O INCA escolheu lutar! Quando um depoimento pessoal vai de encontro a um histórico de embates da classe trabalhadora

Texto escrito por Ingrid da Silva Linhares, professora de História graduada pela Universidade Federal Fluminense.

Era o final do mês de setembro do ano de 2013. Entrávamos pela primeira vez naquele local que se tornaria uma espécie de extensão de nossa casa ao longo de dois anos. O motivo: meu pai havia sido diagnosticado com um tumor na região pélvica com grandes chances de estarmos lidando com o momento mais duro de nossas vidas. Precisávamos de ajuda, atenção e respostas e nos foi apresentado como solução o Instituto Nacional do Câncer (INCA). Começava naquele instante uma jornada valiosa para todos nós.

Chegar ao INCA, talvez tenha sido o menor dos problemas naquela época. Nossa maior preocupação seria saber se conseguiríamos entrar no atendimento do Hospital que hoje conta com uma fila de espera de no mínimo 90 dias. Não importa a sua situação. A quantidade de pessoas hoje que sofrem e não tem condição alguma ou pouquíssima possibilidade de realizar o tratamento contra o câncer é algo assustador. Se você não conta com alguém para te ajudar a entrar no Inca, se você não é filho, amigo, conhecido de qualquer um lá dentro a espera é inevitável. A maioria dos pretensos pacientes sucumbe na esperança de cura. Ainda não havia sido o nosso caso, pois em menos de 15 dias de tentativas fomos chamados pelo Hospital para a realização da triagem e apresentação do paciente.

Entrar no Instituto foi doloroso no primeiro instante, mas nada comparável ao que iríamos enfrentar ao longo de 2 anos e 9 dias de tratamento. Um cadastro inicial é realizado “normalmente” com mais de 6 horas de espera na fila da recepção. Ali todos os possíveis pacientes ficam frente a frente independente do problema que irá ser tratado. O mais surpreendente foi a estrutura a qual fomos apresentados, pois havia ali os melhores médicos/pesquisadores e tratamentos voltados para alguém com suspeitas de câncer. Um hospital público, federal, financiado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) funcionava no coração do centro do Rio de Janeiro com o que o Estado brasileiro tem de melhor: seus trabalhadores que transformaram o INCA em referência nacional.

Tivemos a chance de realizar desde pequenos exames a grandes intervenções cirúrgicas sem gastarmos um centavo sequer. Tudo parecia funcionar perfeitamente, com acesso total, gratuito e de qualidade para “os escolhidos” que conseguiam ultrapassar todas as barreiras burocráticas da saúde pública brasileira. Não havia lugar para todos que precisavam, o Instituto Nacional do Câncer começou a pedir socorro.

Veio a primeira cirurgia no dia 08 de janeiro de 2014. Fomos instalados nas enfermarias, pois lá não existem quartos particulares. Em sua maioria são dispostos 4 leitos por quarto com cadeiras para os acompanhantes. Uma junta médica passava todas as manhãs para falar com cada paciente analisando caso a caso. Estamos falando de um andar com cerca de 90 pacientes internados, dispondo de 1 nutricionista, 1 enfermeiro responsável pelo plantão e 1 técnico para cada 30 pacientes. Muitas vezes, para não dizer todas, tivemos que ajudá-los em procedimentos. Ser acompanhante era mais que estar perto de quem você amava, era se disponibilizar a ser um braço de técnicos e enfermeiros e o canal de comunicação quando passava algum médico.  Enxergávamos em cada um dos rostos dos servidores que entravam nas enfermarias a exaustão.

Um dos médicos que cuidou incansavelmente do nosso caso nos avisou que a greve estava para ser instaurada, pois não havia mais condições de aceitar o quadro cada vez mais agravado que vivia o Instituto. Os concursos realizados não eram contemplados, pois mais de um ano havia se passado e nenhum dos aprovados havia sido chamado para assumir sua vaga, a obra para a expansão do hospital era tocada minimamente e a carga de trabalho de concursados e terceirizados piorava a cada semana.

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“30 horas já!” Greve de 2014

O mesmo médico que nos antecipou a possível decisão dos servidores fez uma operação de emergência em meu pai no dia anterior à assembleia que votaria pela entrada na greve. O receio era de que cirurgias de menor porte não mais ocorressem no período caso a paralisação geral se confirmasse. Esse médico, residente em exercício no INCA, fez parte da então mencionada assembleia que deflagrou a greve. Uma das grandes pautas de defesa era por uma jornada de 30 horas semanais definidas em concurso para os servidores.  É sabido pela maioria dos profissionais da área que existem manifestos internacionais e nacionais redigidos por Conselhos e Conferências de Saúde reiterando a necessidade da redução das horas semanais de trabalho para profissionais de saúde e usuários dos serviços, por se tratar de trabalho extenuante com a vida e a morte humanas. Os trabalhadores do Instituto Nacional do Câncer então escolheram lutar pelos seus pacientes e pela sua história e foi a última alternativa encontrada pelo funcionalismo público como forma de reagir contra o arrocho salarial e contra a privatização do SUS.

