“Por que o marxismo não é oposto ao feminismo?” Ou “Quatro razões para se pensar um feminismo marxista”.

Muito se fala sobre uma pretensa incapacidade do marxismo em explicar e apontar respostas para algumas questões sociais que não parecem estar ligadas diretamente ao princípio básico da luta de classes no campo econômico, como as opressões sofridas por mulheres, negros, homossexuais e transgêneros.

Feminismo marxista

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Greve na educação federal (e outras greves): um movimento oportuno e necessário

Por Marcelo Badaró Mattos, professor da UFF.

O movimento sindical é muitas vezes limitado a um horizonte imediato de reivindicações econômicas dos trabalhadores que representa. Não poderia ser diferente e nem se pode esperar que sindicatos não apresentem demandas econômicas, pois elas são no mais das vezes justas e são o eixo central da razão de ser dessas organizações de defesa da classe contra a exploração do capital. Porém, se mantiverem-se rigorosamente limitados às reivindicações econômicas, os sindicatos perdem força e fracassam no que diz respeito a seu potencial de conscientização e mobilização, pois a superação da exploração a que está submetida a classe trabalhadora não será alcançada por um somatório de conquistas econômicas, mas apenas por uma transformação social global. Continuar lendo

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Walter Benjamin, o marxismo e a história: 5 questões fundamentais

Walter Benjamin

Walter Benjamin*

Texto escrito por Rafael Vieira, doutorando em Direito.

O marxismo de Walter Benjamin é de fato bastante singular. Seu contato mais aprofundado com a obra de Marx e com o marxismo enquanto uma filosofia da práxis (a expressão é de Gramsci, não de Benjamin) ocorre em 1923-1924 por uma conjunção de fatores que vão desde a leitura da obra de Lukács “História e Consciência de Classe”, suas discussões com a militante comunista letã Asja Lácis e também em função de perceber na obra de Marx um poderoso instrumento de crítica ativa ao aprofundamento das contradições sociais na República de Weimar depois da derrota dos setores combativos do movimento dos trabalhadores no ciclo revolucionário alemão que se abre em 1918-1919.
Embora a partir de 1923-24 seu pensamento ganhe novos contornos com Marx, a crítica ao capitalismo e à civilização industrial moderna aparecem em alguns de seus textos desde 1915 pelo menos, sendo uma espécie de fio condutor de sua obra. Essa crítica é feita nesse primeiro momento a partir de uma associação complexa entre um romantismo revolucionário e uma interpretação particular do messianismo judaico, referências essas que não desaparecem (embora sejam reposicionadas) depois do contato com Marx e alguns de seus intérpretes. Nesse breve texto, o objetivo é tocar em alguns pontos que considero importantes na relação de Benjamin com a obra de Marx e com algumas correntes distintas do marxismo. A ideia é levantá-los como aspectos essenciais de uma agenda de pesquisa e como temas centrais de debate, sem qualquer pretensão de esgotá-los. Continuar lendo

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A barbárie em nós: reprodução ampliada do capital e do ódio

*Texto de Tatiana Poggi, professora de História da Universidade Federal Fluminense

Vítimas da violência na Nigéria

Vítimas da violência na Nigéria

Mais um ano se inicia. Sempre me intrigou a ideia de pensar e medir o tempo em ciclos. Não apenas mais um ano; um ano novo. E com ele, um recomeço, a oportunidade de refazer e de transformar. Um novo ano renova as energias, traz esperança e fôlego aos desesperados. Em tempos como o nosso, marcado pela extrema desigualdade, pelo ódio e pela intolerância, pela perda de espaços e de direitos, esse sentimento é quase uma necessidade, ainda que inconsciente, para não sucumbirmos ao derradeiro fim, qual seja, a perda da esperança. A esperança de que no próximo ano as coisas possam ser diferentes, melhores.

Essa é um pouco a essência da modernidade. O ser moderno é, em seu âmago, um otimista e também um ser de fé; comunga de uma fé particular na mudança, na ideia de progresso, na razão, na ciência, na política e na diplomacia como meios racionais de solucionar contendas. Com esse sujeito, dono do mundo, emerge um conjunto largo de expectativas em torno da emancipação, da prosperidade, da inclusão e da felicidade. Isso é basicamente o que Marshall Berman caracterizou como “promessas da modernidade”, a promessa da possibilidade. Continuar lendo

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Um sobrevoo brasileiro sobre a obra de Antonio Gramsci

* Texto escrito por Fábio Frizzo e Marco Pestana.

Antonio Gramsci

Antonio Gramsci

Para atuar na transformação do mundo é necessário, antes, entendê-lo, e isto não é uma tarefa fácil – ainda mais em tempos como os atuais, em que tudo parece acontecer a uma velocidade vertiginosa. Respostas fáceis quase nunca conseguem atingir o centro dos problemas e, por isso, pensar a partir de sólidas bases é cada vez mais importante. Com essa preocupação em mente, propomos um rápido sobrevoo pela obra de um dos mais importantes revolucionários e pensadores marxistas, Antonio Gramsci, para colhermos pistas que nos ajudem a compreender a atual situação política brasileira.

