Feminismo e Infância

Quem precisa de mais um texto sobre feminismo escrito por um homem, cis e hétero? Certamente não as mulheres. O texto abaixo não tem nenhuma pretensão de ensinar algo sobre feminismo às mulheres. O feminismo é das mulheres e elas são as únicas capazes de fazer avançar os debates que este traz consigo. Minha posição frente ao feminismo é de apoio e aprendizado. Como relato de uma experiência subjetiva e reflexão acerca desta, o texto abaixo pode ter algum interesse para mulheres, mas esse é necessariamente muito limitado. Para os homens, sobretudo os homens que são pais, o texto abaixo tem uma função argumentativa, um chamado à reflexão que pretende partir de premissas feministas e que tem impactos nas relações nas quais os homens se inserem cotidianamente.

Minha trajetória no feminismo está intimamente vinculada a experiência de ser pai de uma menina. Inúmeras questões que afetam mulheres desde o nascimento jamais foram questões para mim até o momento em que eu precisei refletir sobre como isso afetaria minha filha. A maior parte dessas questões permanece invisível para mim (assim como o meu privilégio) mas, conforme ela cresce e passa a estar inserida em outras relações, por meio da experiência dela essas questões passam a ter existência concreta na minha experiência.

Ora, essa trajetória só deixa explícito o quanto o meu privilégio e o quanto a dominação sobre as mulheres é, em sua maior parte, invisível para os homens. Como todos os outros homens, cresci cercado por mulheres, uma experiência que, caso eu tivesse naquele momento algum interesse em apreender, seria suficiente para dar visibilidade a algumas dessas questões. Efeitos direitos do privilégio e da dominação, o desinteresse e o conforto são cúmplices da invisibilidade desse mesmo privilégio.

Socialização
Um dos maiores produtos do desenvolvimento das ciências sociais e humanas foi o conhecimento de que nós somos seres sociais. Por essa razão, nosso desenvolvimento subjetivo é determinado (e possibilitado) pelas relações sociais em meio as quais vivemos. Nós não nascemos e crescemos em um mundo vazio, mas somos determinados pelas possibilidades que o mundo nos apresenta. Mas as relações sociais são um espaço de constante disputa e conflito. Não obstante, são as relações sociais hegemônicas (os valores sociais dominantes) que funcionam como modelos em nossa socialização. Por isso todo intento de transformação de relações sociais determinadas é tão lento e tão hercúleo.

Em seu desenvolvimento durante a infância, as crianças absorvem tudo o que se passa ao seu redor. Não se trata de um processo passivo, mas cumulativo. E o fazem de maneira explícita, demonstrando esse processo de aprendizado em todos os momentos, experimentando, acertando e errando. Uma palavra constantemente repetida perto de uma criança é rapidamente incorporada a seu vocabulário, saiba ela o significado ou não.
Da mesma forma como aprendem e internalizam determinado vocabulário, as crianças observam as relações sociais que se desenrolam ao seu redor e em relação a ela própria. Dentre as mais elementares está a forma como os gêneros são construídos e performados, i.e., as formas como homens e mulheres se relacionam ao seu redor. Em seu inerente processo de aprendizado, as crianças desenvolvem um conhecimento sobre como essas relações devem ser e as reproduzem em sua vivência cotidiana.

Uma recente pesquisa demonstrou como existe uma desigualdade de gênero no discurso de crianças em idade pré-escolar: meninos aprendem a interromper (sobretudo meninas), e meninas aprendem a silenciar (sobretudo na presença de meninos). Se o machismo e a misoginia são relações sociais, nossas crianças nascem e crescem em meio a essas relações. Em um processo de aprendizado constante, reproduzem as relações que encontram em funcionamento no mundo. Em um segundo momento, são capazes de criticá-las, mas as pressões pela normatização são imensas. Montserrat Moreno, no sintético “Como se ensina a ser menina“, pesquisou como a escola é uma instituição fundamental na internalização dessas relações.

Produtos Culturais
Talvez o âmbito mais explícito e mais socialmente generalizado no qual isso ocorre sejam os produtos culturais (filmes, televisão, propaganda, brinquedos etc). De maneira geral e em relação ao tema que nos interessa aqui, a consequência imediata da vivência da criança em meio a esses produtos culturais é o desenvolvimento e propagação de modelos de gênero e das relações entre estes. Assim, grupos de afinidade são formados e definidos primariamente por gênero: os brinquedos “de menino” e os brinquedos “de menina”, os filmes “de menino” e os “filmes de menina” etc.

