Tropa de elite do neoliberalismo (3): o sentido da “nova” direita

O fato de que nenhum regime político jamais realizou a totalidade do sonho neoliberal não é uma prova de sua ineficácia prática; ao contrário, foi somente porque a teoria neoliberal era tão intransigente que governos de direita puderam proceder a políticas tão drásticas: a teoria neoliberal supria, nos seus princípios, uma espécie de temário máximo em que os governos podiam escolher os itens mais oportunos, segundo a sua conveniência política ou administrativa conjuntural. O maximalismo neoliberal, neste sentido, foi altamente funcional”.

Perry Andersoni

[Na segunda parte deste artigo vimos um pouco de como se organiza internacionalmente os grupos da “nova direita” brasileira. Nesta terceira e última parte, veremos o papel que cumpre as inalcançáveis exigências neoliberais no Brasil]

Quando a atual crise econômica internacional irrompeu no horizonte, com a quebra dos grandes bancos de investimento como o Lehman Brothers, não faltaram críticos que buscassem explicar o desastre como um desdobramento da nova arquitetura que o capitalismo adquiriu nos últimos quarenta anos, quando os países mais ricos do mundo foram paulatinamente abandonando o sistema de regulação social conhecido como Welfare State para adotar o neoliberalismo e seu corolário.

Entretanto, apesar de desgastado ideologicamente, e de já demonstrados seus efeitos (motivo que levou alguns estudiosos a falarem em “pós-neoliberalismo”), em parte alguma do mundo houve adoção de políticas fora do escopo neoliberal. Isso ficou claro na recente crise econômica no sul da Europa, com a implacável “troika” (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Européia) impondo seus trágicos planos de “resgate” aos povos que, além de tudo, passam a ser taxados de “preguiçosos”, “estadólatras” etc.

A relação do neoliberalismo com o Estado é sintomática das contradições do discurso neoliberal. O Estado é malvado, malvado, malvado. Mas quando “dá xabu”, a quem se recorre para salvar os bancos? Ao Estado, que, ao resgatar os agentes financeiros, recompensa todos os comportamentos fraudulentos eventualmente cometidos por eles, mandando seu recado: continuem! Isso foi o plano de resgate dos bancos nos EUA, aprovado pelo governo americano diante da quebra dos bancos.

Para salvar o sistema, o Estado se endivida; e para se endividar, mantendo sua “confiabilidade” nos mercados para atrair investimentos, tem que tirar de algum lugar – que, “por acaso”, é sempre dos serviços públicos, como saúde, educação, transportes etc. (“Ajuste fiscal” é só um nome bonitinho pra isso).

rejane2A ideologia oficial é a de que “todos têm que fazer a sua parte”, mas, na prática, todos pagam pela crise exceto aqueles que lucram com o sistema à qual ela é intrínseca. Na verdade, não importa que a economia não se recupere com essas medidas, muito menos suas consequências sociais calamitosas. Os neoliberais são um banjo de uma corda só: Mais austeridade! Mais austeridade!

Até finais dos anos 1970, eles eram basicamente uma seita, marginalizada acadêmica e politicamente. Constituiriam um bunker no Departamento de Economia da Universidade de Chicago, desde onde empreenderam uma estratégia para influenciar setores das elites de países do Terceiro Mundo nos quais estavam sendo implementadas políticas desenvolvimentistas. Seria, aliás, o Chile de Pinochet o primeiro laboratório de aplicação do ajuste neoliberal, com a adoção da “fórmula trinitária”: desregulamentação dos mercados, privatização e corte dos gastos sociais. O segundo foi a Argentina sob a Ditadura Militar de 1976-1983. Se voltarmos a 1927 e lermos aos elogios do aristocrata Ludwig von Mises ao fascismo, veremos como a defesa de regimes fascistas e ditaduras para defender a propriedade privada não é exclusividade da Escola de Chicago.ii Não é apenas Marx, é a própria ideia de democracia o que está em jogo em movimentos como o “Mais Mises, menos Marx”.

Foi assim, sob o tratamento de choque de regimes terroristas que essas teorias da “Liberdade” fariam sua primeira aparição na História. E hoje, sob um governo do PT, temos um legítimo Chicago boy comandando a equipe econômica brasileira – indicação que recebeu os esfuziantes aplausos da grande mídia. Christine Lagarde, do FMI, é só elogios.

