Qual a implicação da tolerância?

Cars are cars/ All over the world/
But people are strangers/ They change with the curve
(versos da música “Cars are Cars” de Paul Simon)
Agradecimento para Renato Silva, Mariana Bedran, Fábio Frizzo e Ivan Martins por críticas e comentários

A ideia de “tolerar” pode muitas vezes carregar uma conotação paternalista, onde a tolerância pode ser assaz bem entendida como uma maioria que decide suportar certos grupos minoritários (religiosos, étnicos, ou quaisquer outros), tal qual um fardo, a despeito das práticas recrimináveis ou excêntricas deles. Portanto, seria necessário em prol de um verdadeiro igualitarismo transformar tolerância em aceitação, respeito ou reciprocidade, ou seja em uma relação que não é hierárquica. Essa perspectiva encontra eco em nomes importantes da filosofia política contemporânea, como Rainer Foster que procura entender a ideia de tolerância como respeito (busca pela tolerância racional e equitativa).

Embora no embate cotidiano (inclusive jurídico) essa seja uma linha de reflexão bastante importante, a proposta do presente texto é antes refletir a respeito de possíveis limites de uma luta cuja a bandeira seja a “tolerância”. Continuar lendo

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A política externa das multinacionais brasileiras – a experiência dos doze anos de PT no poder

* Texto escrito por Pedro Henrique Pedreira Campos, professor de Política Externa Brasileira do Departamento de História e Relações Internacionais (DHRI) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)

Quando se analisa a política externa de um país a partir de uma perspectiva crítica, lastreada no materialismo histórico e sob as premissas da totalidade, da historicidade e de uma sociedade constituída por classes sociais e frações de classe, deve-se levar em conta algumas ponderações, como as enunciadas pelos historiadores da política externa, Paulo Vizentini e José Luiz Werneck da Silva[1]. Segundo eles, para analisar uma política externa, é necessário colocar em questão quais grupos sociais são os seus beneficiários e também quem são os responsáveis por suas diretrizes. Deve-se levar em conta também como os aparelhos da sociedade civil se organizam e tentam pautar a agenda internacional de um determinado Estado em certo momento e em que medida estes interesses são atendidos pelas políticas públicas adotadas para o setor externo[2]. Assim, fica a questão: quais são os grupos sociais presentes no Estado brasileiro responsáveis e favorecidos pela política externa assumida desde 2003?

Lula +® o cara Continuar lendo

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Notas sobre administração armada da vida “Feliz pra sempre”

* Artigo de Felipe Brito. Professor da Universidade Federal Fluminense e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). O autor agradece os provocadores diálogos com Clarice Chacon, Henrique Sater e Pedro Rocha de Oliveira.

A maior empresa produtora de mercadorias culturais do país, vez por outra, destina um pequeno intervalo de horário tarde da noite para exibir uma mercadoria denominada seriado. Como uma derivação mais sofistica das telenovelas (mercadorias que, junto com o futebol, geram a maior rentabilidade da empresa), os seriados são endereçados a consumidores tratados como mais “exigentes”, ou seja, que demandam mais do que as telenovelas dos horários tradicionais oferecem.

Caricatura retrata Carlos Lacerda como corvo, por conta de sua elevação do golpismo à categoria de modo de ação político prioritário

Caricatura retrata Carlos Lacerda como corvo, por conta de sua elevação do golpismo à condição de modo de ação político prioritário

Em janeiro de 2015, estreou mais um desses seriados, com um time global de peso, com o reforço de um cineasta brasileiro consagrado em Hollywood e de um ator/diretor teatral também consagrado em seu meio, escalado como protagonista da trama. A exposição dos dramas interpessoais das personagens de “Felizes para sempre?” contou, como pano de fundo, com o “mar de lama” brasileiro – expressão cunhada por Carlos Lacerda para designar uma “epidemia” de corrupção e vinculá-la a Getúlio Vargas, no bojo de renitentes tentativas golpistas que, concretizadas em 1964, inauguraram uma ditadura empresarial-militar de duas décadas. Passada em Brasília, a trama concatena-se ao circuito das denúncias (seletivas) de corrupção que, junto com a dramatização sensacionalista da violência urbana, satura os veículos de comunicação, marretando insistentemente a recepção dos espectadores. Na proposta de mimetizar o “mar de lama” brasileiro, a corrupção encontra-se tão esparramada no seriado que nem a personagem Black Bloc escapou. Depois de anunciar a um debutante político de classe média alta oriundo dos atos de rua de junho de 2013 que “em Brasília você não pode confiar em ninguém”, foi flagrada depois pelo mesmo adolescente (visceralmente apaixonado) recebendo dinheiro e se agarrando com o seu corruptor. Cena de péssimo gosto, aliás, com tinturas machistas, na qual uma pretensão de realce da venalidade política incluiu sexo com o corruptor. Continuar lendo

