Pre-pa-ra, que é hora de conhecer a estética de Anitta

Se você interage minimamente com o mundo ao seu redor, então você já deve ter escutado – algumas vezes – os versos que serviram de inspiração para o título desse texto: “Pre-pa-ra/ Que agora/ É a hora/ Do show das poderosas!”. Trata-se de “Show das Poderosas” – o maior sucesso da cantora pop Anitta, que contribuiu decisivamente para que sua carreira se nacionalizasse, em 2013. A moça começou a fazer algum sucesso em 2010, depois de ter sido “descoberta”, em 2009, pelo DJ Batutinha, da equipe de som Furacão 2000. Ela postava vídeos no YouTube fazendo cover da cantora Priscila Nocetti e Batutinha sugeriu que ela participasse da seleção de novos Mc’s promovida pela equipe. Larissa Machado (seu nome verdadeiro) foi contratada e já no ano seguinte participou do DVD “Armagedon”, lançado pela mesma equipe que a contratou, cantando “Eu vou ficar”. Nessa época, Batutinha e ela trabalharam juntos em algumas músicas e ela compôs “Menina Má”, que chegou a ficar entre as mais pedidas das rádios cariocas. Depois disso, já em 2012, Larissa foi contratada pela empresária Kamilla Fialho (ex-representante do cantor Naldo), que resolveu apostar no seu potencial. Fialho não só pagou a recisão do contrato de Larissa com a Furacão 2000, como também pagou, do próprio bolso, a produção do videoclipe da música “Meiga e Abusada”, gravado em Las Vegas e dirigido pelo mesmo diretor de clipes da Beyoncé. Fialho também patrocinou a mudança no visual de Larissa que, além de alisar o cabelo, afinou o nariz e botou silicone nos seios.

Capa do cd de Anitta

Anitta – Capa do cd

Desde que foi contratada por Kamilla Fialho, Larissa passou a contar com uma produção de qualidade e com um grande aparato propagandístico, que lhe abriram as portas do mercado fonográfico nacional. Com o vídeo gravado em Las Vegas fazendo sucesso na internet, Fialho começou a ser procurada pelas gravadoras, que se interessaram pelo potencial da cantora. Em janeiro desse ano, ela assinou contrato com a Warner Music e, em maio, “Meiga e Abusada” foi incluída na trilha sonora na novela “Amor à Vida”, da rede Globo. Larissa ganhava projeção nacional, mas ainda não tinha músicas suficientes para gravar um CD. Foi então que a gravadora montou um grupo de trabalho que, com a participação ativa da cantora, escreveu e produziu mais algumas músicas. Nesse momento, ela compôs sozinha “Show das Poderosas” e “Tá na Mira”. A gravadora quis lançar um single de “Tá na Mira”, mas Larissa preferiu “Show das Poderosas”, cujo videoclipe ultrapassou 10 milhões de visualizações no mês de estreia no YouTube. Daí para frente, ela começou a aparecer em diversos programas de televisão e a fazer shows nas melhores casas noturnas brasileiras. Em agosto desse ano, foi noticiado, ainda, que ela irá apresentar um programa na rede Globo, em 2014, junto com outros cantores como Paula Fernandes, Luan Santana, Naldo e Thiaguinho. O programa se chamará “Sacode” e irá substituir o “Esquenta”, de Regina Casé.

Eu tomei conhecimento de Anitta ouvindo algumas de suas músicas nas rádios, mas confesso que só passei a prestar mais atenção em sua carreira depois que “Show das Poderosas” tocou várias vezes nos programas de funk das emissoras cariocas. Isso me fez perceber que ela iria durar mais do que um verão. Resolvi, então, tentar entender o que contribuiu para o seu sucesso.

