Globalizar a Esperança: Internacionalismo Camponês e um Modelo Contra-Hegemônico de Sociedade

Por Eduardo Cardoso Daflon

Mestrando em História Social pela Universidade Federal Fluminense

Um camponês vem da zona rural. Sempre houve camponeses. O que não existia antes era investidores, industriais, partidos políticos etc. Os camponeses sempre existiram e sempre existirão. Eles nunca serão extintos (Marcelo Carreon Mundo, líder camponês mexicano).

Ao longo dos séculos XIX e XX, muitas foram as análises, dentro da tradição liberal ou mesmo entre as posições dos encontros da I e II Internacionais, que legaram ao campesinato um papel absolutamente secundário no contexto contemporâneo, abundando as previsões de que seriam um grupo fadado ao desaparecimento, tanto em uma sociedade capitalista avançada quanto numa sociedade comunista. Tratar-se-ia de uma classe cujo progresso das técnicas e da ciência encarregaria de sepultar, dado seu – suposto – milenar e inerente atraso. Contudo, as camponesas e os camponeses desobedientemente frustraram as várias profecias que lhes negavam qualquer existência futura, mantendo-se vivos e vibrantes para assumirem um papel preponderante nas lutas pela transformação social no alvorecer do século XXI.

Aqui tento realizar uma contribuição, ainda que bastante modesta, à divulgação e agregação das lutas destes agentes sociais, que defendem um projeto contra-hegemônico efetivo em meio a um contexto de crise das formas tradicionais de lutas e associação da classe trabalhadora. Nesse sentido, apresento nesse texto aquela que hoje, talvez, seja a mais vigorosa experiência classista de internacionalismo: a Via Campesina.imagem 1  Continuar lendo

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“Deixa estar”: fé e ação interessada no banquete da Direita

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Cena do filme “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luís Buñuel.

Quem não ganhou convites para o banquete da Direita ficou confuso. Televisões, professores e jornais passaram anos e anos cacarejando que de podre caiu a velha síntese. Aqui e ali se negava a possibilidade de entender o espectro político e as oposições entre Esquerdas e Direitas: “o quadro é complexo”, “esses conceitos reduzem o colorido da realidade”. Sobrava alquimista transformando chumbo em ouro.

Com as evidências de crise da Nova República de 1988, os traços da maquilagem de má qualidade escorreram. Até o responsável por arrebanhar velhos clientes para nova assinatura d’O GLOBO me perguntou se a negativa era pelo fato deu ser de esquerda. Em pleno Abril de 2015, negar o crescimento e a organização de forças políticas da Direita é perder o início da tragédia.

Mas quais os grupos sociais acocorados nas posições típicas da Direita? E quais são as características elementares dessa inclinação política? Continuar lendo

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Veja, crises, golpes e hegemonia

* Texto escrito por Carla Luciana Silva. Historiadora. Professora da UNIOESTE. Para acessar outros textos da autora: http://carlalucianasilva.blogspot.com.br/.

Uma revista que existe no Brasil desde 1968 deveria servir para contar a história do país. Mas, muito mais do que contar, a revista Veja tenta apontar os rumos da história, indicar os caminhos que devem ser seguidos. Quando ela se propõe a acompanhar e “vigiar” o poder, o que ela pretende de fato? Formar opinião que permita criar as bases sociais para as políticas que ela necessita. E essas políticas são a da dominação, da manutenção controlada do sistema capitalista brasileiro. Atualmente, é evidente o vínculo de Veja com políticos do PSDB e de seus órgãos formuladores, mas a sua organicidade cobra, o tempo todo, poder de decisão para a própria revista e seus intelectuais. Eles também participam do debate para definir as opções e rumos políticos e econômicos.

É importante separar aqueles que leem e até assinam a revista daqueles que são obrigados a “Vê-la”, e por isso o sugestivo título é tão impositivo, sugere que se veja algo que já está à frente de seus olhos: Veja nas bancas de revista, no consultório do médico, no dentista. Você não precisa ser um militante da revista para ler, basta ver. Quando alguém assina a revista torna-se um leitor assíduo, um “partidário” da revista. Quem deixa de assinar recebe para sempre sua publicidade propondo que volte a assinar: “o que vale mais? O que você ouve ou o que você lê?” e a revista responde: “Vale o escrito. A história do seu país continua sendo escrita nas páginas de VEJA”. (Publicidade da revista, março/2015) Vale o escrito, mas ela continua insistindo nos ícones, para que “vejamos” através dos seus olhos. Continuar lendo

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Organizações Globo – uma história de serviços prestados às direitas

* Texto escrito por João Braga Arêas, doutor em História pela UFF e professor do Colégio Pedro II.