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Mirem-se no exemplo das mulheres curdas

Texto de Giovanna Antonaci, Juliana Lessa e Pollyana Labre.

“Temos a única coisa que ninguém nos pode dar. Temos a nossa liberdade. Vocês não. Quem me dera que houvesse uma maneira de poder dá-la”. Amina, vice-chanceler de Rojava.

Em 2012, a população curda de Rojava – organizada em torno de ideias como liberdade, igualdade, ecologia e anticapitalismo – proclamou sua autonomia em relação à Síria de Bashar Al-Assad, em meio ao contexto de guerra civil que ocorre nesse país desde 2011. Rojava (a parte síria do Curdistão, que faz fronteira com a Turquia) passou a ser gerida pelo seu próprio povo, mas vem enfrentando ataques promovidos por grupos de fundamentalistas religiosos e pelo governo da Turquia (que resiste a dar mais autonomia à população curda localizada em seu território).

Mapa do território reivindicado pelos curdos.

Mapa do território reivindicado pelos curdos.

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Pátria educadora para quem? O governo Dilma Rousseff e o empresariamento da educação

Texto de Kênia Miranda, professora da Faculdade de Educação da UFF

Muitos companheiros de lutas sindicais, de movimentos sociais e político-partidários perguntaram-se, diante da polarização da disputa das últimas eleições gerais, se o voto em Dilma Rousseff, apesar das críticas em setores como o da economia e as denúncias de corrupção, seria uma forma de permitir que direitos sociais não fossem perdidos, dentre eles os supostos avanços na educação.

A análise que apresentaremos pretende demonstrar que os governos do Partido dos Trabalhadores, até o momento, foram nefastos para a educação de um determinado projeto classista. Refiro-me àquela educação voltada aos interesses da formação multilateral, de caráter politécnica, financiada pelo Estado e sob o controle dos trabalhadores. E mesmo a perspectiva de uma educação mais humanista foi abandonada.

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Era PT e o meio ambiente, a face piorada do mais do mesmo

Por Deborah Regina Salim (Ciências Biológicas UFRJ e Coletivo Construção)

Os governos do PT de Lula e Dilma representaram um dos maiores retrocessos nas leis ambientais do país. Como consequência, viveremos uma crise ambiental que pode se agravar até 2050 e quem pagará a conta serão os trabalhadores e trabalhadoras.

No segundo mandato de Lula na presidência da república, o país alcançou a colocação de 7ª maior economia mundial e já no fim do primeiro mandato da presidenta Dilma, o país conseguiu sair do mapa da fome. Números estes muito comemorados pelo PT e que só foram possíveis a curto e médio prazo devido a uma série de mudanças nas legislações ambientais, mega-obras de infra-estrutura e favorecimento dos já muito favorecidos latifundiários.

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Os governos do PT e a questão de mulheres: reflexões sobre um projeto político

Autora: Natalia Conti, militante do PSTU/RJ, constrói o Movimento Mulheres em Luta (MML-CSP Conlutas) e é mestranda em Sociologia na Universidade Federal Fluminense (UFF)

Fazer um balanço dos governos do PT sobre a questão das mulheres é inevitavelmente ter que olhar para boa parte dos projetos que o Estado elabora. Diferente de analisar as políticas específicas para o setor, podemos a partir da leitura das políticas de saúde, educação, segurança pública e emprego, por exemplo, identificar aquele lugar concebido pelo governo para as mulheres brasileiras, sobretudo as mulheres trabalhadoras. Imediatamente após a apresentação de políticas de austeridade que restringem o seguro-desemprego, atacam as pensões, o abono salarial e o auxílio-doença, apontamos que não é possível ainda fazer um balanço definitivo a respeito, visto que no cenário de crise econômica os ataques tendem a se aprofundar e comprometer as poucas garantias que as mulheres têm atualmente.

