ódio no verão…”: Caco Antibes tem de se contentar com os pacotes CVC

Sabe-se da apatia dos anos 1990. Os movimentos sociais não sumiram, nem as lutas por direitos jamais estancaram: as classes não sucumbem sem oferecer resistência. No entanto, a fragmentação e o desamparo dos diversos combatentes eram a dura realidade da esquerda, e a falência dos nossos modos de resistência fazia ressaltar o sentimento de impotência. Alguma coisa, no entanto, mudou, a partir dos anos 2000. Seria possível remontar a um movimento global de retomada das ruas, assim como a um movimento continental, de guinada à esquerda, por parte da América Latina. Aqui, no entanto, trataremos da “nossa” experiência. A chamada era Lula trouxe tantas modificações, mantidas às custas de duras permanências, que as contradições sociais se exacerbaram de maneira conflituosa e irreversível. Aquilo que se encontrava em certo grau de estabilidade foi rearranjado de tal maneira que afetou as estruturas mais sólidas de nossa sociedade.

Isso ficou claro com o reaparecimento dos discursos bélicos da direita nas recentes manifestações de rua, quando o debate sobre o ódio se tornou incontornável. Certamente, esse retorno do recalcado não data apenas da tentativa de virada à direita nas chamadas Jornadas de Junho[1], nem se configura apenas como resposta à retomada do apoio a projetos de esquerda. Processos sutis se articularam para que os discursos bélicos conservadores perdessem a inibição, em uma trama que liga acontecimentos aparentemente desimportantes, desde a regulamentação da profissão de diaristas, e a proibição da segregação social por meio de elevadores “de serviço” em diversos municípios, até a entrada progressiva de classes trabalhadoras e de jovens negros e índios nas Universidades pelos diversos sistemas de cotas e expansão. Desde conquistas primordiais de movimentos identitários (como os de raça e os de gênero), até o aumento do poder aquisitivo de boa parte da população.

Uma breve rememoração das produções de nossa indústria cultural nos permitem perceber o abalo da estrutura Casa Grande & Senzala. Vide a produção incessante de personagens que encarnam domésticas “excessivas”, “abusadas”, que “incomodam demais” os seus patrões. Esse fenômeno aparentemente irrelevante liga a personagem Edileuza (Sai de Baixo, 1996) à Diarista (2004) e às personagens diaristas de Avenida Brasil (2012). No primeiro caso, temos a imagem mítica da diarista “assanhada”, vista pelo ponto de vista do sinhozinho (ali a classe média sucumbia e decaía); no segundo, temos uma diarista mais dona de seus desejos e afetos, em suma, uma diarista reconhecida como sujeito; no terceiro caso, diaristas em ascensão econômica e relativamente equiparadas às outras personagens em matéria de seus próprios desejos e papel de sujeito (ali a classe média ganhava novo batalhão, e crescia).

Ao mesmo tempo, um “clube” de socialight’s, formado a partir da “elite” do sudeste, organizava um movimento de “proteção” contra a “ameaça” de diaristas que conquistavam direitos trabalhistas e maior autonomia. O caso das diaristas é importante porque mexe especialmente com essa continuidade da figura mucama que sustenta boa parte do modo de vida de nossa burguesia mais aristocrática, herdeira dos produtores de cana e de café. Paralelamente ao clube patético da highsociety, casos de vingança foram noticiados nos últimos cinco anos – lembre-se de que essa classe cada vez mais se empoderava enquanto a aristocracia regurgitava a perda de privilégios transformada em ressentimento) – tendo como expoente a diarista Deusamar de Jesus, acusada de envenenar a patroa Sheila Gama, fazendo poses de vitória diante das câmeras dos jornalistas incrédulos.

Falamos aqui de casos extremos, mas é notório o crescimento do discurso reativo burguês diante da perda de privilégios. Neste contexto, esse discurso é interpretado como ódio. Proponho aqui que o que essa burguesia sente não é ódio, pois não atentam enfurecidamente contra tudo. Suas atitudes não se comparam àquela cegueira que os gregos atribuíam à perseguição das fúrias sobre Orestes. É um ressentimento, daquele que Nietzsche classificou um dia como o mais autêntico sentimento dos fracos.