“Sinto-me feliz, todas as noites, quando ligo a televisão para assistir o jornal [nacional]. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho”.

"É o Brasil ao vivo aí na sua casa."

“É o Brasil ao vivo aí na sua casa.”

Essas célebres palavras do presidente-general-ditador Médici ilustram o apoio do Jornal Nacional à ditadura militar (1964-85). De fato, as Organizações Globo têm uma história profundamente vinculada ao regime ditatorial.

Roberto Marinho, dono do jornal O Globo e da Rádio Globo, esteve envolvido nas articulações militares, políticas e empresariais que redundaram no golpe civil-militar de 1964. A rádio de Marinho reproduzia mensagens do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) – organização ligada às multinacionais voltadas para a deposição do governo João Goulart – sem citar a fonte ou indicar que se tratava de matéria paga. Um dos “fatos” transmitidos de maior impacto foi o de que a União Soviética instalaria um “Gabinete Comunista” no Brasil. O empresário do IPES, Leopoldo Figueiredo, pagou 714.000 cruzeiros pelo apoio político de O Globo. Também foi dado dinheiro para a publicação em fascículos do livro Assalto ao parlamento, que narra a ascensão dos comunistas na Tchecoslováquia. O envolvimento de Marinho também é ilustrado pelo fato de a primeira reunião da Campanha da Mulher Democrática – movimento conservador ligado ao IPES que visava reunir mulheres de classe média – ter ocorrido no auditório de O Globo. Continuar lendo

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Sobre a direita no Brasil, um primeiro passo necessário: atacar o senso comum reacionário.

Em tempos de efervescência política – e já podemos contar quase dois anos desde os levantes de 2013 – ainda causa perplexidade em muita gente o ressurgimento de bandeiras reacionárias nas ruas. Desde a defesa da ditadura, do neoliberalismo, passando aos ataques a políticas sociais dos governos petistas, ou aos movimentos sociais e sindicais críticos aos governos, ou ao dito ‘politicamente correto’ em geral, vimos nesses anos a expressão aberta do pensamento reacionário, e não apenas no fabuloso mundo das redes sociais, mas agora nas ruas do Brasil inteiro.

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Uma primeira atitude de pessoas e coletivos que se consideram de esquerda, uma reação instintiva, talvez, foi a denúncia ou desqualificação pura e simples dessas posições. Quando não o escárnio, merecido, dos discursos absurdos, afinal, muitas das bandeiras reacionárias não prezavam mesmo por qualquer argumento lógico, sendo apenas jargões já clássicos, como “Vai pra Cuba!”, “Forças armadas, salvem a democracia!”, “Direitos humanos para humanos direitos”, “Petralhas!!” (com sangue nos olhos) etc. Continuar lendo

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Qual a implicação da tolerância?

Cars are cars/ All over the world/
But people are strangers/ They change with the curve
(versos da música “Cars are Cars” de Paul Simon)
Agradecimento para Renato Silva, Mariana Bedran, Fábio Frizzo e Ivan Martins por críticas e comentários

A ideia de “tolerar” pode muitas vezes carregar uma conotação paternalista, onde a tolerância pode ser assaz bem entendida como uma maioria que decide suportar certos grupos minoritários (religiosos, étnicos, ou quaisquer outros), tal qual um fardo, a despeito das práticas recrimináveis ou excêntricas deles. Portanto, seria necessário em prol de um verdadeiro igualitarismo transformar tolerância em aceitação, respeito ou reciprocidade, ou seja em uma relação que não é hierárquica. Essa perspectiva encontra eco em nomes importantes da filosofia política contemporânea, como Rainer Foster que procura entender a ideia de tolerância como respeito (busca pela tolerância racional e equitativa).

Embora no embate cotidiano (inclusive jurídico) essa seja uma linha de reflexão bastante importante, a proposta do presente texto é antes refletir a respeito de possíveis limites de uma luta cuja a bandeira seja a “tolerância”. Continuar lendo

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A política externa das multinacionais brasileiras – a experiência dos doze anos de PT no poder

* Texto escrito por Pedro Henrique Pedreira Campos, professor de Política Externa Brasileira do Departamento de História e Relações Internacionais (DHRI) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

Quando se analisa a política externa de um país a partir de uma perspectiva crítica, lastreada no materialismo histórico e sob as premissas da totalidade, da historicidade e de uma sociedade constituída por classes sociais e frações de classe, deve-se levar em conta algumas ponderações, como as enunciadas pelos historiadores da política externa, Paulo Vizentini e José Luiz Werneck da Silva[1]. Segundo eles, para analisar uma política externa, é necessário colocar em questão quais grupos sociais são os seus beneficiários e também quem são os responsáveis por suas diretrizes. Deve-se levar em conta também como os aparelhos da sociedade civil se organizam e tentam pautar a agenda internacional de um determinado Estado em certo momento e em que medida estes interesses são atendidos pelas políticas públicas adotadas para o setor externo[2]. Assim, fica a questão: quais são os grupos sociais presentes no Estado brasileiro responsáveis e favorecidos pela política externa assumida desde 2003?