Gramsci, nascido em 1891, na Sardenha, foi, desde a adolescência, um militante socialista, se destacando na experiência de luta dos trabalhadores nos Conselhos de Fábrica durante o chamado biênio vermelho de 1919-20. Também foi fundador, em 1921, e dirigente do Partido Comunista Italiano, além de deputado no Congresso Nacional. As atividades desenvolvidas por ele no PCI e na Internacional Comunista acabaram por levá-lo à prisão fascista em 1926. Nos dizeres de seus algozes, seria preciso “impedir esse cérebro de funcionar durante vinte anos”. Continuar lendo

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O que ainda resta de Junho… Uma análise das Jornadas, dois anos depois

Em junho de 2013, milhões de pessoas saíram às ruas de todo o Brasil para lutar contra o aumento das tarifas nos transportes públicos. Os atos começaram pequenos nas principais capitais do país, mas cresceram num ritmo intenso, chegando a atingir uma dimensão nacional. E conforme mais gente aderia aos movimentos, diversas reivindicações acabaram sendo incorporadas à pauta das manifestações, que deixou de se limitar à redução das passagens. Mas, ao contrário do que se chegou a afirmar, as Jornadas de Junho não devem ser vistas como mobilizações inesperadas, espontâneas ou como meros produtos das interações sociais nas redes internéticas.

Ato na cidade do Rio de Janeiro - 17/06/2013

Ato na cidade do Rio de Janeiro – 17/06/2013

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Imperatriz Furiosa em Mad Max: We DO need another hero*

*”Precisamos de mais um herói/heroína”, em referência à canção de Tina Turner intitulada We don’t need another hero.

Não sei se cheguei tarde demais no debate “Mad Max é ou não um filme feminista?”, mas já que só vou ao cinema duas vezes por ano — o valor da entrada inteira torna isso um evento de alto luxo exclusivo para ocasiões comemorativas –, vou dar humildemente meu pitaco.

[Contém spoilers!]

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Ensinar para Libertar: Escola Nacional Florestan Fernandes – Um modelo contra-hegemômico de Educação

Texto escrito em coautoria com Ingrid da Silva Linhares, Graduanda em História pela Universidade Federal Fluminense.

enxadasA chamada “Revolução Verde” ganhou força no Brasil especialmente a partir da década de 1980, levando à modernização do campo com base no emprego de grandes quantidades de recursos. Esse processo promoveu a entrada de peso do capital na agricultura com a promessa – não cumprida – de expandir a produção e acabar com a fome. Qual foi o efeito real dessa modernização? Além do emprego maciço de agrotóxicos que causam grande prejuízo à saúde humana e à própria natureza, vemos ainda um custo social imenso: a mecanização que reduziu o contingente de trabalhadores e forçou milhões de camponesas e camponeses a migrarem para as cidades.


toxico

Desse contexto surge, em 1984, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), tendo na luta pelo acesso à terra seu elemento central de articulação. Essa luta se estruturou, em um primeiro momento, contra o latifúndio – principalmente o improdutivo –, e hoje também se posiciona contrariamente ao chamado agronegócio, nome pelo qual ficou conhecido o resultado final das “revolucionárias” mudanças na agricultura surgidas nos anos 1980.

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Tropa de elite do neoliberalismo (3): o sentido da “nova” direita

O fato de que nenhum regime político jamais realizou a totalidade do sonho neoliberal não é uma prova de sua ineficácia prática; ao contrário, foi somente porque a teoria neoliberal era tão intransigente que governos de direita puderam proceder a políticas tão drásticas: a teoria neoliberal supria, nos seus princípios, uma espécie de temário máximo em que os governos podiam escolher os itens mais oportunos, segundo a sua conveniência política ou administrativa conjuntural. O maximalismo neoliberal, neste sentido, foi altamente funcional”.

Perry Andersoni

[Na segunda parte deste artigo vimos um pouco de como se organiza internacionalmente os grupos da “nova direita” brasileira. Nesta terceira e última parte, veremos o papel que cumpre as inalcançáveis exigências neoliberais no Brasil]

Quando a atual crise econômica internacional irrompeu no horizonte, com a quebra dos grandes bancos de investimento como o Lehman Brothers, não faltaram críticos que buscassem explicar o desastre como um desdobramento da nova arquitetura que o capitalismo adquiriu nos últimos quarenta anos, quando os países mais ricos do mundo foram paulatinamente abandonando o sistema de regulação social conhecido como Welfare State para adotar o neoliberalismo e seu corolário. Continuar lendo

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Tropa de elite do neoliberalismo (2): a direita transnacional, ontem e hoje

As empresas multinacionais despertarão mais atenção a cada ano, à medida que crescerem em importância mundial. Os ataques se tornarão mais fortes. Se não justificarmos nossa existência ante aqueles que podem influenciar e, talvez, controlar nossos destinos, no mínimo nos arrancarão pedaços a bala, se é que não nos liquidarão inteiramente.”
Athernon Bean, da International Multifoods, 1971.(1)

[Na primeira parte deste artigo, vimos como certa visão governista mistifica o caráter da conexão transnacional da chamada “nova direita”, e os equívocos da comparação da situação atual com a de 1964. Agora, veremos como eram essas conexões nos anos 1960 e como a partir do final dos anos 1970 ela se modifica internacionalmente.]

Brazil: Curriculum vitae

No Brasil dos anos 1960, a conexão transnacional seria de fundamental importância para a atuação de diversos dos grupos que procuravam desestabilizar o governo Jango (1961-1964), principalmente o grupo reunido em torno do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), “estado-maior” de uma espécie de “partido do grande capital” que abrigava o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática, responsável por receber o dinheiro dos EUA para financiar os candidatos da oposição udenista) e muitos elementos importantes da ESG (Escola Superior de Guerra). Continuar lendo

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