Uma pessoa “autenticamente má” não é uma pessoa egoísta. A psicanálise revelou que o egoísta está preocupado demais consigo mesmo para se preocupar com os outros. A pessoa autenticamente má está preocupada demais com a vida dos outros; e nisso reside a falta de amor próprio, que não falta ao egoísta. É da falta de amor próprio que nasce o ressentimento. Ele devolve o sujeito a ele mesmo, diante do deserto da insignificância de suas experiências. Então se sustenta uma fantasia onde o Outro, e principalmente o gozo do Outro, é causa do infortúnio e da impotência pessoais.

Diversos processos que tiveram palco na era Lula, ao interferirem em nossa estrutura de Casa Grande & Senzala, abalaram com alguma força os alicerces dessa construção, fazendo com que a burguesia “aristocrática” mirasse enfim o deserto de suas experiências.

O ódio só pode surgir verdadeiramente naquele que é injustiçado, pois ele é carregado de espírito de vingança. Nas teses sobre o conceito de história, Walter Benjamin disse que a falha da social democracia alemã foi a de tentar “atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras.” Com isso, a classe teria sido privada de algo essencial para a transformação social: “A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados.”

Não é injustiça que sente o sinhozinho que perde de seu alcance o objeto de desejo, a mucama. É claro que isso é uma alegoria para um movimento muito mais amplo, que envolve processos realmente capitalistas: o capitalismo brasileiro estava alicerçado sobre bases de nosso antigo modo de produção escravista, uma barreira para a ideologia desenvolvimentista, bancado também pelo PT, em um modelo econômico que remonta à fundação do BNDES. É por isso que, mesmo com um projeto econômico alinhado à direita, beneficiando o capital financeiro e mantendo a luta de classes moderada por um reformismo refinado, como denunciado por parte das esquerdas, o Partido dos Trabalhadores conseguiu incomodar a burguesia, uma classe que aprendeu a viver como vivia o senhor de escravos.

“O meu ódio é o melhor de mim”

Satan de G. Doré

A experiência do ódio está reservada não àquele que perde o objeto sobre o qual forjou a ilusão de sua fonte de desejo, mas àquele que tem a sua própria atividade vital espoliada. Não é de menor importância o fato de que que muitos poetas perceberam a proximidade entre o amor e o ódio – os dois sentimentos que podem fazer brotar um mundo novo, por excelência -, mas nunca entre o amor e o ressentimento. Mesmo o Deus cristão – nossa referência um pouco incontornável da ideia de “amor” e da ideia de “criação” – soube odiar. E Drummond, o poeta que se perguntou “Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?”, afirmou: “o meu ódio é o melhor de mim”. O ódio se fermenta, e, diante do ressentimento burguês, dá as suas caras: ele marca presença em nossa poesia contemporânea (o cão de Sterzi, o desvario de Ademir Assumpção, a terra arrasada de Nuno Ramos), na nossa produção musical (cujo documento mais importante atualmente é o disco Encarnado, de Juçara Marçal), e ainda em nossa produção cinematográfica (vide o cinema pernambucano). Toda essa escola adquire agora o ódio que havia sido reservado à periferia urbana nos anos 1990, principalmente em torno do Rap. O grupo Racionais é talvez o guardião dessa escola. “O ódio come o medo.” Está mais ligado ao sentimento de justiça do que à aniquilação do outro. O ódio é Antígona. Ou o Satã do Paraíso Perdido de Milton. Ódio é vingar; ressentimento é aniquilação do outro. É quando você não suporta que o outro possa, ou goze. Tanto o ressentimento de classe quanto o ódio de classe de que falamos aqui – mapeáveis em nossas manifestações artísticas mais recentes, cujas infames novelas da Globo constituem importantes testemunhas – têm origem no fim da monotonia na luta de classes, quando um operário chegou à presidência [2].

