Breve apresentação de Walter Benjamin

APOCALIPSE OU CIDADE DE DEUS NA TERRA DA TECNOLOGIA

INSTA. “Só a fotografia revela o inconsciente ótico, como só a psicanálise revela o inconsciente pulsional. (...) A fotografia revela... os aspectos fisionômicos, mundos de imagens habitando as coisas mais minúsculas, suficientemente ocultas e significativas para encontrarem um refúgio nos sonhos diurnos, e que agora, tornando-se grandes e formuláveis, mostram que a diferença entre a técnica e a magia é uma variável totalmente histórica.” Em “Breve história da fotografia”, OE1, pp. 94-95.

INSTA. “Só a fotografia revela o inconsciente ótico, como só a psicanálise revela o inconsciente pulsional. (…) A fotografia revela… os aspectos fisionômicos, mundos de imagens habitando as coisas mais minúsculas, suficientemente ocultas e significativas para encontrarem um refúgio nos sonhos diurnos, e que agora, tornando-se grandes e formuláveis, mostram que a diferença entre a técnica e a magia é uma variável totalmente histórica.” Em “Breve história da fotografia”, OE1, pp. 94-95.

A geração que conheceu o início e a ascensão vertiginosa da internet participou do debate, polarizado em duas vertentes extremas, entre os detratores da rede mundial de computadores (que a acusavam de tornar o ser humano cada vez menos que um objeto, um simples invólucro, sem conteúdo algum) e os seus apologistas (que saudavam a novidade como a última chave que libertaria os homens dos grilhões do tempo e do espaço). Enquanto o debate acerca da internet permanece entre esses dois polos ele é incapaz de produzir conhecimento que nos sirva à vida; mas existiria um modo de lidar com um fenômeno social radicalmente novo, encarnado em uma novidade tecnológica, ou coisa que o valha, que conseguiria transcender a mera disputa por sua permanência ou dissolução?

Certa vez, ao discorrer a respeito das tecnologias do mundo moderno e da Indústria Cultural, o escritor Umberto Eco afirmou que havia dois tipos de pensadores: os “apocalípticos” e os “integrados”.[1] Aqueles que veem no mundo moderno uma constante ameaça, cujas inovações tecnológicas invocariam a imagem do fim dos tempos, foram classificados como apocalípticos, pois a única solução para estes seria a extinção da vida tal qual a conhecemos. Os que veem, no entanto, nesse mundo, apenas a imagem gloriosa do fim da luta humana pela emancipação, da vinda do reino da tão esperada felicidade, foram denominados integrados, pois estariam em tamanha concordância com a vida contemporânea, que não lhes restaria nenhum senso crítico com relação a ela, nenhum indício da vontade de mudança.

Walter Benjamin, o filósofo alemão que viveu durante a primeira metade do século XX, nos anos 1930, se dedicou a estudar toda a sorte de “novidades” tecnológicas criadas na modernidade – estudou principalmente as consequências das técnicas de reprodução, da fotografia, dos lampiões a gás, das vitrines das grandes galerias e das exposições universais (uma espécie de museu de novidades em moda no século XIX). Ao tentar compreendê-las, esteve inserido também neste conflito entre apocalípticos e integrados, e desde muito cedo tomou distância deles. Tendo feito parte da geração que conheceu a invenção do cinema, participou do mais feroz conflito em torno das técnicas de montagem e das salas escuras, e percebeu logo que a apologia e a acusação não eram capazes de compreender o que estava em jogo nessas invenções. Por isso se dedicou, em um de seus ensaios mais famosos, “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”[2], a compreender a que tipo de demanda social o cinema correspondia, e que imagens de futuro ele invocava.

MAX ERNST, ST. CECÍLIA. “Somente quando o corpo e o espaço de imagens se interpenetrarem, dentro dela, tão profundamente que todas as tensões revolucionárias se transformem em inervações do corpo coletivo, e todas as inervações do corpo coletivo se transformem em tensões revolucionárias; somente então terá a realidade conseguido superar-se, segundo a exigência do Manifesto comunista.” Em “O surrealismo”, OE1, p.35.

MAX ERNST, ST. CECÍLIA. “Somente quando o corpo e o espaço de imagens se interpenetrarem, dentro dela, tão profundamente que todas as tensões revolucionárias se transformem em inervações do corpo coletivo, e todas as inervações do corpo coletivo se transformem em tensões revolucionárias; somente então terá a realidade conseguido superar-se, segundo a exigência do Manifesto comunista.” Em “O surrealismo”, OE1, p.35.

