Feminismo pop?

O programa Altas Horas, que foi ao ar no último dia 5, teve como tema principal a discussão sobre feminismo e machismo. Apesar do péssimo formato – que contou com a participação de convidadas famosas e com uma plateia inteiramente masculina, como se esse debate interessasse mais aos homens do que às mulheres –, até que o programa gerou uma discussão importante sobre a liberdade sexual feminina. As cantoras Pitty, Anitta e Flora Matos expuseram suas diferentes visões sobre o lugar da mulher na sociedade e chegaram a divergir em alguns pontos (o que é normal em qualquer debate).

O caso, no entanto, ganhou algum destaque como mais um desses barracos entre famosas desesperadas por atenção, que evidenciariam uma suposta rivalidade natural entre as mulheres, como se elas não fossem capazes de discordar e de argumentar racionalmente numa discussão. Essa visão também esteve presente, de forma mais sutil, nas reações de algumas mulheres que se reivindicam feministas, mas que adoraram ver a Pitty “detonando” a Anitta, por conta de suas declarações ainda fortemente impregnadas da lógica machista. Esqueceu-se do papel conscientizador que a crítica feminista deveria ter, para se assumir uma postura combativa contra uma mulher não conscientizada.

Meme do facebook, divulgado por uma página feminista.

Meme que circulou no Facebook.

A discussão sobre feminismo já tinha aparecido na Globo no programa Na Moral (do qual a cantora Anitta também participou como representante do feminismo), mas o tema voltou a pipocar na programação da emissora logo depois da performance de Beyoncé no VMA (a cerimônia de premiação mais importante da MTV) durante a qual ela fez uma significativa referência ao feminismo. No auge de sua apresentação – marcada por um figurino e por coreografias sensuais –, a cantora exibiu, em letras gigantes, um trecho do discurso de Chimamanda Ngozi Adichie (uma escritora feminista nigeriana), que foi sampleado na faixa Flawless.

Apresentação de Beyoncé no VMA 2014.

Apresentação de Beyoncé no VMA 2014.

 A atitude de Beyoncé foi recebida pela mídia como sua adesão indiscutível ao feminismo, principalmente depois que ela divulgou um artigo em que denunciava a desigualdade entre gêneros. Isso provocou um debate público sobre a legitimidade do posicionamento de uma cantora que aposta na mercantilização de sua sensualidade como uma das principais características de sua carreira e que já reproduziu, em suas músicas, padrões comportamentais e papéis de gênero baseados em relações machistas. Algumas críticas afirmaram, ainda, que o ato foi meramente comercial, com o objetivo de vender um “feminismo light”. Por outro lado, outras avaliações destacaram a importância de uma artista pop mundialmente famosa endossar a palavra “feminista”, que chegou a ser ameaçada de ser banida da revista Time e que foi publicamente rejeitada por outras mulheres famosas.

Beyoncé é um produto da indústria pop e, como tal, reproduz tendências estéticas, padrões comportamentais e valores morais dominantes (isso não quer dizer que a indústria não tenha espaço para artistas contra-hegemônicos, mas esse já é outro assunto). Sua aparência física é adaptada aos padrões de beleza do momento e algumas de suas músicas, de fato, reforçam o papel submisso das mulheres (como em Single Ladies e Naugthy Girl, por exemplo). Além disso, a ideia de que a indústria pop queira vender um feminismo menos contestador (e, por isso, mais facilmente adaptável às relações dominantes) me parece bastante plausível. Mas, apesar disso, é preciso questionar o que levou uma artista como ela a adotar tal posicionamento feminista.

Foto postada por Beyoncé.

Foto postada por Beyoncé.

Uma das coisas que contribuem para manter artistas de sucesso em evidência na mídia é a sua capacidade de dialogar com o senso comum e de antever tendências sociais que possam ser adaptadas ao padrão dominante e comercializadas em diversos formatos. Nesse sentido, a atitude de Beyoncé revela que o debate sobre feminismo se ampliou de tal forma, que passou a ser comercialmente interessante para uma artista pop.

