O que ainda resta de Junho… Uma análise das Jornadas, dois anos depois

Em junho de 2013, milhões de pessoas saíram às ruas de todo o Brasil para lutar contra o aumento das tarifas nos transportes públicos. Os atos começaram pequenos nas principais capitais do país, mas cresceram num ritmo intenso, chegando a atingir uma dimensão nacional. E conforme mais gente aderia aos movimentos, diversas reivindicações acabaram sendo incorporadas à pauta das manifestações, que deixou de se limitar à redução das passagens. Mas, ao contrário do que se chegou a afirmar, as Jornadas de Junho não devem ser vistas como mobilizações inesperadas, espontâneas ou como meros produtos das interações sociais nas redes internéticas.

Ato na cidade do Rio de Janeiro - 17/06/2013

Ato na cidade do Rio de Janeiro – 17/06/2013

Historicamente, o reajuste das tarifas nos transportes públicos sempre provocou intensas reações populares. Em diversas ocasiões, a população enfurecida pelas más condições do serviço ou pelo aumento das passagens depredou coletivos e realizou quebra-quebras pela cidade, assim como o ocorrido em 2013. As Jornadas de Junho se inserem, portanto, numa tradição mais antiga de luta por melhores condições nos transportes públicos. Além disso, essa questão é um aspecto muito sensível nas condições de vida da população (especialmente para suas parcelas mais pauperizadas).

Em certo sentido, as reivindicações que se somaram a essa luta evidenciaram uma grande insatisfação popular com o modelo de desenvolvimento implementado pelos governos do PT desde 2003. Até então, uma das bases desse modelo foi a elevação dos níveis de consumo de alguns setores da classe trabalhadora. Isso foi feito por meio da ampliação de postos de trabalho que pagavam até 1,5 salário mínimo (que também passou a ter um reajuste anual mais elevado), das políticas de transferência de renda (Bolsa Família), da redução das taxas de juros (o que permitiu uma maior oferta de crédito consignado), dentre outras medidas.

Apesar de ampliar as possibilidades de consumo dessas parcelas da população, tal modelo não promoveu uma mudança efetiva em sua posição na hierarquia social, já que outros aspectos importantes de suas condições de vida permaneceram inalterados. O acesso à moradia digna continuou restrito a uma ínfima parte da sociedade, pois a principal política nacional de habitação foi insuficiente para suprir o déficit histórico. A precarização dos serviços públicos manteve sua inserção social em níveis dramáticos. E, desde que os efeitos da crise econômica mundial de 2008 começaram a se manifestar no Brasil, a inflação e a falta de perspectivas de melhoria de vida para uma geração que cresceu numa situação de relativa prosperidade contribuíram para o desgaste do modelo.

Nesse cenário, os atos contra o reajuste nas tarifas dos transportes públicos possibilitaram o transbordamento das insatisfações populares para além de sua pauta inicial. Elementos significativos de nossa estrutura social passaram a ser questionados pelos manifestantes. Vieram à tona muitas críticas à qualidade dos serviços públicos (educação e saúde), aos gastos de dinheiro público com a realização dos mega-eventos esportivos e a um tipo de planejamento urbano hierarquizado e mercantilizado.

Cartaz que propõe reivindicações para além da redução das passagens.

Cartaz que propõe reivindicações para além da redução das passagens.

Apesar de tantas reivindicações, as Jornadas de Junho não promoveram transformações sociais efetivas. O afastamento entre os setores politicamente mais organizados da população trabalhadora e a grande massa de manifestantes (composta por uma juventude que cresceu entre os anos 1990/2000 e que não viveu a experiência de grandes mobilizações populares) dificultou a articulação política entre os diferentes coletivos que levaram suas demandas aos atos.

As disputas fratricidas entre os grupos políticos progressistas – que se digladiaram, tentando capitanear os movimentos, enquanto a reação conservadora avançava – contribuíram para reforçar seu afastamento em relação aos manifestantes não organizados politicamente. Isso sem contar que não houve, por parte de muitos grupos organizados, uma reavaliação de suas formas tradicionais de atuação, que seria necessária para uma tentativa de reaproximação de sua bases sociais.

Diante dessas contradições, a atuação da mídia empresarial e de outros grupos defensores da atual ordem social (organizados politicamente ou não) conseguiram, em alguma medida, pautar os movimentos de rua, imprimindo seus próprios interesses políticos. Paralelamente, esses grupos buscavam desviar o foco dos protestos para questões com menor potencial de transformação social. Assim, reivindicações genéricas (combate à corrupção, crítica à PEC 37) passaram a ser enfatizadas pela grande mídia, que acrescentou, ainda, uma boa dose de nacionalismo no embalo da Copa das Confederações.

Cartaz contra a PEC 37

Faixa contra a PEC 37

Por último, a repressão policial aos manifestantes – que, desde os primeiros atos se mostrou extremamente agressiva e autoritária, com muitos casos de agressões gratuitas, prisões ilegais, fraudes etc – atingiu níveis alarmantes no dia 20 de junho e no dia da final da Copa das Confederações. Sempre a pretexto de reprimir os excessos cometidos por uma suposta minoria de vândalos, as forças de repressão agiram, na realidade, contra todas as pessoas que decidiram se posicionar publicamente contra a ordem social, usando um armamento pesado e estratégias muito violentas de cerco e prisões. Isso certamente contribuiu para afastar muitos manifestantes das ruas.

Ação policial contra manifestantes, na final da Copa das Confederações

Ação policial contra manifestantes, na final da Copa das Confederações

Hoje, a perspectiva para o cenário político dos próximos anos não é lá muito animadora, como atestam o avanço de pautas conservadoras (redução da maioridade penal, reforma política, estatuto da família) e a retirada de direitos trabalhistas. Mas, ainda assim, o remelexo político proporcionado pelas Jornadas de Junho impulsionou a eclosão de outras mobilizações, como as inúmeras greves que ocorreram em todo o território nacional. Sem contar que questões sociais importantíssimas passaram a ter uma visibilidade muito maior, tais como:

* O direito à cidade – questionou-se um modelo de crescimento urbano mercantilizado e elitizado;

* Tarifa zero! – muitas críticas foram feitas a um sistema de transporte coletivo precário, custoso e gerido de acordo com os interesses das empresas de transporte;

* Não vai ter Copa!/Na Copa vai ter luta! – a utilização de grandes somas de dinheiro público na realização de grandes eventos esportivos foi muito questionada. Argumentou-se que o país tem outras prioridades, como a melhoria dos serviços públicos;

* Poder Popular! – foi apontada a necessidade de se pensar novas formas democráticas de participação política (institucionais ou não), que estejam baseadas em princípios mais horizontalizados e menos burocratizados;

* Desmilitarização Já! – destacou-se que as polícias, para além de representarem o braço armado daqueles que defendem a atual organização social, sempre atuaram de maneira brutal contra as parcelas mais pobres da população trabalhadora, como os moradores de favelas.

Junho mostrou que existe um grande desejo de transformação, que tem origem numa sensível insatisfação popular com a atual estrutura social hierarquizada. É preciso que os setores políticos que são historicamente comprometidos com essa transformação repensem suas formas de ação política, para que possam se reaproximar de suas bases sociais. Além disso, é importante que esses grupos busquem estabelecer laços de solidariedade entre si, para que sua capacidade de intervenção seja mais decisiva nesse cenário de disputa.

Sobre Juliana Lessa

Professora, doutoranda em História, flamenguista, feminista, socialista e apaixonada por arte (especialmente por música).
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