3 olhares sobre o filme “Que horas ela volta?”

Cartaz do filme "Que horas ela volta?"

Cartaz do filme “Que horas ela volta?”

Este post é fruto de debates entre os membros do Coletivo do Blog Capitalismo em Desencanto sobre o filme “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert. Ansiosos por amplificar esses debates, colocando nossas ideias para circularem de forma mais livre, mas também conhecendo as impressões de outros espectadores do filme, apresentamos três curtos textos cujo objetivo principal é que funcionem como pontapé inicial de mais discussões. Assim, longe de esgotarem as questões que emergem do filme, os textos (escritos por três membros do Coletivo do Blog), propõem distintas chaves de leitura na expectativa de abrir o caminho para novas e profícuas intervenções nos comentários, em futuros posts, ou mesmo em outros espaços.

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DENTRO E FORA DA “ERA LULA”, por Wesley Rodrigues

Tem se procurado entender o “Que horas ela volta?”, como não poderia deixar de ser, em referência ao construído nos últimos anos de governos petistas. É interessante, contudo, que no filme estejam ausentes algumas especificidades desse momento.

Em relação às empregadas domésticas, há dois aspectos importantes nessa “Era Lula”: 1) um aumento de direitos trabalhistas, o que gerou perturbação material para os patrões; 2) e no nível da cultura e do simbólico, ficou patente uma maior indisposição à subserviência (empregados que não aceitam qualquer serviço, qualquer patrão, tem mais orgulho, etc.), o que gerou surtos aristocráticos de vários tipos. Não aparecem no filme nenhuma dessas duas coisas que são novidades dos últimos anos e que são a parte mais aparente do conflito entre patrões e empregados domésticos hoje. É bem verdade que, em relação ao ponto 2, a figura da filha, Jéssica, desestabiliza a ordem simbólica, mas isso não é representativo do momento atual por não partir da própria empregada.

Outro ponto central do enredo, a entrada de Jéssica na universidade, também não guarda relação com a política educacional do governo federal nos últimos anos. Em linhas gerais, o PT promoveu cotas raciais e para egressos de escola pública; e comprou vagas para pobres em universidades de má qualidade. A Jéssica tem uma trajetória atípica: é uma nordestina pobre que, pelo seu esforço e tenacidade, está em vias de entrar na USP. O que sabemos de sua formação é apenas que teve um professor de história politizado e que estudou em uma escola particular que cabia no dinheiro enviado pela mãe empregada. Então, quando ela passa pra USP, é uma surpresa para o espectador porque ela não faz parte da inclusão que o PT tornou comum (é uma surpresa também porque o filme não deixa a gente saber que ela estava bem preparada para a prova), já que os últimos governos estiveram longe de produzir uma educação básica que desse a nordestinos filhos de empregadas a chance de competir com os filhos do Morumbi. Quando souberam do sucesso da Jéssica, a família (e os espectadores) não pensou “o governo colocou ela pra dentro”, e sim “não sabia que a Jéssica era capaz”.

Contornando esses elementos mais característicos desses últimos anos (muito embora, é claro, não deixe de guardar relação com eles), “Que horas ela volta?” é um filme que poderia retratar quaisquer das últimas décadas brasileiras, bem como poderia ser rodado em qualquer momento desse período. Seu alvo é uma forma de relação entre patrões e empregados, que remete inclusive à época da escravidão, quando a agressividade e os bons sentimentos já eram elementos da peculiar estrutura de dominação.

Qual seria o significado da ausência dessas marcas ligadas mais diretamente aos governos petistas? Seja como for, é notável que o filme restringe sua crítica a uma forma arcaica de dominação, enquanto deixa de enfrentar as mais atuais configurações da exploração e da vida das empregadas domésticas. Não penso que o filme esteja de todo atrasado, dada a persistência e o terrível peso que ainda faz essa forma “patriarcal” de relação, tão bem exposta e condenada na trama. No entanto, nos falta agora ver retratados os limites das expectativas petistas, talvez com um filme que nos revele o conflito entre patrões de boa consciência moderna (e até progressistas!) que tenham como sua empregada certamente não alguém tão fácil quanto a Val.

