Quatro mitos sobre a crítica de Marx ao Capitalismo (ou “o que a crítica marxiana ao capitalismo não é”)

Em 2011, na esteira de um renovado interesse por Marx e por sua crítica ao capitalismo, Terry Eagleton publicou um livro intitulado “Marx Estava Certo”. Cada um dos dez capítulos do livro apresenta uma crítica usual ao marxismo (na maior parte das vezes oriunda do senso-comum) e a resposta de Eagleton. O livro é uma leitura interessante para qualquer leitor interessado, mas as dez críticas selecionadas respondiam a critérios diversos, como o contexto britânico e a subjetividade do autor.

Marx

O livro de Eagleton pretendia desenvolver subsídios para o evidente retorno da crítica marxiana ao palco do debate político mundial. Desde a crise de 2008 a percepção do público em geral havia se transformado: subitamente, o capitalismo deixou de ser encarado como um sistema natural e as alternativas – ou ao menos a busca por elas – ressurgiram. A obra marxiana (re)apareceu então como um manancial importante onde poderíamos encontrar algumas respostas – ou pelo menos perguntas mais adequadas.

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Nós apoiamos os 23

Todo apoio aos 23

Todo apoio aos 23

O Capitalismo em Desencanto vem novamente a público declarar sua solidariedade aos 23 presos e perseguidos políticos do Rio de Janeiro. Desde julho de 2014, militantes tem sofrido dura perseguição, com clara motivação política, em um processo judicial marcado por arbitrariedade e inconsistência, repudiada por diversas entidades e movimentos sociais. Buscam, por punição exemplar aos 23, intimidar e desarticular o movimento social do Rio de Janeiro, tentando impedir ou diminuir a resistência aos projetos dos governos estadual, municipal e federal.

Os que acusaram, prenderam e tentam agora condenar os professores, estudantes, midiativistas do Rio de Janeiro não são diferentes daqueles que espantaram em massa os educadores do Paraná. Exigir a liberdade destes militantes é defender a liberdade de manifestação e as brechas de democracia que ainda sobrevivem em nossa sociedade.

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A Evolução Política do Tucanistão Paulista (notas sobre a atuação política da pequena-burguesia paulista)

Por Uiran Silva e Fábio Morales, doutores em História pela USP.

Tucanistão

Circula por aí no senso comum (e por senso comum queremos dizer sites, blogs e postagens em redes sociais escritos por analfabetos políticos orgânicos) que a esquerda se define por ser a favor da intervenção do Estado na economia e a direita por ser a favor da liberdade individual e do mercado. O que se pode dizer a respeito de tal definição? Em primeiro lugar, que ela é enganosa, deformadora e mistificadora do desenvolvimento histórico que levou à cristalização dessas duas tendências políticas dentro da modernidade burguesa (ou ocidental). Contudo, em segundo lugar, também pode-se dizer que tal definição do par esquerda-direita é representativa (muito representativa) da origem política e social dos que a enunciam: uma pequena-burguesa que depende profundamente do Estado burguês, mas que, negando-negativamente sua própria condição, por meio de sua intelectualidade orgânica, recalca (reprime ou sublima) com uma intensidade incrível essa dependência. Esse recalque é particularmente paulista? Ora, a história política no século XX de São Paulo não pode ser compreendida sem que se lide com esse recalque, que tem implicações importantes para a compreensão dos seus movimentos de trabalhadores e sua intelectualidade associada também.

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O Dia do Trabalhador no Cinema

Para homenagear esse Dia do Trabalhador, o Capitalismo em Desencanto traz alguns filmes inspirados nas lutas dos trabalhadores de todo o mundo.

1. A Greve (1925) 

Título original: Stachka

Direção: Sergei M. Eisenstein

No primeiro longa do grande mestre da vanguarda do cinema soviético, operários entram em greve na Rússia Czarista e são violentamente reprimidos. O predescessor de O Encouraçado Potemkin é conhecido por suas sequencias de montagem, subretudo a que alterna o ateque aos grevistas com imagens de gado sendo abatido.

