Sob qual democracia vivemos?

* Texto escrito por Ivan Martins, Lucas Hipólito e Marco Pestana.

O Congresso e o povo.

O Congresso e o povo.

A cada dois anos somos convocados a contribuir, por meio do depósito de votos digitais em urnas eletrônicas, para o fortalecimento de nossa galardoada democracia, nascida com a missão histórica de nos salvar do terror que envolveu o Brasil ao longo dos 21 anos de ditadura empresarial-militar entre 1964 e 1985. Entretanto, a cada nova convocação para a festa maior da democracia, nos deparamos com um insípido e limitado cardápio, em que as principais opções se reduzem a variações de algo que já experimentamos e não gostamos. Mesmo nos intervalos entre cada minguada porção de ração democrática bienal, cresce vertiginosamente a indisfarçável sensação de que a realidade cotidiana não corresponde ao idílico quadro de redenção e consolidação democrática do país. Assim, torna-se cada vez mais evidente que nem mesmo a onipresente cortina de fumaça lacrimogênea é capaz de seguir ocultando a pergunta que teima em se apresentar a cada esquina: sob qual democracia vivemos? Continuar lendo

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Eleições: o boicote, o voto nulo e o projeto revolucionário

*Texto escrito por Adolpho Ferreira a convite do Tim Marx.

Estamos às vésperas de novas eleições. Este momento tem grande importância para o debate mais aprofundado da conjuntura, da luta de classes, do Estado burguês, dos princípios de luta e da prática das organizações políticas no movimento da classe trabalhadora. No entanto, é necessário o questionamento sobre a forma de atuação diante das eleições da democracia burguesa. Como dizia Brecht, “nada deve ser natural”: a participação nas eleições não deve ser algo naturalizado para aqueles que lutam pela transformação profunda da sociedade.

O debate sobre a participação ou não nas eleições, sobre o voto nulo e o boicote às eleições, não é novidade na teoria revolucionária. São formas de atuação legítimas dos trabalhadores diante das eleições, sempre precedidas de avaliação da conjuntura e do movimento da classe trabalhadora. Desta forma, as questões que devem orientar a atuação dos revolucionários neste período eleitoral são: qual posição faz a luta de classes avançar mais a nosso favor? Que ação ou que propaganda deve ser realizada para fazer a consciência de classe avançar mais e, assim, favorecer a organização e a luta da classe trabalhadora? Continuar lendo

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Não me convidem pra essa festa pobre!

“Se votar mudasse alguma coisa, era proibido!” Sabedoria popular

Participação especial de Raphael Motta

Então é isso: depois da nossa linda festa do futebol, outubro tá aí, anunciando uma linda festa da democracia! Parece que o Superior Tribunal Federal fez algum pacote promocional com o Governo da Bahia e já vimos Carlinhos Brown, Daniela Mercury e Bell Marques nos chamando, super felizes e confiantes, para este “carnaval”!
vem-pra-urnaAo contrário do que tais anúncios e outros tantos meios de comunicação tentam nos vender, esse carnaval não vai ser colorido, não vai ser plural, não vai ser surpreendente e transformador como prometem ser os carnavais de fevereiro ou aquelas tais manifestações que insistem em não acabar. Essa festa vai ser bege, vai ser matinê, sem álcool, com hora para acabar e para terminar, bem marcada, regrada e delimitada.
Calma, calma, caro leitor! Não vou defender aqui o voto nulo (outro artigo vai), nem vou dizer que se é assim, que nos vendamos logo a essa política baixa e votemos apenas nos menos piores. O que eu quero defender aqui é: não, eleições não são a essência da festa da democracia; democracia é muito, mas muito mesmo, mais complexo do que uma simples urna. Continuar lendo

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A esquerda sem futuro

Tem-se a impressão de que a esquerda está imobilizada, no nível da teoria e por conseguinte no da prática, pela ideia de que deve ficar o tempo todo revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação. É melhor olhar para o pescrai e o maruflicchio com ironia infinita – uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro – do que apostar em uma política fundada, mais uma vez, em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador.” (T. J. Clark, Por uma esquerda sem futuro, pp. 18-19)

A multidão de terracota prestes a ressurgir.

A multidão de terracota prestes a ressurgir.

No começo de 2012, logo após, portanto, um ano em que viu-se reaparecer movimentos de massa em várias partes do mundo, um artigo escrito por um veterano crítico de arte ventilou polêmica nos meios da esquerda, especialmente a europeia e americana, mas sem deixar de alcançar nossas paragens (traduzido em tempo recorde para o português e lançado em livro pela Editora 34). Não era pra menos, uma vez que o artigo era, de fato, uma peça de polêmica aberta, um ensaio-manifesto cujo objetivo era propor uma reorientação estratégica de como a esquerda deveria se pensar e se apresentar na arena política mundial. E justamente por se dedicar à consideração e crítica de um elemento fundamentalmente cultural da tradição da esquerda, não poderia deixar de ser fonte de algum escândalo. A tese de T. J. Clark, o autor de tal artigo, era de que, para que pudesse se reinventar e se por novamente à altura dos desafios do nosso tempo, a esquerda deveria romper uma antiga aliança, entre ela e o futuro. Continuar lendo

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Olá, Senhor Comunismo!