Benjamin se considerava um “crítico”. O crítico, para ele, é aquele que penetra um conhecimento em seus mais extremos limites, em seus pontos críticos. Os pontos críticos do cinema, para Benjamin, não estariam localizados apenas em suas máquinas de captação de imagem, em suas técnicas de montagem e em suas formas de exibição; eles estariam no ponto que conectava as transformações na sensibilidade humana a todo esse aparato técnico. Certa vez, ao escrever sobre o surrealismo francês, Benjamin notou que “o crítico pode instalar nas correntes espirituais uma espécie de usina geradora quando elas atingem um declive suficientemente íngreme.”[3] Apenas ao compreender as “correntes espirituais” – isto é, os movimentos do espírito do tempo – poderia o crítico instalar nelas uma espécie de usina geradora. Geradora de que? Desde fins da década de 1920, Benjamin esteve comprometido com o materialismo histórico e com a utopia comunista. A usina que pretendia alimentar dizia respeito à felicidade coletiva de uma humanidade redimida – uma humanidade finalmente sem relações de dominação.

 *

ARTE E CONSTRUÇÃO HISTÓRICA PARA ALÉM DO JARDIM DO SABER

Walter Benjamin foi uma das vozes dissonantes de sua geração ao tentar – para além do elogio e da acusação – compreender as novas formas de seu tempo. Como crítico de arte, tentou extrair conhecimento das formas consideradas “degeneradas”. No expressionismo alemão, onde nazistas viam a deformação humana, e onde stalinistas viam uma degeneração pequeno-burguesa, Benjamin tentou mostrar a crise da linguagem por que passam épocas catastróficas (o expressionismo alemão surgiu no mesmo contexto que levou a humanidade à Primeira Guerra Mundial)[4]. Na fotografia, onde alguns viam uma nova forma de arte, e outros o fim da própria arte, Benjamin tentou vislumbrar as questões que a própria fotografia lançava aos conceitos de arte então vigentes[5]. Em figuras mais inusitadas, como em Charlie Chaplin ou mesmo na imagem polêmica de Mickey Mouse, Benjamin tentou ver a imagem do sonho coletivo a que correspondiam.[6]

Em sua obra, a arte não se restringe aos limites infecundos do gosto. Ao analisar uma forma artística, seu objetivo não era contribuir para determinado cânone ou destruir outro. Benjamin estava distante da lógica dos museus e dos manuais de arte, que limitam a sua ação a instruir o cidadão nas artes consideradas boas, e a afastá-lo das de baixa qualidade. Ao contrário, o filósofo estava empenhado na tarefa de transformar todas as formas em fontes de conhecimento. Penetrar em qualquer forma artística era penetrar fundo as “correntes espirituais” da época; criticar obras era fazer surgir imagens da história. A pergunta chave é: por que o filósofo estava tão interessado em fazer surgir estas “imagens da história”?

PINHEIRINHO / “Nunca é lícito a alguém firmar sua paz com a pobreza quando ela cai como uma sombra gigante sobre seu povo e sua casa. Ele deve, então, manter seus sentidos vigilantes para cada humilhação que lhes é infligida e mantê-los disciplinados até que seu sofrimento tenha trilhado, não mais a ladeirenta rua da amargura, mas o caminho ascensional da revolta.” Em Obras escolhidas Vol 2, Ed. Brasiliense, p. 20.

PINHEIRINHO / “Nunca é lícito a alguém firmar sua paz com a pobreza quando ela cai como uma sombra gigante sobre seu povo e sua casa. Ele deve, então, manter seus sentidos vigilantes para cada humilhação que lhes é infligida e mantê-los disciplinados até que seu sofrimento tenha trilhado, não mais a ladeirenta rua da amargura, mas o caminho ascensional da revolta.” Em Obras escolhidas Vol 2, Ed. Brasiliense, p. 20.

O último documento que Walter Benjamin nos legou, as suas famosas teses “Sobre o conceito de história”, escritas no ano de seu suicídio (Benjamin se matou em Portbou, quando fugia pelos Pirineus, pelo medo da informação – aparentemente falsa – de que seria entregue à Guestapo), 1940, levam na letra a afirmação de que “a imagem da felicidade que cultivamos está inteiramente tingida pelo tempo a que, uma vez por todas, nos remeteu o decurso de nossa existência.”[7] A felicidade coletiva foi a grande preocupação de Benjamin. Considerava, nas referidas teses, que essa felicidade dependia de uma espécie de força messiânica que nos teria sido legada pelo passado. O estudo da história seria o estudo de “um índice secreto pelo qual o passado é remetido à redenção”: existiria um “encontro secreto”, “marcado entre as gerações passadas e a nossa.” Teríamos sido “esperados sobre a terra”[8].