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FICÇÃO, PACTO SOCIAL E CONFLITO, por Ivan Martins

O passado e o futuro de uma classe? Mas vistos por quem?

O passado e o futuro de uma classe? Mas vistos por quem?

O filme Que horas ela volta? repercute de forma tão intensa porque toca não só numa antiga questão social brasileira, mas também num dos pontos em que mais foram sentidos os impactos sobre as vidas cotidianas e o imaginário social dos anos de governo do PT, a relação entre empregadas(os) e patrões na vida doméstica.

Entretanto, também é central o modo pelo qual a cineasta conseguiu fazer reverberar esse ponto sensível com as narrativas que buscaram identificar o seu sentido. Que horas ela volta?, no momento em que a empreitada petista ameaça naufragar, traz à tona o discurso lulista de uma emergência do bem-estar popular que se faz sentir nos cotidianos conflituosos de uma sociedade extremamente desigual.

A jornada de Val

Val, empregada doméstica em São Paulo, imigrante nordestina, representa milhões de mulheres pobres com histórias de vida semelhantes. Esse reconhecimento se estende às relações de Val com a família que a emprega, na longa série de situações em que demarcações sociais assinalam a subalternidade da empregada. Na ficção, o caráter patriarcal do trabalho doméstico se revela com clareza, sem deixar de mostrar seus aspectos contraditórios, a capa afetiva que embala a violência simbólica e a segregação. O filme, assim, permite que o espectador empatize com Val, e, para aqueles que se reconhecem na personagem, permite uma recuperação de orgulho e tomada de consciência.

A desnaturalização da subalternidade de Val acontece a partir da chegada de sua filha, Jéssica, imigrante de outro tipo, em busca de uma vida profissional através da universidade. Jéssica, confiante em seus méritos pessoais, não se vê nem aceita ser vista como subalterna. O que explica a diferença subjetiva entre as duas migrantes? Para o filme, um país no qual o horizonte de possibilidades para os mais pobres parece ter se ampliado muito.

Assim, de certa maneira, Jéssica representa uma mudança já anunciada. Já Val se encontra na encruzilhada do presente de uma classe que vê a possibilidade e as dificuldades de superar uma subalternidade patriarcalizada. Entretanto, quem é essa pessoa que precisa dar esse passo?

Neste ponto o filme esbarra num problema central. Val, sua protagonista, não é construída como um sujeito concreto. Ela é um estereótipo em dois tempos: é, a princípio, a empregada imersa num sistema de relações pessoalizadas de exploração, e depois é aquela que não mais se submete. Há elementos mínimos que permitem a personagem ter um arco subjetivo, mas falta concretude e complexidade.

A quem o filme é endereçado?

Essa superficialidade na caracterização da protagonista tem a ver com o endereçamento, intencional ou não, do filme. O empoderamento popular é visto, não por acaso, no espaço doméstico, onde o encontro entre patrões e empregados é pessoalizado e os modos pessoais de comportamento são problematizados. A casa do Morumbi encarna assim uma passagem de modelo, em que o padrão de relações entre as classes sociais estaria se modificando. Tal mudança como disse Paulo Gajanigo, tem a forma de uma repactuação, cuja forma subjetiva é um entendimento de que o país passa por uma modernização e que precisamos deixar pra trás formas arcaicas (especialmente, o trabalho doméstico).