O neoliberalismo é uma doença auto-imune

O neoliberalismo pode ser entendido como política econômica, como teoria econômica ou, mais amplamente, como estratégia de desenvolvimento (que, como tal, pode englobar inclusive medidas “heterodoxas”). Segundo Marcelo Carcanholo, enquanto estratégia de desenvolvimento, fruto da crise estrutural dos anos 1960-1970, o neoliberalismo incluiria três componentes: a estabilização macroeconômica (controle da inflação e das contas públicas); as reformas estruturais pró-mercado, e a retomada dos investimentos privados.iii

A impossibilidade prática, no entanto, da aplicação integral do “programa” neoliberal resulta naquilo que o autor chama de caráter “auto-imune” do discurso neoliberal. Nada parece atingir esse receituário, pois seus defensores sempre podem alegar que não foi implementado completamente. Sempre que surgem crises, a resposta neoliberal é de que “faltaram reformas”, de que ainda há “muita regulação”, “muitos direitos”, “entraves” e ‘burocracias”. Ou seja, mesmo quando as políticas neoliberais claramente conduzem a desastres sociais, sempre se pode alegar que, na verdade, o programa neoliberal não foi implementado até o fim!

Essa é a funcionalidade da tal “nova” direita: pressionar o governo para a adoção de medidas que aprofundarão a saída recessiva para a crise econômica, com ataques cada vez mais profundos aos direitos trabalhadores e aos serviços públicos. Mas o pressuposto deles é de que nada que o governo fizer será o suficiente. Nem mesmo se fosse o seu “puro-sangue” tucano (frequentemente criticado por eles como fraco demais). Não há exemplo melhor disso do que a posição do Instituto Liberal sobre Levy.

Talvez seja essa a maior proeza dos neoliberais de hoje: convencer que seu programa é de oposição, enquanto ele é exatamente o que está sendo aplicado! Haja mainstream disfarçado de outsider.

Um traço “auto-imune” similar pode ser encontrado no conservadorismo das proposições repressivas, como redução da maioridade penal, e reacionárias morais, como proibição do casamento gay, contra os direitos reprodutivos da mulher etc. Enquanto não voltarmos à idade da pedra, nada satisfará os defensores da família tradicional. Para os repressivistas, nada, a não ser a morte prematura das “sementinhas do mal”, será o suficiente para a solução da violência.

Entretanto, embora os exaltados defensores da agenda moral conservadora cumpram papel muito relevante na mobilização da classe média – tal como em 1964 –, são as entidades de caráter neoliberal que têm conseguido dar a direção.

O amplo esforço para se diferenciar das viúvas da ditadura levou até o Faustão a condenar os defensores de intervenção militar no dia 12 de abril. Na cobertura do Fantástico, eles tornaram-se a “minoria de vândalos” da direita. Afinal, para os coxinhas que se pretendem sérios, não tem como não ter vergonha alheia desse pessoal que xinga o… Montesquieu. A polêmica acerca da intervenção das Forças Armadas, que separou os grupos que tiveram peso na convocação do 12 de abril, no entanto, é uma divergência tática.

Pode ser que já tenham passado os 15 minutos de fama desses grupos – vide o fiasco da “marcha pela liberdade, que, depois de alguns atropelos (sem trocadilhos), chegou a Brasília sem grande atenção da mídia no último dia 27 de maio. Mas uma coisa é clara: a direita tradicionalista e o “partido” neoliberal em formato de think-tanks e movimentos (supostamente) “espontâneos” formam uma perigosa aliança, que, com a aplicação de seu programa pelo seu (suposto) principal adversário, tende a crescer e não diminuir.

i ANDERSON, P. “Além do neoliberalismo”. In. GENTILLE, Pablo & SADER, Emir (orgs.). Pós-neoliberalismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. p. 198.

ii Sobre o assunto, ler o excelente artigo de GUIMARÃES, André Augusto. “O que está em jogo no ‘Mais Mises, menos Marx’”. Marx e o Marxismo. v.2, n.3, ago/dez 2014.

iii CARCANHOLO, M.D. & BARUCO, G.C.C. “A estratégia neoliberal de desenvolvimento capitalista: caráter e contradições”. Praia Vermelha. Vol. 21, nº 1. Rio de Janeiro: UFRJ, 2011.

Sobre Rejane Carol

Rejane Carol é historiadora, carioca de Osasco e internacionalista.
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