Desde o século XIX, o auge do capitalismo, a ideologia do progresso ganhou força e contribuiu para uma concepção histórica que compreende o passado como um acúmulo de fatos em uma única linha do tempo, uma cadeia de eventos que Benjamin chamou de “homogênea e vazia”. Ela justifica todas as guerras, todos os infortúnios e todos os projetos de felicidade fracassados em uma coerente explicação de sua necessidade para se atingir um estado “aceitável” de humanidade. Acredita-se com isso que os fins justificam os meios. Seu sustentáculo é uma concepção de história que compreende todos os eventos da humanidade como uma linha cronológica ascendente que leva o homem de um período de barbárie, ou animalidade, para um nível civilizado, ou humano, de maneira progressiva.

FAVELA DA TELERJ. “Articular o passado historicamente não significa conhece-lo ‘tal como ele propriamente foi’. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo. (...) O perigo ameaça tanto o conteúdo dado da tradição quanto os seus destinatários. Para ambos o perigo é único e o mesmo: deixar-se transformar em instrumento da classe dominante.”

FAVELA DA TELERJ. “Articular o passado historicamente não significa conhece-lo ‘tal como ele propriamente foi’. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela lampeja num instante de perigo. (…) O perigo ameaça tanto o conteúdo dado da tradição quanto os seus destinatários. Para ambos o perigo é único e o mesmo: deixar-se transformar em instrumento da classe dominante.”

CORTIÇO ANTES DA REFORMA DE PEREIRA PASSOS. “O dom de atear ao passado a centelha da esperança pertence somente àquele historiador que está perpassado pela convicção de que também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” Em Aviso de incêndio, p. 65.

CORTIÇO ANTES DA REFORMA DE PEREIRA PASSOS. “O dom de atear ao passado a centelha da esperança pertence somente àquele historiador que está perpassado pela convicção de que também os mortos não estarão seguros diante do inimigo, se ele for vitorioso. E esse inimigo não tem cessado de vencer.” Em Aviso de incêndio, p. 65.

Para Walter Benjamin, o estudo do passado não significava trazer à luz essa cadeia de eventos intacta. O que nos foi legado como “linha do tempo” da “história universal” seria apenas um cortejo fúnebre daqueles que venceram; mas a felicidade coletiva foi vislumbrada em muitos dos projetos de mundo forçados ao fracasso pelos dominadores. Por isso seria preciso construir a história, e não investigá-la. Benjamin constrói na medida em que pressupõe a destruição da história tradicional (da tradição dos vencedores, dos dominadores). A história dos vencedores se construiu em cima das ruínas históricas dos oprimidos, que ficaram soterradas sob diversos monumentos da cultura universal. É com as ruínas da história tradicional (daquela, vencedora explodida, e dessa, vencida soterrada) que Benjamin constrói uma nova constelação dos fatos, de acordo com os perigos da atualidade.

Benjamin afirmava com Nietzsche que “precisamos da história, mas não como o passeante mimado no jardim do saber”.[9] Cada época precisaria conhecer os perigos que a ameaçam e construir uma imagem do passado em que esse perigo relampejou.

 *

SONHO COLETIVO E DESPERTAR NA FISSURA DA MERCADORIA

I’M GLAD YOU CAME / “O capitalismo deve ser visto como uma religião. (...) É uma religião puramente de culto, desprovida de dogma.” Em Capitalismo como religião, Ed. Boitempo, pp. 21-23.

I’M GLAD YOU CAME / “O capitalismo deve ser visto como uma religião. (…) É uma religião puramente de culto, desprovida de dogma.” Em Capitalismo como religião, Ed. Boitempo, pp. 21-23.

A maior obra de Walter Benjamin nunca foi concluída. Trata-se de sua pesquisa acerca das Passagens parisienses. Nela, tentou formular que, no auge do capitalismo, em pleno século XIX, a humanidade tinha entrado em um terrível sonho coletivo, do qual não teria ainda despertado. Nas suas palavras, no século XIX “as formas de vida nova e as novas criações de base econômica e técnica (…) entram no universo de uma fantasmagoria.”[10] A tarefa de seu trabalho era encontrar a “constelação do despertar.”