Inicialmente, Anitta era anunciada como uma cantora de funk, sendo apresentada, inclusive, como Mc. É certo que as músicas dos tempos de Furacão 2000 tinham um quê de funk melódico, mas sem o mesmo peso do som do tamborzão – exceto, talvez, por “Eu Vou Ficar”. Na verdade, eu achava “Meiga e Abusada” uma versão mais pop de Perlla, ou uma versão mais funk de Kelly Key. Eu não conseguia me decidir se achava aquilo um pop “mais encorpado” ou um funk com uma sonoridade fraca (sem o tamborzão). Além disso, achei os efeitos na voz e os gemidinhos tão coisas dos anos 2000… Até aí nenhum grande problema, mas a insistência da mídia em vendê-la dessa forma começou a me incomodar, pois, nessa época, havia diversos outros artistas do cenário funk que eu considerava muito mais criativos e originais, como a Valesca Popozuda, o Bonde das Maravilhas, o Mc Nego do Borel e o Mc Magrinho, por exemplo. Foi aí que eu percebi a grande diferença entre esses outros artistas e Anitta. Enquanto os outros são negros, ela possui os traços característicos de uma pessoa considerada branca, como nariz fino, cabelos lisos e pele clara – mesmo que à custa de intervenções cirúrgicas e de tratamentos de imagem. Além disso, suas músicas possuem uma sensualidade que não ultrapassa os limites impostos pela moral machista e misógina dominante na nossa sociedade. Ela usa roupas provocantes, mas nada muito extravagante; ela dança de forma sensual, mas não de um jeito tão erotizado que possa chocar os cidadãos de bem; ela possui um discurso que, supostamente, valoriza as mulheres, porque reafirma o seu papel ativo na relação a dois, mas faz isso sem abordar explicitamente o desejo sexual feminino, como faz a Valesca.

Assim como Anitta, o Bonde das Maravilhas também começou a fazer sucesso por meio de vídeos caseiros no YouTube. Contudo, enquanto as meninas do Bonde apareciam nas lajes de suas casas na favela, elaborando coreografias inacreditáveis, Anitta foi selecionada por Batutinha por meio de um vídeo em que ela aparecia em sua casa, em Honório Gurgel, fazendo cover da Priscipla Nocetti, ou seja, sem mostrar nada de novo. Batutinha até pode ter visto nela algum potencial, mas sua apresentação no show de gravação do DVD “Armagedon” mostra que ela não empolgava muito a plateia. Então, por que Kamilla Fialho preferiu contratar Anitta e não o Nego do Borel, por exemplo? A razão é que, ao contrário dos artistas citados anteriormente, Anitta se encaixa mais nos padrões estéticos e morais impostos pela indústria cultural, como explica esse texto aqui. A maior facilidade com que ela poderia se adaptar às características físicas de uma pessoa branca e de classe média certamente contou a seu favor. Reunindo todas essas características, Anitta se tornou um produto altamente vendável por meio das mais diversas mídias (rádio, televisão, internet, propagandas etc), já que ela possui um forte apelo popular, ao mesmo tempo em que se encaixa nos padrões estéticos e morais dominantes.

O antes e o depois de Anitta

Antes e Depois. Fonte: Blogueiras Negras

Não quero dizer que Larissa seja alguém sem nenhum talento. Acho até que ela tem uma voz bacana, que poderia ser explorada num projeto pop mais original e com uma estética melhor definida. Até aqui, ela mostrou que possui uma ótima visão de mercado, ao fazer as escolhas corretas para fazer deslanchar sua carreira. Mas, ainda assim, não consigo perceber criatividade artística em suas produções. A tentativa de se internacionalizar, desde o início – com o clipe de Las Vegas e a decisão de incorportar influências da música pop estadunidense (de Beyoncé, Pussycat Dolls, Rihanna etc) – resultou num trabalho artificial e sem originalidade. Artificial porque se apresenta como um funk elitizado e mais clean – o que leva à perda de sua identidade rítmica. Isso sem contar que o disco faz uma verdadeira miscelânia de estilos, com o objetivo de atingir o público mais amplo possível (tem até um reggaezinho, de leve, na faixa “Zen”). E pouco original porque ela simplesmente imita as referências pop que escolheu, como mostra esse vídeo. Isso ainda poderia ser válido, caso ela somasse novos elementos, a partir de uma leitura própria de suas referências nacionas e internacionais. Contudo, até o momento, ela apenas replicou uma fórmula pré-existente e criou poucas coisas novas.

Anitta faz propganda da Olla

Anitta faz propaganda da Olla

Não creio que o papel de todos os artistas seja sempre o de revolucionar os padrões artísticos de seu tempo – isso seria impossível. Mas entendo que a produção artística envolve, necessariamente, um mínimo de “pessoalidade”, no sentido de deixar transparecer um toque particular de cada artista. É essa “pessoalidade” que falta no projeto Anitta. Por enquanto, ela me parece ser um produto muito bem fabricado pela indústria cultural, com a sua própria ajuda. É claro que aqueles outros artistas que citei também devem ser considerados produtos da indústria cultural, posto que seu poder de massificação de padrões estéticos comprometa, até mesmo, o potencial criativo daqueles artistas que ainda não se inseriram na cadeia produtiva de mercado ou daqueles que procuram atuar fora desses padrões. Entretanto, penso que esses outros artistas oferecem, ao menos, seus próprios matizes estéticos. É uma pena que seu potencial criativo esteja encoberto por uma nuvem de preconceito racial, de classe e de gênero, que se expressam, também, em atitudes elitistas da própria Larissa, como naquela vez em que ela afirmou que só uma pessoa pobre poderia ter acertado nela uma latinha de cerveja. É, Bárbara… Parece que a interseccionalidade pode ser, mesmo, uma ótica interessante para analisar as diversas formas de opressão.