Outro aspecto importante a ser levado em conta, antes que entremos propriamente no debate dos projetos dos governos Lula e Dilma, é o fato de que a eleição da primeira mulher à presidência do país, seguido de dois mandatos do primeiro (ex-) operário eleito ao mesmo cargo, reforça as expectativas existentes na possibilidade de transformação da realidade política e social por parte da população, que vê ainda, de alguma maneira, o PT como um partido diferente dos partidos burgueses tradicionais. Há um nó nessa questão, como poderemos discutir mais adiante, que implica na identificação das mulheres brasileiras com esta governante, ainda que a sua eleição, simplesmente pelo fato de ser mulher, não implique no favorecimento de políticas que coloquem em xeque a realidade de violência e precariedade vivida. Continuar lendo

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De FHC a Dilma: as duas privatizações da Petrobrás

Por Daniel Tomazine e Marcello Bernardo. O primeiro é Mestre em História Social pela UFF e Técnico de Operação Pleno da Petrobras há 5 anos e foi vice-presidente da CIPA da UTE-GLB por um mandato. O segundo é graduado em Educação Física pela UFRRJ, Técnico de Operação Júnior, há 3 anos na REDUC. Ambos são membros da oposição à direção do SINDPETRO Caxias, “União na Luta”.

Quando Lula chega ao segundo turno em Outubro de 2002, a classe operária em geral sentia-se com esperança. Os Petroleiros tinham uma esperança de que navegariam em novos mares. Refiro-me à grande maioria petroleira, deixando de lado as viúvas de FHC que também contaminam a Petrobras.

Esperava-se que a empresa fosse resgatada do caos em que fora deixada; as refinarias e plataforma passariam por reformas, eliminando o sucateamento a que foram submetidas. Os empregados das subsidiárias viam uma luz no fim do túnel, a esperança de serem incorporados à matriz.

Os 8 anos de governo FHC, em sua aliança PSDB/PFL/PMDB, impuseram a TODAS as estatais brasileiras uma série de medidas “sucateadoras”. Como parte do plano de privatizações a preços baixos (e com financiamento do BNDES, não se esqueça), o governo agia em duas frentes: 1- deixava de investir em manutenção preventiva e preditiva; 2- iniciava um processo de desmembramentos das empresas enormes – chamadas de elefantes na sala desde a época de Fernando Collor e sua política de “desestatização”. Continuar lendo

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A quem serve a política habitacional do PT?

*Texto escrito por Lucas Faulhaber, arquiteto e urbanista.

A ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder executivo federal em 2003, significou uma forte esperança de que a política urbana, e a habitação de interesse social mais especificamente, entrassem na agenda de políticas públicas, vide as “conquistas” dos movimentos pela Reforma Urbana nos anos anteriores, como a Emenda 26 (2000), que incluía a moradia dentre os demais direitos sociais e a criação do Estatuto das Cidades (2001), regulamentando a política urbana expressa na Constituição.

Passados doze anos de governo do PT, podemos perceber que de fato estes temas foram colocados em pauta, e a criação do Ministério das Cidades em 2003 foi fundamental para isso. No entanto, cabe aqui a análise sobre qual projeto de cidade vem se consolidando ao longo desse tempo e se de fato este projeto condiz com a proposta da reforma urbana, a qual persiste no programa do governo, porém de forma desfigurada. Continuar lendo

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A crise e o ajuste fiscal na conta dos trabalhadores brasileiros

Valéria Lopes é professora de Sociologia do Colégio Pedro II, mestre em Serviço Social pela UFRJ, autora da dissertação “Crise do sindicalismo e crise do capital: análise crítica da luta sindical em defesa do trabalho na ordem capitalista”.

Nos anos de governo da aliança política PT/PMDB, sob o permanente assédio dos grupos patronais e do capital mundializado, seguiu sendo aprofundado o desmonte dos direitos da classe trabalhadora brasileira.

Durante os anos neoliberais de FHC, seguindo as orientações do FMI e do Banco Mundial, o Brasil foi campeão na desregulamentação dos direitos trabalhistas, tendo implementado mecanismos como o Banco de Horas e a Participação nos Lucros e Resultados (PLR), através de uma reforma trabalhista que atacou simultaneamente os três pilares de regulação: contrato, jornada e salário.

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