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Convocação para novo ato em 27 e 28 de abril de 2014

Dali em diante a situação do hospital se tornou mais difícil. Como se não bastassem as circunstâncias a que estávamos sujeitos, começaram a faltar vários medicamentos, levando ao fechamento da Farmácia em função do déficit de farmacêuticos na Instituição, mas as primeiras denúncias só vieram a público em 2015. Faltavam condições básicas de trabalho que conviviam com um projeto de expansão gigantesca do Hospital. Do que se tratava isso tudo senão um sucateamento de recursos materiais e humanos arquitetado com o propósito de demonstrar a incompetência da gestão pública? 

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Imagem de convocação aos servidores contra o novo modelo de gestão – maio de 2014

Médicos chefes das equipes de oncologia, residentes, técnicos, instrumentadores, enfermeiros, servidores em geral foram para a porta do hospital. Lembro perfeitamente de me juntar a eles na primeira manifestação realizada em março de 2014. As cirurgias de menor risco foram adiadas, mas o atendimento continuava ativo. Se a greve não parasse o INCA, o Instituto seria paralisado pela falta de verba para mantê-lo em funcionamento. Ressurgia com força a adoção de uma espécie de Serviço Nacional de Oncoterapia do direito privado, projeto antigo de velhos gestores responsáveis pelo Hospital. A ideia era mudar para um novo modelo que dialogasse amplamente com o capital privado. Essa alternativa de gestão seria regida pela saída do INCA da administração direta e a adoção de um novo modelo, de cunho privatista, levando a uma mudança que implicaria, além de perdas salariais, na “elitização” do acesso da população aos serviços oferecidos pelo SUS.

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Ato em 11 de março de 2014 pela greve que havia sido instaurada – Avenida Chile

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Frente do Instituto em 20 de maio de 2014 – Manifestação em apoio à greve

Chegou o segundo semestre de 2014 e os servidores optaram pela saída dagreve após promessa da abertura de concursos com a possibilidade de adoção das 30 horas de jornada de trabalho dos servidores e a recuperação do Instituto. Um compromisso que viu a crise da saúde pública piorar quando do fechamento das contas do último trimestre de 2014. Não havia verba suficiente para compra de materiais primários no tratamento de pacientes e é nesse cenário que as eleições para nova diretoria administrativa da Associação dos Funcionários do INCA (AFINCA) para o biênio 2015-2017 são realizadas. Duas chapas concorriam ao pleito e já no início de 2015 lembro bem de nós, meus pais e eu, ostentando os adesivos e o jornal de circulação sobre a chapa “Dignidade e Luta” que contava com o apoio do sindicato. Essa mesma chapa, a qual nós promovemos o nosso apoio, era a de oposição a até então diretoria que se mantinha no poder dentro do Instituto. E, mais uma vez, ela perdeu para a chapa que perpetuava os desmandos de uma lógica privatista dentro do Inca.

Logo após as eleições, mais uma denúncia! A operação “Lava Jato” chega ao INCA. As obras de expansão do Hospital – o “Incão” como é conhecido entre os funcionários – foram paralisadas completamente por conta da construtora Schahin Engenharia se tornar suspeita de participar do cartel que superfaturava obras para a Petrobras. Quando nós achávamos que não poderia piorar entrou em cena a figura de Luiz Antônio Santini, então diretor-geral do Instituto, que admitiu pela primeira vez em público que o ajuste orçamentário ao final do ano anterior havia impactado o sistema de compras de dezenas de itens básicos dos quais o INCA dependia. Agravava-se ainda mais a crise levando à queda de Santini da diretoria-geral do Instituto Nacional do Câncer. Vários atos passam a ser organizados pelos servidores que iam às ruas lutar contra a lógica de sucateamento do Hospital e a privatização como solução.

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Saía do então diretor do INCA, Luiz Antonio Satini – maio de 2015

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Ato Nacional – 23 de setembro de 2015

Os meses passaram, as paralisações prosseguiam e a dificuldade em conseguir os remédios e as bolsas de colostomia que meu pai precisava para continuar vivendo permaneciam. Em meio a todo esse furacão o vi começar perder as forças, pois o câncer crescia de maneira agressiva. O mês de setembro chegou e culminou com uma semana de luta por melhores condições de trabalho em todo o país. No dia 23 de setembro funcionários da Rede Hospitalar Federal e pacientes do INCA se reuniram na Praça da Cruz Vermelha para protestar contra os desmandos do governo federal que penalizavam os usuários do SUS na mesma medida em que desvalorizava os servidores públicos. No dia 26 de setembro entrei pela última vez no Hospital ao lado do meu pai. Ele faleceu apenas dez minutos depois de ser internado, lutando muito e agradecendo por ter tido a oportunidade de ter conhecido o Instituto. Nós sabemos que graças ao INCA meu pai teve a oportunidade de passar mais tempo ao nosso lado. Nós acreditamos juntos até o último instante e hoje eu carrego uma gratidão eterna por cada um dos servidores, terceirizados e voluntários que passaram por nossa vida nos 2 anos e 9 dias em que fomos acolhidos.

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Foto feita pela autora em 24 de setembro de 2015 na entrada do Hospital

Em 15 de outubro de 2015, eu entrei pela última vez de maneira oficial no Instituto, pois todo o paciente que deixa remédios, materiais de higiene e bolsas de colostomia sem usar deve devolvê-los. Saí com o peito dilacerado, mas com a certeza de que minha história com aquele Hospital não acabaria ali. E não terminou!

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