Não concordo com a ideia de que os espaços conquistados pelo feminismo tenham atingido um patamar satisfatório, nem acho que devemos aceitar acriticamente o feminismo comercial de Beyoncé (e de outras), como se fosse a única forma viável de divulgar a luta pela igualdade entre gêneros. Contudo, é preciso reconhecer que a atitude de Beyoncé foi impulsionada por um movimento social mais amplo de afirmação do feminismo como um debate público necessário.

É claro que as tendências da indústria pop são bastante voláteis, são contraditórias e mudam numa velocidade cada vez mais alucinante. Isso significa que, em pouco tempo, o feminismo pode deixar de ser um tema comercialmente interessante e desaparecer das produções de artistas pop. É por isso que a luta feminista não deve concentrar seus esforços na tentativa de reformar a lógica de funcionamento de espaços em que predominam as relações de opressão. No entanto, num mundo em que pessoas como o deputado Jair Bolsonaro e o presidente turco Recep Erdogan têm o espaço para dizerem o que dizem (só para citar alguns exemplos mais “banais”), acredito que seja muito ruim abrir mão das oportunidades que surgem para reiterar e sedimentar o debate sobre questões sociais progressistas, como é o caso do feminismo.

De Aretha Franklin, passando por Madonna e Spice Girls até chegar em Beyoncé: todas são produtos culturais produzidos e comercializados pela indústria pop e, por isso, reproduzem, em algum nível, valores sociais machistas que reforçam a opressão feminina. Todas elas adaptaram sua aparência física aos padrões de beleza dominantes. Em alguns casos, chegaram a reforçar a objetificação da mulher. Além disso, para cada artista que adotou uma postura mais crítica aos papéis de gênero, existiram muitas outras que aceitaram e que difundiram um comportamento complacente com a submissão feminina, mesmo que, em algum ponto de suas carreiras elas tenham se “rebelado” (como Britney Spears, Christina Aguilera e Jennifer Lopez).

Mas já pensaram em como a música “Respect”, cantada por Aretha Franklin no final da década de 1960, foi importante para o empoderamento das mulheres negras? E dá para imaginar a libertação da sensualidade feminina sem a Madonna? (Lembrando que a sensualidade masculina nunca foi recriminada. Ninguém questiona, por exemplo, a expressão sexual do rebolado de Elvis Presley) E a postura e as canções das Spice Girls, que empoderavam as mulheres e que destacavam valores como a sororidade (como nos vídeos das músicas Wannabe e Holller, nos quais a aliança feminina é destacada)? E quantas pessoas saberiam do discurso de Chimamanda sem a performance de Beyoncé? Muitas vezes, esse é o primeiro ou o único contato de muitas mulheres com um discurso ligeiramente distinto.

Nos anos 1990, as Spice Girls também reivindicaram o poder feminino.

Nos anos 1990, as Spice Girls também reivindicaram o poder feminino.

As artistas citadas aqui não representam um novo feminismo e suas atitudes não devem ser tomadas como limites para a luta feminista. Os limites de seus posicionamentos devem ser evidenciados (inclusive para mostrar que o feminismo é algo muito mais profundo do que suas práticas e discursos revelam), mas a crítica precisa ser mais pedagógica, de modo que estimule mais pessoas a se reivindicarem feministas. Até porque, as estrelas pop servem de modelo para várias artistas regionais, nos quatro cantos do mundo – o que gera um efeito propagador imensurável. Inclusive, eu mesma já escrevi um texto mostrando que a cantora Anitta (que, como foi dito no começo desse texto, revelou um ranço machista muito forte em seu discurso no programa Altas Horas) tem como prática a replicação de elementos da produção de Beyoncé.

Se o feminismo foi incorporado pela indústria pop (ao menos, por enquanto), cabe a nós, feministas, a tarefa de romper os limites impostos, até o fim da opressão de gênero. E a superação da lógica de funcionamento da indústria pop certamente deve fazer parte desse processo.

Sobre Juliana Lessa

Professora, doutoranda em História, flamenguista, feminista, socialista e apaixonada por arte (especialmente por música).
Esse post foi publicado em Dossiê Feminismo e marcado , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Feminismo pop?

  1. Eu gostei muito desse texto aqui sobre a questão do feminismo da Beyoncé e de outras cantoras pop que tem essa pegada sexy: http://noisey.vice.com/pt_br/blog/beyonce-feminism-new-album

Comentários

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