A reinvenção do trabalhismo inglês

Em maio deste ano, as eleições no Reino Unido resultaram em uma grande guinada à direita. O partido conservador (chamado também de tory) conseguiu eleger 331 membros (de um total de 650) para a Câmara dos Comuns do Parlamento. Este resultado garante que este partido conseguirá passar boa parte de seus projetos sem precisar fazer alianças com os demais partidos. Como consequência direta das eleições, os líderes dos outros grandes partidos renunciaram às suas posições, como é comum em regimes parlamentaristas.  No caso do segundo maior partido, o Trabalhista (Labour), a saída do ex-líder Ed Miliband foi anunciada com um objetivo claro: a reconstrução do partido com uma nova liderança.

Resultado das eleições de 2015. O azul representa as localidades vencidas pelo partido conservador; a vermelha, pelo trabalhista; a amarela pelo partio nacional escocês. Para melhor detalhamento dos resultados, clicar aqui.

Resultado das eleições de 2015. O azul representa as localidades vencidas pelo partido conservador; a vermelha, pelo trabalhista; a amarela pelo partio nacional escocês. Para melhor detalhamento dos resultados, clicar aqui.

Entre 1994 e o início dos anos 2000 o partido trabalhista mudou sua estratégia política. A ressaca do fim da União Soviética se expressava no interior do partido, principalmente na formação do grupo New Labour, New Life for Britain (‘Novo Trabalhismo, Nova Vida para o Reino Unido’, em tradução livre). Este grupo assumiu explicitamente sua posição como Terceira Via, chegando a alterar a “Cláusula IV” da constituição do partido. Esta cláusula foi adotada em 1918, e deixava claro que o partido lutaria para construir uma nova sociedade, mais igualitária e que, para isso, sua base estaria na “propriedade coletiva dos meios de produção, circulação e de troca”. A alteração proposta pelo New Labour (e adotada pelo partido) retirava as referências à nacionalização de recursos e empresas, assumia a posição do partido enquanto “socialista-democrático”, e usava conceitos amplos e genéricos (sem qualificá-los) como “solidariedade”, “tolerância” e “respeito”.

Além da alteração desta cláusula, o partido também assumiu claramente a defesa da economia de mercado. Nas eleições gerais de 1997 o partido trabalhista conseguiu a maior vitoria de sua história, com 418 membros eleitos para o parlamento. Esta vitória, contudo, não pode ser encarada apenas como efeito destas mudanças de paradigmas de forma isolada. Outros fatores relevantes foram: o desgaste pelos 18 anos seguidos de governos dos Conservadores, a desunião dos tories sobre a questão União Européia e a memória da Quarta-Feira Negra (Black Wednesday), de 1992.

O movimento

O movimento “New Labour”, nos anos 90. Tony Blair é o segundo da direita pra esquerda.

Nos primeiros anos em que Blair foi o Primeiro Ministro, foram aprovadas leis prometidas há muito, como: Salário Mínimo Nacional, Os Atos de Direitos Humanos e de Liberdade de Informação, a descentralização do poder Inglês no Reino Unido, com mais autonomia para Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. Ao mesmo tempo, cediam a alguns projetos dos Conservadores, como a inclusão de taxas nas universidades (deixando de ser gratuitas) e parcerias público-privadas que faziam o governo alugar a infraestrutura de escolas e hospitais de empresas, ao invés de construi-las.

A orientação do partido e o cenário alinhou-se ainda mais à direita a partir do 11 de setembro. No âmbito internacional, o partido trabalhista apoiava a Guerra ao Terror de Bush, enviando tropas e recursos ao Afeganistão e, posteriormente, ao Iraque. No âmbito doméstico, o Primeiro Ministro assumiu em sua auto-biografia lamentar ter aprovado o direito à Liberdade de informação, assim como agiu para tentar alterar a própria legislação envolvendo Direitos Humanos (após um sequestro de avião que se endereçava à Bretanha). Apesar do desgaste, o partido trabalhista elegeu Gordon Brown como successor de Blair, embora com um parlamento no qual o partido trabalhista não possuía uma expressao tão significativa.

Tony Blair e George W. Bush apertam as mãos após a coletiva de imprensa dada no Salao Leste da Casa Branca em 12 de Novembro de 2004.

Tony Blair e George W. Bush apertam as mãos após a coletiva de imprensa dada no Salao Leste da Casa Branca em 12 de Novembro de 2004.