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Retórica da ponderação e Direita. Ou sobre ponderadinhos e isentões.

“Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar”. A sabedoria popular consolidada em poderosas frases feitas tem uma força admirável. O valor dessa formulação em específico, que remonta à teoria de justa medida que Aristóteles sustentava em sua Ética, é inegável. Na arena política, a metodologia de buscar posições equilibradas traçando mediatrizes entre as distintas posições em disputa é uma antiga e importante ferramenta política para a construção de consensos. Para aqueles que acreditam na máxima bismarckiana de que a Política é a arte do possível, a ponderação entre as distintas posições e a construção de consensos são as estratégias políticas par excellence.

Esse texto, contudo, não é um elogio da realpolitik. O parágrafo acima é uma ponderação e, metalinguisticamente, este é meu assunto. Se a política é a arte do possível, a ponderação é a arte de estabelecer o que vai ser aceito como possível. Dentro das arenas políticas da sociedade, os diferentes grupos de poder em conflito disputam a construção de uma posição hegemônica sobre o que é razoável dentro das fronteiras do possível daquela arena política. Michel Foucault falou em Regimes de Verdade para se referir àquilo que é aceito como discurso verdadeiro dentro de uma sociedade. Poderíamos falar em Regimes do Possível para as arenas políticas.

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Dez observações sobre a conjuntura atual

Texto por Rafael Vieira, doutorando em Direito pela PUC-Rio.

1- Concordo com Ruy Braga e Alvaro Bianchi quando indicam2, partindo de Gramsci, que um dos panos de fundo do atual ascenso da direita e da extrema-direita é uma crise de hegemonia no interior das classes dominantes, marcadas por um processo social complexo que desemboca em disputas entre os principais partidos da ordem (PSDB, PT e PMDB) sobre os rumos a serem dados ao país3. Embora haja uma tentativa da mídia corporativa de dissociar as marchas ocorridas nos dias 15 de março e 12 de abril dessas disputas para tentar criar a imagem idílica de que elas representariam a “vontade do povo brasileiro”, é clara a co-implicação orgânica entre a oposição de direita, no momento em que as mesmas são convocadas, organizadas (inclusive com auxílio da mídia corporativa) e capitaneadas por estas. Em momentos imediatamente posteriores às marchas, são formadas comissões entre alguns dos grupos que a convocaram que se reúnem4 com a oposição de direita para discutir as estratégias a serem tomadas nas disputas atualmente traçadas com o PT sobre o modelo de gestão da ordem do capital no país. Continuar lendo

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Quem dá as cartas no debate sobre a redução da maioridade penal?

Alguns países e a maioridade penal neles adotada

Alguns países e a maioridade penal neles adotada

No debate público em torno da redução da maioridade penal, recentemente reacendido pelo Congresso, uma informação tem passado batida pela maior parte dos comentários e análises: de 54 países que adotaram a redução, nenhum alcançou uma queda na criminalidade. Ora, se os dados disponíveis apontam que a medida proposta é altamente ineficaz em relação aos seus objetivos, a questão deveria estar encerrada, certo?

Errado! Muito pelo contrário, é aí mesmo que a caixa preta dessa questão pode começar a ser aberta. Afinal, diante dessa informação, como compreender que pesquisas apontem que cerca de 80% da população brasileira apoia a redução da maioridade penal como forma de combater a criminalidade no país? Continuar lendo

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Globalizar a Esperança: Internacionalismo Camponês e um Modelo Contra-Hegemônico de Sociedade

Por Eduardo Cardoso Daflon

Mestrando em História Social pela Universidade Federal Fluminense

Um camponês vem da zona rural. Sempre houve camponeses. O que não existia antes era investidores, industriais, partidos políticos etc. Os camponeses sempre existiram e sempre existirão. Eles nunca serão extintos (Marcelo Carreon Mundo, líder camponês mexicano).