Dialeticamente, produtos culturais e modelos de gênero se interrelacionam: os brinquedos de menino são definidos assim porque são preferidos por meninos, mas os meninos preferem esses brinquedos porque deles se espera (e neles se constrói) essa preferência.

Recentemente minha filha, Catarina (4 anos) – como todas as meninas da idade dela, uma grande fã da franquiaPrincesas Disney” –, assistiu uma animação chamada “Carros”. Como, para minha surpresa, o filme despertou o interesse dela, assisti com ela a sequência da animação, “Carros 2”. Uma vez que o interesse aumentou – expresso por inúmeras conversas sobre os carros velhos serem malvados, sobre “velho” e “antigo” com sinônimos e das incontáveis vezes que ela apontou um carro na rua para dizer que parecia com algum personagem do filme -, resolvi dar o passo seguinte e assistimos também as animações “Aviões” e “Aviões 2”).

Subitamente, os carrinhos de brinquedo que estavam guardados no armário desde que ela tinha 2 anos se tornaram um dos brinquedos favoritos. Corridas são coisas muito importantes agora, assim como a ética dos vencedores e perdedores. As barbies ainda são um dos brinquedos favoritos, mas várias vezes funcionam como a plateia da corrida. O ápice disso foi inesperado. Catarina um dia perguntou: “minha próxima festa de aniversário pode ser dos Carros e Aviões?”.

Carros (2006)

Tendo recebido uma resposta positiva, ela resolveu dividir a notícia com os amigos da escola. Que a resposta desses, quase unânime, tenha sido que “Carros é um filme de menino!” não significa, necessariamente, que estão repetindo o discurso exato de algum adulto. Ainda que essas crianças nunca tenha ouvido um adulto dizer isso, esse é um conhecimento que elas adquiriram em sue processo de socialização. A quase unanimidade da reação significa que esse é um mundo no qual “Carros” realmente é um filme de menino. Essas fronteiras não são criadas pelas crianças, mas reproduzidas fielmente: foi isso que elas aprenderam desde muito cedo, e aprenderam bem.

Resistência
Em uma situação dessas, o que fazer? A única posição possível é a resistência, mas não de maneira tímida: é necessário desenvolver uma crítica que recoloque o problema. Não basta dizer que “Carros é um filme para meninos e meninas” ou que “não existem brinquedos para meninos e brinquedos para meninas, todos podem brincar com qualquer brinquedo”. É necessário que a criança desenvolva ela mesma a crítica desses pressupostos. Esse conhecimento original, adquirido pela criança em seu processo de socialização, precisa ser contestado pela própria criança. Aos pais compete dar início a esse processo, incentivar o desenvolvimento da crítica e apresentar as perguntas iniciais. O resultado, na maior parte das vezes, surpreende.

Que a Catarina tenha internalizado esse novo conhecimento (que “Carros” podem sim ser o tema da festa de aniversário de uma menina) não deve causar nenhum otimismo ingênuo: os colegas de escola continuam acreditando (sabendo!) que “Carros” é para os meninos (assim como as bonecas são para meninas); os pais dos colegas também compartilham dessa crença e, no limite, em poucos meses ela pode perder o interesse que existe agora e, sem esse incentivo, reassumir a posição normal (no sentido da norma, i.e., o padrão dominante), que é, já vimos, extremamente poderosa.

Em um panorama tão desanimador, qual é o sentido de todo esse esforço? O machismo mata e vai continuar matando. O sexismo é reproduzido pela Escola e assim continuará. “Carros” é um filme para meninos e, a despeito do interesse da Catarina pelo filme, continuará sendo. Contudo, dois resultados, por menor que sejam, são fundamentais: ainda que tenha afetado um grupo muito pequeno, uma menina disse que gostava muito do filme “Carros”. É evidente que não foi a única, mas talvez tenha sido a primeira a dizer isso para aquelas pessoas específicas. A ideia de que meninas também podem gostar de “Carros”, por mais absurda que continue sendo, é agora real: “aquela menina gosta de Carros!”. Além disso, e esse é o resultado fundamental, essa menina passou por um processo de aprendizado que, por mais que ela não compreenda, foi radicalmente diferente do aprendizado que ela construiu então: trata-se da percepção de que ela pode discordar daquilo que o mundo diz para ela, que “certo” e “errado” são noções em constante construção e que, em alguns casos, o que dizem que é certo pode não ser. O desenvolvimento da crítica como aprendizado fornece para ela uma nova lente com a qual ver o mundo: esse outro mundo pode ser menos machista, menos sexista e mais igualitário.

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Sobre Paulo Pachá

Mestre em História pela UFF. Professor, comunista e medievalista.
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