Quando a nossa presença é uma ameaça

Era uma tarde, com o céu claro. Saía da biblioteca da universidade em direção à academia. Para poupar uns minutinhos, peguei um beco, um filete de espaço entre o prédio da biblioteca e o prédio do curso de direito. Este espaço possui saídas da biblioteca, é monitorado por diversas câmeras (como é comum na Inglaterra), eventualmente passam rondas de seguranças (em horários propositadamente aleatórios), e no final dele está a cabine de segurança da universidade. Além disso, a polícia também faz rondas no quarteirão da universidade e por dentro dela; já a vi aparecendo de forma muito rápida em situações que precisavam dela. Por muito rápido quero dizer uns 2 ou 3 minutos. E, no estreito caminho, uma mulher. Que, percebendo minha presença, se vira para verificar. Aperta a bolsa contra si, o passo e não mais olha pra trás.

Este cenário se repetiu algumas vezes. A resposta automática para um homem é “Mas eu não fiz nada”. A chave para entender porque isso acontece é deixar o “eu” de lado. As frases automáticas de “Mas nem todos os homens!” e “Isso é uma generalização absurda!” têm embutidas as idéias de que você (homem) não é uma ameaça. Mas estas ideias, concentradas no “eu” estão enganadas. Se “nem todos os homens” dão cantadas ou utilizam outra forma de violência física ou simbólica contras as mulheres (uma afirmação muito questionável), praticamente todas as mulheres já sofreram com isto, como revelou a campanha #primeiroassédio. A ameaça de agressão para uma mulher não é uma possibilidade, mas uma realidade quotidiana.

É necessário pensar que, naquele momento, não é uma questão individualizada: eu, Renato, que por acaso estava no mesmo espaço que Ela. O que ocorreu naquele momento é algo mais complexo. Naquele momento, fui o representante de milhares de anos de misoginia e de dominação do masculino sobre o feminino; de centenas de anos de controle de espaços e de corpos femininos; das minhas poucas dezenas de anos de privilégios enquanto indivíduo identificado com o masculino. Ela foi a representante de todas que foram ignoradas, controladas, ameaçadas, silenciadas, envergonhadas, violentadas e expostas. É necessário reconhecer que naquele momento o tempo se dobra, e todos estes momentos, papéis e personagens convergem. É preciso ter esta consciência histórica.

Esta consciência é chave para entender o papel dos homens na luta pela igualdade de gêneros. Isso é necessário tanto em momentos específicos como estes como em momentos outros. Em casos como o relatado (que também poderia se dar em uma rua deserta a noite ou em um ônibus na madrugada ou outra situação parecida), deve-se reconhecer que a simples presença masculina é ameaçadora e opressiva, e para diminuir este impacto existem recomendações simples. Diminua o passo, atravesse a rua. Espere um pouco. Reconheça o espaço da mulher, mantenha distância e se possível aumente a distância entre você e ela. Não a encare ou olhe fixamente para ela. Muitas vezes pode surgir o ímpeto de falar algo que, na nossa cabeça, a deixaria menos preocupada, mas provavelmente estas recomendações serão mais eficientes do que falar diretamente com a mulher.

O tal beco entre a biblioteca e o predio de direito.

O tal beco entre a biblioteca e o predio de direito, com portas e janelas pelo caminho.

Esta recomendações são bem diretas e concretas, mas também podem ser levadas em conta em sentido metafórico. O respeito pelo espaço da mulher, o reconhecimento da presença masculina como potencial problema, e simplesmente se ausentar (e/ou calar) em muitos momentos podem ser a melhor forma de ser um aliado na luta por maior igualdade nas relações de gênero.

Sim, isso não é tão fácil para quem está assentado sobre esse privilégios seculares, e estas medidas geram muito incômodo em muitos momentos. Com muita frequência muitos homens que estão se empenhando quotidianamente em sua desconstrução se perguntam (ou a outras militantes feministas ou a outros homens que estão fazendo o mesmo exercício) como deveriam agir para ajudar em determinadas campanhas. Foi o caso da própria campanha do #primeiroassédio, na qual chegou a surgir diversas tentativas, incluindo sugestões de relatos do ponto de vista do assediadores. Esta última tentative me parece problemática, porque as atenções deveriam estar no acolhimento e carinho dispensado às asseiadas. Da mesma forma, isso também dividiria o foco sobre a questão, com o relato dos assédios do ponto de vista masculino podendo até ter mais visibildiade que os femininos, além de ser um fenômeno comum de apropriação do discurso da mulher e silenciamento. Algumas das campanhas ainda são acusadas de usarem o depoimento da autora livro que reúne os relatos do #primeiroassédio (e de outras mulheres) de forma leviana, colocando as mulheres em segundo plano. De certa forma, estas tentativas são uma espécia de “E nós, os homens?”, embora recheado de boas intenções.

Assumo sem qualquer problema o quanto é realmente incômoda a sensação de não fazer nada (muito embora esta sensação não seja exatamente verdade), mas um elemento fundamental pra quem quer construir uma sociedade mais igualitária é a auto-crítica. Se ela não for incômoda, doída, alguma coisa está se perdendo, e provavelmente ela não está sendo feito com a profundidade devida. Este incômodo é necessário.

Mas há coisas que os homens podem fazer para serem aliados na campanha pela igualdade de gênero. Um guia mais detalhado pode ser encontrado aqui. Mas é importante que a maior parte do empenho seja quotidiano e concentrado em alcançar outros homens. Não adianta distribuir “curtir” e “compartilhar” em postagens, blogs, matérias postadas pelas amigas e/ou conjugês sobre o tema e não falar nada com o amigo que continua repassando vídeos e fotos vazados da internet; ou continuar rindo das piadas machistas; ou dando tapas nas costas de agressores; ou rindo de cantadas; ou simplesmente não apoiar outro amigo que se coloca contra estes tipos de atitudes. Essa é outra dimensão na qual sua presença e silêncio voltam a ser problemas. É com a falta de ação nestes casos que nós, homens que apoiamos a luta por igualdade de genero, devíamos nos preocupar.

Sobre Renato Silva

nao fica ninguem. Professor de Historia, Flamenguista e suburbano.
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Uma resposta para Quando a nossa presença é uma ameaça

  1. paulo disse:

    Seu texto me fez pensar profundamente, muito obrigado Renato.

Comentários

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