Ao longo dos séculos XIX e XX, muitas foram as análises, dentro da tradição liberal ou mesmo entre as posições dos encontros da I e II Internacionais, que legaram ao campesinato um papel absolutamente secundário no contexto contemporâneo, abundando as previsões de que seriam um grupo fadado ao desaparecimento, tanto em uma sociedade capitalista avançada quanto numa sociedade comunista. Tratar-se-ia de uma classe cujo progresso das técnicas e da ciência encarregaria de sepultar, dado seu – suposto – milenar e inerente atraso. Contudo, as camponesas e os camponeses desobedientemente frustraram as várias profecias que lhes negavam qualquer existência futura, mantendo-se vivos e vibrantes para assumirem um papel preponderante nas lutas pela transformação social no alvorecer do século XXI.

Aqui tento realizar uma contribuição, ainda que bastante modesta, à divulgação e agregação das lutas destes agentes sociais, que defendem um projeto contra-hegemônico efetivo em meio a um contexto de crise das formas tradicionais de lutas e associação da classe trabalhadora. Nesse sentido, apresento nesse texto aquela que hoje, talvez, seja a mais vigorosa experiência classista de internacionalismo: a Via Campesina.imagem 1  Continuar lendo

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“Deixa estar”: fé e ação interessada no banquete da Direita

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Cena do filme “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luís Buñuel.

Quem não ganhou convites para o banquete da Direita ficou confuso. Televisões, professores e jornais passaram anos e anos cacarejando que de podre caiu a velha síntese. Aqui e ali se negava a possibilidade de entender o espectro político e as oposições entre Esquerdas e Direitas: “o quadro é complexo”, “esses conceitos reduzem o colorido da realidade”. Sobrava alquimista transformando chumbo em ouro.

Com as evidências de crise da Nova República de 1988, os traços da maquilagem de má qualidade escorreram. Até o responsável por arrebanhar velhos clientes para nova assinatura d’O GLOBO me perguntou se a negativa era pelo fato deu ser de esquerda. Em pleno Abril de 2015, negar o crescimento e a organização de forças políticas da Direita é perder o início da tragédia.

Mas quais os grupos sociais acocorados nas posições típicas da Direita? E quais são as características elementares dessa inclinação política? Continuar lendo

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Veja, crises, golpes e hegemonia

* Texto escrito por Carla Luciana Silva. Historiadora. Professora da UNIOESTE. Para acessar outros textos da autora: http://carlalucianasilva.blogspot.com.br/.

Uma revista que existe no Brasil desde 1968 deveria servir para contar a história do país. Mas, muito mais do que contar, a revista Veja tenta apontar os rumos da história, indicar os caminhos que devem ser seguidos. Quando ela se propõe a acompanhar e “vigiar” o poder, o que ela pretende de fato? Formar opinião que permita criar as bases sociais para as políticas que ela necessita. E essas políticas são a da dominação, da manutenção controlada do sistema capitalista brasileiro. Atualmente, é evidente o vínculo de Veja com políticos do PSDB e de seus órgãos formuladores, mas a sua organicidade cobra, o tempo todo, poder de decisão para a própria revista e seus intelectuais. Eles também participam do debate para definir as opções e rumos políticos e econômicos.

É importante separar aqueles que leem e até assinam a revista daqueles que são obrigados a “Vê-la”, e por isso o sugestivo título é tão impositivo, sugere que se veja algo que já está à frente de seus olhos: Veja nas bancas de revista, no consultório do médico, no dentista. Você não precisa ser um militante da revista para ler, basta ver. Quando alguém assina a revista torna-se um leitor assíduo, um “partidário” da revista. Quem deixa de assinar recebe para sempre sua publicidade propondo que volte a assinar: “o que vale mais? O que você ouve ou o que você lê?” e a revista responde: “Vale o escrito. A história do seu país continua sendo escrita nas páginas de VEJA”. (Publicidade da revista, março/2015) Vale o escrito, mas ela continua insistindo nos ícones, para que “vejamos” através dos seus olhos. Continuar lendo

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