Epílogo:

Em julho, publiquei um texto aqui no blog sobre a carreira de Marcelo D2, que discutia o papel da indústria cultural nas suas criações. O texto proporcionou um bom debate e, num dos comentários, eu disse que o D2 não pode ser considerado um “produto passivo”da indústria cultural, porque ele nos oferece uma leitura particular dos ritmos com os quais trabalha, além de manter um discurso minimamente crítico da realidade e da mesma cadeia produtiva da qual ele faz parte (a contradição entre a prática e o discurso é tema para outro texto). O que eu queria dizer, com essa expressão, é que, embora a indústria cultural imponha um limite ao potencial criativo e questionador das criações artísticas das quais se apropria, essa mesma indústria também oferece uma via para a difusão de ideias que não se encaixam totalmente no padrão estético dominante. A grande questão colocada para os artistas que aceitam entrar na lógica de mercado seria justamente saber identificar a linha tênue entre usar a indústria, para que sua arte dialogue com um público mais amplo, e ser usado por ela para reforçar os padrões estéticos pré-existentes. É claro que se inserir nas relações de produção da indústria cultural significa reproduzir, em algum nível, os padrões pré-existentes. Por isso, aqueles artistas que fazem essa escolha devem ter consciência dos limites de seu trabalho. Eu sei que não dá para transformar o senso comum sem dialogar com ele, mas isso não significa aceitar toda a carga de fetichismo proporcionada pelas engrenagens da indústria. No dia 23 de Novembro, fui ao Circo Voador assistir a um show da turnê “Nada Pode me Parar”, de Marcelo D2. Tinha até uma loja, com vários produtos para os quais ele faz propaganda. Parece que eu tive a resposta para a pergunta com a qual terminei aquele meu texto de julho.

Textos relacionados:

“O Rap de Marcelo D2 e a Indústria Cultural”, de Juliana Lessa;

“A pussy e o poder: Valeska Popozuda, Cultura Popular e o Marxismo”, de Bárbara Machado.

“Um marxismo interseccional é possível? Pontapé inicial para um debate”, de Bárbara Machado.

Sobre Juliana Lessa

Professora, doutoranda em História, flamenguista, feminista, socialista e apaixonada por arte (especialmente por música).
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3 respostas para Pre-pa-ra, que é hora de conhecer a estética de Anitta

  1. Apenas mil Anittas penduradas pelos supermercados Mundial enquanto eu faço compras de mês, enquanto ouço o jingle “Prepara que agora é hora de ofertas poderosas!” rs

    E fiquei feliz com a referência no fim do texto, êêê, valeu, Ju!

    Tem outro aspecto que uma vez até comentei contigo que pensava em abordar num texto que é o conteúdo das letras de funk cantado por mulheres que têm feito sucesso. Tem um tema recorrente que é o “recalque” das outras mulheres, uma ênfase muito grande na inveja “das inimigas”. Tem um corte de gênero específico, não é uma disputa entre bondes, mas uma disputa entre mulheres. Na Anitta isso aparece no “Expulsa as invejosas” e tudo mais no Show das Poderosas. Acho que é um assunto que dá pano pra manga: por que será que isso ganhou tanto espaço no funk? No hip hop (onde há aparentemente bem menos mulheres, é verdade) não vejo isso.

  2. Maristela disse:

    Talvez porque a cultura do funk é mais capitalista, sensualizada, exibicionista, de ostentação e de poder, já o hip hop expressa uma cultura mais contestadora das questões raciais e sociais, apesar de não ser um movimento político da questão racial. E, de fato ainda é um espaço que tem poucas mulheres, mas as poucas que tem são 10. Mas concordo com você que o assunto pode dar pano para manga, como também discutir o machismo tanto no funk como no hip hop seria interessante!!!

  3. Pingback: Feminismo pop? | Capitalismo em desencanto

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