Com as sucessivas (e progressivas) vitórias dos partido conservador (em 2010 e 2015), o partido trabalhista (finalmente) percebeu a necessidade de se reformular. A figura que poderia representar esta reformulação seria a de Jeremy Corbyn. Corbyn sempre se manteve à esquerda dentro do partido. Entre as campanhas e questões nas quais se envolveu estão a luta contra o Apartheid; a tentativa de levar Pinochet a julgamento; a luta pelo reconhecimento de direitos LGBT; o apoio à greve dos mineiros contra o governo Tatcher; a oposição às taxas escolares para as universidades; as problemáticas parcerias público-privadas do governo New Labour; a defesa dos direitos dos Palestinos; a nacionalização da malha férrea (de trens) britânica; a crítica ao programa de armas nucleares britânico; a campanha anti-austeridade; entre outras.

Jeremy Corbyn sendo preso em manifestação anti-apartheid.

Jeremy Corbyn sendo preso em manifestação anti-apartheid.

A defesa destas questões não se limitam ao passado, mas se mantém até hoje (com poucas mudanças). Com esta plataforma, considerada uma das mais de esquerda e “anti-establishment” da história, Corbyn foi eleito recentemente o novo líder do partido trabalhista. A campanha de difamação teve início instantâneo, e no dia seguinte à eleição de Corbyn o atual Primeiro Ministro (David Cameron, do Conservador) qualificou o partido Trabalhista como “ameaça para a segurança nacional”. Da mesma forma, nas redes sociais foram lançados vídeos que fazem montagens com falas de Corbyn sem contexto ou claramente editadas, dando a entender que o líder do partido apoiaria terroristas. E, naturalmente, como incitador de baderna e violência por apoiar protestos.

Movimento anti ataques israelenses em Gaza, no verão de 2014.

Movimento anti ataques israelenses em Gaza, no verão de 2014.

A questão é que Corbyn não é visto como viável eleitoralmente mesmo por grande parte do seu partido. A aposta parece ser que uma pessoa que tem uma imagem pública praticamente inatacável e, portanto, vista como um “herói do povo”. Uma pessoa  que não se dobra ao poder e ao capital, com capacidade de mobilizar pessoas para discussões, mesmo as que acontecem dentro dos partidos politicos. E a julgar pelo resultado da discussão e reconstrução do partido trabalhista depois das eleições gerais até hoje, o julgamento parece estar correto. Neste tempo, mais pessoas aderiram ao Partido Trabalhista do que o total de membros do partido conservador. O partido trabalhista também está preocupado em gerar discussões e integrações destes novos membros ao próprio partido ou, pelo menos,  aos seus movimentos de base. A intenção parece ser apostar no fortalecimento desses movimentos, evitando a luta pela via institucional apenas, ou uma “empolgação momentânea”. Este movimento de capilarização das discussões, mobilizações e atos foi batizado de Momentum. O objetivo último, segundo os organizadores, é transformar a idéia de democracia, transformando-a em algo menos representativa e mais participativo.

Não há, contudo, consenso a respeito do programa representado por Corbyn nem mesmo no partido trabalhista e nos setores à esquerda. O New Labour identifica o programa politico como ingênuo, chamando ele de política para o País das Maravilhas (Wonderland). Da mesma forma, setores mais à esquerda fazem críticas ao programa de política econômica, apontando que apenas o combate à austeridade não é suficiente.

Manifestação anti-austeridade em 20/06/15. Com participação estimada de 250 mil pessoas, pode ser vista aqui.

Manifestação anti-austeridade em 20/06/15. Com participação estimada pelos organizadores de 250 mil pessoas, pode ser vista aqui.

A chegada de Corbyn à liderança representa uma mudança no partido trabalhista não apenas no que diz repeito ao seu programa institucional, mas aparenemtente também em uma busca por uma outra forma de fazer política. Mais capilarizada, esta forma tenta aumentar a participação da sociedade civil, ao mesmo tempo que tenta construir uma forma política mais “de baixo para cima”. O interessante deste novo cenário é que o partido não está buscando sucesso institucional, “elegibilidade”, mas a ampliação do que é a política. Mesmo com os limites que uma política baseada em partidos reconhecidos institucionalmente impõe, é uma fórmula que aposta na ampliação das discussões e aprofundamentos das mesmas. Em tempos de redução da política a memes, a frases de efeito e humor silenciador, é um alento observar um desenvolvimento e uma aposta política que vai na direção oposta.

Sobre Renato Silva

nao fica ninguem. Professor de Historia, Flamenguista e suburbano.
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Uma resposta para A reinvenção do trabalhismo inglês

  1. E uma Democratic unionist party forte e eleita na Irlanda do Norte. um cenário tenso. Ainda temos um SNP escocês batendo de frente ali,mas não é garantia de nada também e o tabuleiro conservador está armado.

Comentários

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