Mas quem tem que chegar a esse entendimento? Não são aquelas pessoas que poderiam se identificar com Val, ou com Jéssica. A estas, tal discurso pode convencer pelos ganhos objetivos e subjetivos que promete, ou pode ser tomado com ceticismo. Mas para um grupo esse entendimento corresponde a uma conversão subjetiva, uma compreensão de que nesta mudança a perda num aspecto corresponde a um ganho em outro. Este grupo é uma certa classe média esclarecida, que aceita que a modernização é deixar pra trás as relações patriarcalizadas de exploração. E que aceita uma nova normalização das relações, por ser um empoderamento dos subalternos. Desta forma, o que se perde é o que não se deveria ter (com o ganho subjetivo de se ver como magnânimo). No fundo, a identificação mais forte que o filme permite é com o patrão, embora não com o estilo daqueles patrões (que não são esclarecidos – e nem propriamente de classe média).

No filme, o arcaico se está deixando para trás, porque novas oportunidades estão se abrindo. Nesse sentido, aponta pra uma repactuação e se torna, ainda que um tanto anacronicamente, um veículo poderoso do discurso petista. Dá visibilidade a aspectos reais do conflito social, mas ao mesmo tempo trabalha ativamente pra conformar as expectativas dos subalternos a limites de uma perfeita normalidade de mercado.

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A CRÔNICA DO TEMPO QUE NÃO PASSA, por Marco Pestana

A despeito de efetivamente chegar ou não a disputar o Oscar, o filme Que horas ela volta?, de Anna Muylaert, já alcançou o status de incontornável crônica de nosso tempo em terras brasileiras. E, sendo a crônica um gênero meio híbrido, inegavelmente ficional, mas com um inescapável pé na realidade a ela contemporânea, cabe a pergunta: que imagem de nosso tempo é construída pelo filme?

Trata-se, a meu ver, da imagem de um tempo que se transforma pelo caminhar rumo à superação, a um só tempo material e simbólica, da condição de subordinação absoluta de parcela expressiva dos trabalhadores brasileiros. Não por acaso, o caminho trilhado pelas personagens Val e Jéssica é eivado de elementos marcantes do imaginário brasileiro dos últimos anos – ou seja, do nosso tempo –, com ênfase no encadeamento de quatro deles como forma de produzir essa superação: o trabalho árduo como condição para o financiamento do acesso da filha à escola particular, a possibilidade de entrada na universidade pública como base para a ruptura com a subordinação e a aquisição de uma passagem aérea como coroação simbólica do processo.

Os impotentes patrões Bárbara e Carlos

Os impotentes patrões Bárbara e Carlos

Não se trata, evidentemente, de negar o momento de verdade desse percurso individual, ou as possibilidades de empoderamento de agentes sociais subalternizados advindas da história de uma mulher nordestina e pobre que rompe com uma situação de subordinação draconiana a seus patrões. É preciso, entretanto, apontar que os fortes enquadramentos do filme, capazes, em seu imobilismo, de desvelar a realidade imediata da subordinação, não nos deixam entrever o quadro maior de nosso tempo, que ultrapassa os muros de uma determinada casa da elite paulistana. Nesse além-muros, encontramos classes dominantes que não são pura frustração e ressentimento (como, respectivamente, os patrões do filme, Carlos e Bárbara), mas articulam diuturnamente condições de recriação da subordinação em novos termos.

Infelizmente, essa dominação reorganizada não poderá ser enfrentada por uma mudança súbita, como a de Val, cuja passagem da subordinação à insubordinação não é tratada com a devida complexidade pelo filme, que se abstém de construir para sua protagonista um efetivo processo de questionamento da situação vivenciada. Pelo contrário, se alguma saída de longo prazo puder emergir do complexo de situações plasmado na tela, a melhor aposta seria, sem dúvida, insistir na paciente politização da solidariedade entre os subalternos, que se manifesta discretamente na cumplicidade entre Val e a faxineira Edna e no apoio do motorista Vandré à mudança de Val.

Sobre Tim Marx

Um espectro ronda a blogosfera – o espectro de um comunista barbudo com cabelo black power.
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Uma resposta para 3 olhares sobre o filme “Que horas ela volta?”

  1. Roberto Moll disse:

    Muito bom

Comentários

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