Apêndice: Não vá se perder por ai, Zacca ou Ivan Martins pondera quanto aos abalos na casa-grande

“Tenho, porém, como outros, uma discordância sobre o sentido geral da era lulista. Me parece que você pensa o período como um no qual ocorreu uma modernização substancial. Não vejo muito isso. Acho que houve sim um ensaio de inclusão de muita, muita gente, acesso a certos bens e serviços e especialmente ao ensino superior, com a promessa então da abertura de possibilidades para milhões de escaparem eles mesmos ou seus filhos do trabalho desqualificado (ou pelo menos do trabalho manual). Isto se assentou sim em parte em políticas do PT, de expansão do crédito (como o FIES, aliás), de renda mínima, de valorização do salário mínimo, de expansão do ensino universitário (especialmente o privado). Mas acho que isso não chegou a passar de um ensaio, que durou o quê, uns seis anos? Foi fundado no crescimento econômico, não se enraízou, e principalmente porque o PT não buscou em nenhum momento romper com um fundamento crucial da sociedade brasileira, que é o trabalho extremamente barato. E sem romper com o trabalho barato (e de baixa produtividade, consequentemente) eu acho que as demarcações sociais e culturais da Casa Grande & Senzala vão sempre se reconstituir.” (Ivan Martins)

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[1] O fatídico 20 de junho pode ser considerado o marco dessa tentativa – tentativa porque, de fato, Junho pôs em movimento forças de todo aspecto político, e alimentou também as lutas da esquerda. Marco Pestana me recorda das greves dos professores, dos garis e dos rodoviários enquanto “herdeiras” de junho.

[2] Wesley Carvalho me fez a seguinte objeção: “Uma classe média pode até pensar (e em alguma medida pensa) que um operário chegou à presidência. Mas é importante não tomá-lo como certo e fazer a diferenciação entre o que a classe média (ou a direita) pensa e o que de fato é. Quem chegou à presidência foi o líder de um aparelho partidário e burocrático já há muito voltado para o capital, não só ideológica mas materialmente: veja-se por exemplo a ligação da burocracia sindical petista com o capital financeiro (há uma artigo sobre isso no blog junho, além do clássico artigo do Francisco de Oliveira, o momento Lenin). O Lula já estava em 2002 muito distante do operário que fora.”

Sobre Rafael Zacca

Poeta e crítico literário, cursou a graduação em História e o mestrado em Filosofia na Universidade Federal Fluminense. É membro do corpo editorial da Revista Chão, onde mantém a coluna Sucesso de Sebo. Integra, no Rio de Janeiro, a Oficina Experimental de Poesia.
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2 respostas para ÓDIO E RESSENTIMENTO DE CLASSE NO BRASIL HOJE

  1. Eu realmente não vi essa repressão tão grande…Talvez em extensão dada a dimensão espacial dos movimentos. No início em São Paulo, foi realmente brutal, mas isso serviu mais de combustível para impulsionar as manifestações. Após isso, aconteceram casos de brutalidade policial isolados. Afora isso, o que se viu foi a completa cobertura do Ministério Público para as manifestações em associação com a Anistia Internacional. Aliás, nunca tinha visto se aplicarem tantas salvaguardas visando garantir a integridade física de manifestantes. A Anistia Internacional chegou mesmo a propor uma série de medidas que praticamente impediam o estado de reprimir qualquer movimento. Não que eu defenda a repressão estatal, muito pelo contrário, Nisso tudo o que mais me incomodou foi a inédita preocupação seletiva em garantir a integridade dos manifestantes, A propósito, quantas foram as vítimas fatais dos movimentos de 2013? Morreu mais gente em Corumbiara do que o somatório de todas as manifestações de 2013. E não só isso. Em muitas delas verificou-se número superior de feridos do lado da policia. do que dos manifestantes,Quanto a prisões, não falo de detenções, revelaram-se ínfimas, havendo um caso de condenação de um rapaz preto e pobre, por conta de algumas garrafas de detergente que carregava serem confundidas com coquetel molotov. Há também o caso dos bodes expiatórios envolvidos na morte do cinegrafista da Band e um caso de prisão de um grupo de jovens, incluindo a famosa Sininho, que foi liberado pouco tempo depois.
    ABAIXO A REPRESSÃO SEMPRE!

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