Lula +® o cara Continuar lendo

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Notas sobre administração armada da vida “Feliz pra sempre”

* Artigo de Felipe Brito. Professor da Universidade Federal Fluminense e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). O autor agradece os provocadores diálogos com Clarice Chacon, Henrique Sater e Pedro Rocha de Oliveira.

A maior empresa produtora de mercadorias culturais do país, vez por outra, destina um pequeno intervalo de horário tarde da noite para exibir uma mercadoria denominada seriado. Como uma derivação mais sofistica das telenovelas (mercadorias que, junto com o futebol, geram a maior rentabilidade da empresa), os seriados são endereçados a consumidores tratados como mais “exigentes”, ou seja, que demandam mais do que as telenovelas dos horários tradicionais oferecem.

Caricatura retrata Carlos Lacerda como corvo, por conta de sua elevação do golpismo à categoria de modo de ação político prioritário

Caricatura retrata Carlos Lacerda como corvo, por conta de sua elevação do golpismo à condição de modo de ação político prioritário

Em janeiro de 2015, estreou mais um desses seriados, com um time global de peso, com o reforço de um cineasta brasileiro consagrado em Hollywood e de um ator/diretor teatral também consagrado em seu meio, escalado como protagonista da trama. A exposição dos dramas interpessoais das personagens de “Felizes para sempre?” contou, como pano de fundo, com o “mar de lama” brasileiro – expressão cunhada por Carlos Lacerda para designar uma “epidemia” de corrupção e vinculá-la a Getúlio Vargas, no bojo de renitentes tentativas golpistas que, concretizadas em 1964, inauguraram uma ditadura empresarial-militar de duas décadas. Passada em Brasília, a trama concatena-se ao circuito das denúncias (seletivas) de corrupção que, junto com a dramatização sensacionalista da violência urbana, satura os veículos de comunicação, marretando insistentemente a recepção dos espectadores. Na proposta de mimetizar o “mar de lama” brasileiro, a corrupção encontra-se tão esparramada no seriado que nem a personagem Black Bloc escapou. Depois de anunciar a um debutante político de classe média alta oriundo dos atos de rua de junho de 2013 que “em Brasília você não pode confiar em ninguém”, foi flagrada depois pelo mesmo adolescente (visceralmente apaixonado) recebendo dinheiro e se agarrando com o seu corruptor. Cena de péssimo gosto, aliás, com tinturas machistas, na qual uma pretensão de realce da venalidade política incluiu sexo com o corruptor. Continuar lendo

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Mirem-se no exemplo das mulheres curdas

Texto de Giovanna Antonaci, Juliana Lessa e Pollyana Labre.

“Temos a única coisa que ninguém nos pode dar. Temos a nossa liberdade. Vocês não. Quem me dera que houvesse uma maneira de poder dá-la”. Amina, vice-chanceler de Rojava.

Em 2012, a população curda de Rojava – organizada em torno de ideias como liberdade, igualdade, ecologia e anticapitalismo – proclamou sua autonomia em relação à Síria de Bashar Al-Assad, em meio ao contexto de guerra civil que ocorre nesse país desde 2011. Rojava (a parte síria do Curdistão, que faz fronteira com a Turquia) passou a ser gerida pelo seu próprio povo, mas vem enfrentando ataques promovidos por grupos de fundamentalistas religiosos e pelo governo da Turquia (que resiste a dar mais autonomia à população curda localizada em seu território).

Mapa do território reivindicado pelos curdos.

Mapa do território reivindicado pelos curdos.

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Pátria educadora para quem? O governo Dilma Rousseff e o empresariamento da educação

Texto de Kênia Miranda, professora da Faculdade de Educação da UFF

Muitos companheiros de lutas sindicais, de movimentos sociais e político-partidários perguntaram-se, diante da polarização da disputa das últimas eleições gerais, se o voto em Dilma Rousseff, apesar das críticas em setores como o da economia e as denúncias de corrupção, seria uma forma de permitir que direitos sociais não fossem perdidos, dentre eles os supostos avanços na educação.

A análise que apresentaremos pretende demonstrar que os governos do Partido dos Trabalhadores, até o momento, foram nefastos para a educação de um determinado projeto classista. Refiro-me àquela educação voltada aos interesses da formação multilateral, de caráter politécnica, financiada pelo Estado e sob o controle dos trabalhadores. E mesmo a perspectiva de uma educação mais humanista foi abandonada.

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