Olá, Senhor Comunismo!

O esloveno Slavoj Žižek é conhecido sobretudo pelas suas reflexões a respeito da ideologia, algo que eu procurei apresentar brevemente em um texto anterior, mas Žižek também possui a alcunha de “o filósofo mais perigoso do ocidente” e em grande medida isso deve-se ao fato dele ser uma voz ativa no debate político contemporâneo, ganhando bastante atenção, como no seu discurso ao movimento Occupy Wall Street, e abordando uma questão candente para a esquerda nas última décadas: “o que fazer?”. Mas que tipo de estratégia política podemos tirar de um pensador que têm entre os seus motes a ideia de que em vez de procurar agir o tempo todo devemos parar e pensar a respeito de nossa realidade contemporânea?

 

Žižek no "Occupy Wall Street"

Žižek no “Occupy Wall Street”

Capa do livro "Primeiro como tragédia depois como farsa" (Boitempo Editorial, 2011)

Capa do livro “Primeiro como tragédia depois como farsa” (Boitempo Editorial, 2011)

No livro de 2009 “Primeiro como tragédia, depois como farsa” (Boitempo Editorial, 2011), o pensador esloveno afirma que nós “devemos rejeitar qualquer noção de continuidade com o que a esquerda significou nos últimos dois séculos”; ainda que certos momentos históricos (como a Revolução Francesa, a Revolução de Outubro, e outros) permaneçam em nossas lembranças, nós devemos repensar por completo o nosso “arcabouço geral”. Mas não no sentido de abandonar o princípio de um processo revolucionário, pois o filósofo esloveno entende que o movimento revolucionário não é um processo gradual, que caminha linearmente rumo a um clímax, mas sim um movimento de repetição do princípio, uma volta constante ao ponto de partida (citando Samuel Beckett: “Tente de novo. Erre de novo. Erre melhor”).

"Comunismo"

“Comunismo”

Alinhado com o filósofo francês Alain Badiou, Žižek enxerga a “hipótese comunista” como esse ponto de partida. Entendendo a hipótese comunista não como um axioma-norma a priori, um exercício ético que pregaria a igualdade acima de qualquer outra coisa; mas como uma “referência precisa a um conjunto de antagonismos sociais reais que geram a necessidade de comunismo – a noção de comunismo de Marx, não como ideal, mas como movimento que reage a esses antagonismos, ainda é totalmente relevante”. Ou seja, a hipótese comunista deve ser entendida como uma resposta as contradições reais de nosso mundo, e não como um postulado obtido através elucubrações abstratas.

Mas isso leva a nós, da esquerda, a indagarmos sobre o espírito de nossos tempos atuais, como diz o autor: “Querem desesperadamente se engajar, mas, como não sabem fazer isso de maneira eficaz, aguardam a resposta de algum teórico. É claro que, em si, essa atitude é falsa, como se uma teoria fosse capaz de fornecer a fórmula mágica que resolva o impasse prático.” Para Žižek, o grande problema do marxismo ocidental sempre foi a espera (e a falta) de um agente revolucionário: a classe operária que nunca completa a passagem do em-si para o para-si. Mesmo no caso da Revolução de Outubro a revolução só foi possível graças à adesão camponesa, que os revolucionários procuraram cortejar aproveitando-se da insatisfação campesina naquele momento; e o mesmo pode ser dito de outras revoluções bem sucedidas, como a cubana e a iugoslava, que em momentos decisivos e extremos “cooptaram” desejos diversos. E por esse motivo também que os marxistas ocidentais buscaram outros candidatos ao longo do tempo para assumirem o posto de agentes revolucionários: camponeses do Terceiro Mundo, estudantes, excluídos, etc.

Portanto, ficamos com a ideia de que uma revolução só atinge seu ponto de ebulição “exatamente por meio de uma série de equivalências entre demandas múltiplas, uma série que é sempre radicalmente contingente e dependente de um conjunto de circunstâncias único e específico”. As revoluções não ocorreriam então quando todos os antagonismos se combinam num Grande Um, mas quando esses antagonismos diversos atuam conjuntamente e sinergicamente.

Desse modo, para nos mantermos fiéis à Ideia comunista nós precisamos encontrar em nossa realidade histórica atual “antagonismos que deem urgência prática a essa Ideia”. Segundo Žižek haveria quatro antagonismos contemporâneos:

1) Catástrofe ecológica;

2) As inadequação da noção de propriedade privada para propriedade intelectual;

3) As implicações socioéticas das novas evoluções tecnocientíficas;

4) As novas formas de apartheid (favelas por exemplo).

O autor defende que existiria uma diferença qualitativa entre os três primeiros tipos de antagonismo (privatizações das “áreas comuns” do ser social) e o quarto (a fissura social que separa os excluídos e os incluídos).  A quarta forma de antagonismo é a mais importante como veremos mais adiante.