Ao perscrutar a sensibilidade da humanidade contemporânea e a correspondência entre suas criações (artísticas ou tecnológicas) e suas “correntes espirituais”, Walter Benjamin procurava uma imagem diante da qual a humanidade pudesse esfregar os olhos e acordar. Esperava a felicidade coletiva. Nisso residia o conteúdo teológico de seu trabalho. No trabalho das Passagens, Benjamin afirmava:

 .

“…a história não é apenas uma ciência, mas igualmente uma forma de rememoração. O que a ciência ‘estabeleceu’, pode ser modificado pela rememoração. Esta pode transformar o inacabado (a felicidade) em algo acabado, e o acabado (o sofrimento) em algo inacabado. Isto é teologia; na rememoração, porém, fazemos uma experiência que nos proíbe de conceber a história como fundamentalmente ateológica, embora tampouco nos seja permitido tentar escrevê-la com conceitos imediatamente teológicos.”[11]

 .

Na sua tarefa de contribuir para o despertar – ou para a revolução comunista, que poria fim à história da dominação – Walter Benjamin tentou conceber todos os elementos do mundo como passíveis de condenação e de salvação. Entre apocalípticos e integrados, Benjamin se aproximava e distanciava de ambos. Essa postura se traduziu no que o crítico denominou de apocatástase histórica. A apocatástase é uma doutrina herética do cristianismo, inaugurada por Orígenes de Alexandria, no século III d.C., que prega que todas as almas, até mesmo as infernais, serão salvas no dia do Juízo Final. O dia do Juízo Final, secularizado na ideia de Revolução, seria o dia em que todos os elementos do mundo deixariam de contribuir para a história da dominação e caminhariam, alegres, para outro destino. Nas palavras de Walter Benjamin:

 .

“Marx diz que as revoluções são a locomotiva da história universal. Mas talvez as coisas se passem de maneira diferente. Talvez as revoluções sejam o gesto de acionar o travão de emergência por parte do gênero humano que viaja nesse comboio.”[12]

FIFA WORLD CUP 2014. “A presa, como sempre, é conduzida no cortejo triunfante. Chamam-na bens culturais. (...) [Eles possuem] uma proveniência que o materialista histórico não pode considerar sem horror. Sua existência não se deve somente ao esforço dos grandes gênios, seus criadores, mas, também, à corveia sem nome de seus contemporâneos. Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie...”

FIFA WORLD CUP 2014. “A presa, como sempre, é conduzida no cortejo triunfante. Chamam-na bens culturais. (…) [Eles possuem] uma proveniência que o materialista histórico não pode considerar sem horror. Sua existência não se deve somente ao esforço dos grandes gênios, seus criadores, mas, também, à corveia sem nome de seus contemporâneos. Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie…”

“...E, assim como ele não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro. Por isso, o materialista histórico, na medida do possível, se afasta dessa transmissão. Ele considera como sua tarefa escovar a história a contrapelo.” Em Aviso de incêncio, p. 70.

“…E, assim como ele não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro. Por isso, o materialista histórico, na medida do possível, se afasta dessa transmissão. Ele considera como sua tarefa escovar a história a contrapelo.” Em Aviso de incêncio, p. 70.

[1] Apocalípticos e Integrados, Umberto Eco, Editora Perspectiva.

[2] Em Obras Escolhidas, Vol 1 [OE1]. Editora Brasiliense.

[3] Em OE 1, p. 21.

[4] Em Origem do drama trágico alemão, Editora Autêntica, e Passagens (Caderno N), Editora da UFMG.

[5] “Pequena história da fotografia”, OE1.

[6] “A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica”, OE1.

[7] Tradução em Aviso de Incêndio, Michel Löwy, Editora Boitempo, p. 48.

[8] Idem.

[9] Friedrich Nietzsche, Segunda consideração intempestiva, Editora Relume-Dumará.

[10] Passagens, p. 53.

[11] Passagens, p. 513.

[12] O anjo da história, Editora Autêntica, pp. 177-178.

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Sobre Rafael Zacca

Poeta e crítico literário, cursou a graduação em História e o mestrado em Filosofia na Universidade Federal Fluminense. É membro do corpo editorial da Revista Chão, onde mantém a coluna Sucesso de Sebo. Integra, no Rio de Janeiro, a Oficina Experimental de Poesia.
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