Na foto vemos a Favela da Rocinha e do bairro de São Conrado fazendo divisa. Para Žižek a luta entre incluídos e excluídos é uma das principais formas de antagonismo de nosso mundo. Fonte: http://olinguarudo.blogs.sapo.pt/80834.html

Na foto vemos a Favela da Rocinha e do bairro de São Conrado fazendo divisa. Para Žižek a luta entre incluídos e excluídos é uma das principais formas de antagonismo de nosso mundo. Fonte: http://olinguarudo.blogs.sapo.pt/80834.html

Ainda em relação a privatização das áreas comuns, Žižek demonstra nesse ponto uma visão apocalíptica no sentido de que isso representa a possível aniquilação (autodestruição) da humanidade. O autor encara esse novo processo de cercamento (das áreas comuns agora) como um processo de “proletarização”, que exclui as pessoas de suas próprias substâncias. “Sem dúvida não devemos abandonar a noção do proletariado nem a da posição proletária; ao contrário, a conjuntura atual nos compele a radicalizá-la a um nível existencial muito além da imaginação de Marx.” É por isso que a política emancipatória viria de uma combinação de diversos agentes, e não mais de um agente social particular (a velha classe proletária), bem como teríamos a justificativa para uma luta comunista.

Mas o filósofo esloveno afirma que não basta essa visão apocalíptica para defendermos uma posição genuinamente comunista, pois as questões envolvendo as áreas comuns podem ser resolvidas num regime comunitário-autoritário, que Slavoj identifica como sendo o socialismo; nesse sistema socialista, em vez de um coletivo igualitário teríamos uma comunidade orgânica (nos moldes das experiências nazifascistas). Esse possível novo socialismo poderia vir em formatos novos como o comunitarismo, o populismo, o “capitalismo com valores asiáticos” (China), etc., sendo esta a única maneira, na visão do pensador, de a longo prazo o sistema capitalista resolver os antagonismos evitando a solução comunista. Portanto, socialismo aqui é tomado não como uma etapa anterior do comunismo, mas como seu concorrente direto. É nesse sentido que Žižek considera correto o título do livro “Adeus, sr. Socialismo”, do Antonio Negri (também responsável pela cunhagem da expressão “áreas comuns”), mas com o complemento de “e bem-vindo, camarada Comunismo!”.

Žižek também considera fundamental uma rejeição completa a qualquer ideologia que apregoe algum tipo de volta a uma unidade substancial idealizada do homem com a natureza, para o pensador “temos de nos manter resolutamente modernos e rejeitar a generalização superficial pela qual a crítica do capitalismo se transforma em crítica da ‘razão instrumental’ ou da ‘civilização tecnológica moderna’”. Em suma, é a quarta forma de antagonismo que garantiria o corte subversivo da luta anticapitalista, pois trata diretamente de uma luta por justiça e não apenas de sobrevivência (como nas três formas anteriores de antagonismo). “Se a humanidade não resolver a difícil situação ecológica, podemos todos morrer; mas podemos muito bem imaginar uma sociedade capaz de resolver os três primeiros antagonismos por meio de medidas autoritárias que não só mantenham, como fortaleçam as hierarquias, as divisões e as exclusões sociais existentes.” Portanto, o autor rejeita a ideia clássica do marxismo de que esses problemas do sistema capitalista só seriam resolvidos com a superação da luta de classes.

Vídeo  de animação da palestra do Žižek em evento da RSA, com legendas em português

Esses excluídos, ao serem “parte de parte alguma”, são representantes da universalidade. Mas como integrá-los no espaço político-social? Para o filósofo esloveno a resposta parece residir na democracia. Procurando fugir de posições que definem a democracia ou como uma farsa para a dominação de classe ou como uma distorção da verdadeira democracia, Slavoj prefere investigar a questão de “como a democracia se relaciona com a dimensão de universalidade personificada nos excluídos”. E nesse ponto entrelaça-se a posição do autor em relação ao Estado, pois para ele o foco da crítica deve ser o capitalismo (e sua autorrevolução permanente), não sendo o Estado o inimigo. Por isso que Žižek propõe dois axiomas em relação ao Estado: “(1) o fracasso da política partido-Estado comunista, é primeiramente e acima de tudo, o fracasso da política antiestatal, da tentativa de romper as restrições do Estado, de subsistir as formas estatais de organização pelas formas não representativas ‘diretas’ de auto-organização (‘conselhos’); (2) quem não tem uma ideia clara do que substituirá o Estado não tem o direito de subtrair-se/retirar-se do Estado.” Para Slavoj, a tarefa não é a destruição do Estado, mas fazê-lo funcionar de uma maneira não estatal; essa completa reconfiguração do Estado com base em novas formas de participação estatal é o que o autor chama de ditadura do proletariado.  Não é à toa que Žižek enxergasse com bons olhos a experiência chavista por considerar que Chávez estava “tomando os moradores ‘excluídos’ das favelas como base e depois reorganizando o espaço político e as formas políticas de organização para que estes ‘se encaixem’ nos excluídos”.

Como conclusão dessa apresentação, acho importante reafirmar a perspectiva do autor de abandonar por completo a ideia da existência de algum agente revolucionário escolhido pela História para atuar, pois como já exposto anteriormente os comunistas estão contra o fluxo da história. E é justamente esse fluxo histórico de orientação catastrófica que nos impele a agir, num voluntarismo puro (em termos psicanalíticos: não há grande Outro que sustente a nossa posição).

Anúncios
Esse post foi publicado em Ideologia, Política, Uncategorized e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Olá, Senhor Comunismo!

  1. Pingback: Olá, Senhor Comunismo! | GAVETA DOS GUARDADOS

Comentários

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s