O esloveno Slavoj Žižek é conhecido sobretudo pelas suas reflexões a respeito da ideologia, algo que eu procurei apresentar brevemente em um texto anterior, mas Žižek também possui a alcunha de “o filósofo mais perigoso do ocidente” e em grande medida isso deve-se ao fato dele ser uma voz ativa no debate político contemporâneo, ganhando bastante atenção, como no seu discurso ao movimento Occupy Wall Street, e abordando uma questão candente para a esquerda nas última décadas: “o que fazer?”. Mas que tipo de estratégia política podemos tirar de um pensador que têm entre os seus motes a ideia de que em vez de procurar agir o tempo todo devemos parar e pensar a respeito de nossa realidade contemporânea?

 

Žižek no "Occupy Wall Street"

Žižek no “Occupy Wall Street”

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A Copa das Críticas

Texto enviado ao blog pelo colaborador Alexander Englander

No início da tarde de hoje fui pedalar em Copacabana, como fiz algumas vezes durante essa Copa. Torcedores de diversos países perambulavam pelo calçadão. Pensando retrospectivamente acho que esse foi um modo que eu encontrei de participar da maior festa popular do futebol sem prestar nenhum tipo de apoio à Fifa, instituição que eu repudio de todo.  Pouco depois do Copacabana Palace um grupo de uns 50 argentinos cantava gritos de torcida e aglomerava brasileiros em sua volta. Saltei da bicicleta e fiquei ali observando uma animação que eu me acostumei a compartilhar em um Maracanã que já não existe mais. Logo em seguida ainda tive a honra de ser cumprimentado pelo inusitado Papa Don Diego de la gente. Foi a cereja do bolo, decidi ficar pela praia mesmo e assistir a final no telão do Fifa Fan Fest. Mas do lado de fora.

Ao contrário da falta de criatividade da embranquecida torcida brasileira que esteve nos estádios, a empolgação da torcida argentina na praia estava contagiante. Copacabana estava tomada pelos seus belos cantos quando Higuaín perdeu aquele gol feito eu me vi reclamando e torcendo junto com os hermanos. Eles eram a grande maioria na praia, mas também haviam mexicanos, colombianos, chilenos, noruegueses e brasileiros apoiando os nossos chamados “arquirrivais”. Se torcida ganhasse jogo, eu garanto, certamente eles seriam os campeões e a taça teria ficado nos solos de nuestra querida América Latina. Mas prevaleceram a competência tática e a evolução técnica do futebol coletivo da Alemanha. O craque do time alemão não é o atacante Müller nem o goleiro Neuer, é o espírito coletivo, é o time como um todo. E além de jogarem o futebol mais dinâmico da contemporaneidade eles ainda contaram com a sorte própria dos campeões. Que sirva de lição para o futebol brasileiro, porque nós podemos unir aplicação tática coletiva com habilidades individuais muito mais refinadas do que a dos alemães. Continuar lendo

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Gramsci sobre a Legalidade

LEGALIDADE

Antonio Gramsci,

Socialismo e Fascimo. L’Ordine Nuovo 1921-1922.

Até onde vão os limites da legalidade? E que momento deixam de ser respeitados? É certamente difícil fixar qualquer limite, dado o caráter bastante elástico que assume o conceito de legalidade. Para qualquer governo, toda ação que se manifesta no campo da oposição contra ele supera os limites da legalidade. Contudo, pode-se dizer que a legalidade é determinada pelos interesses da classe que detém o poder em cada sociedade concreta. Na sociedade capitalista, a legalidade é representada pelos interesses da classe burguesa. Quando uma ação busca atingir de algum modo a propriedade privada e os lucros que dela derivam, tal ação se torna imediatamente ilegal. Isso é o que ocorre no plano da substância. No plano formal, a legalidade se apresenta de modo diverso. Já que a burguesia, ao conquistar o poder, concedeu igual direito de voto ao patrão e seu assalariado, a legalidade foi aparentemente assumindo o aspecto de um conjunto de normas livremente reconhecidas por todos os segmentos de um agregado social. Houve então quem confundisse a substância com a forma, dando assim vida à ideologia liberal-democrática. O Estado burguês é o Estado liberal por excelência. Nele, todos podem expressar livremente seu pensamento através do voto. Na verdade, no Estado burguês, a legalidade reduz-se a isto: ao exercício do voto. A conquista do sufrágio pelas massas populares apareceu aos olhos dos ingênuos ideólogos da democracia liberal como a conquista decisiva para o processo social da humanidade. Jamais se levou em conta que a legalidade tem uma dupla face: uma interna, a substancial; outra externa, a formal. Continuar lendo

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Questionamentos sobre a perseguição a ativistas do Rio de Janeiro

Abaixo seguem referências factuais e considerações sobre a atuação policial e judiciária contra ativistas do Rio de Janeiro. Elas tem enfoque nos absurdos jurídicos, na ilegalidade, nas fragilidades argumentativas e no caráter de perseguição política por parte do Estado, ficando de fora aqui as operações midiáticas (que julgam e condenam por conta própria), diversos elementos de contexto (como a seletividade da justiça, menos disposta em combater assassinos que são funcionários públicos) e especificidades do caso (ademais, pouquíssimo conhecido). Espera-se que esse mínimo levantamento possa servir de contraponto a uma cultura antidemocrática generalizada na mídia e nos aparelhos de Estado, os quais tem atuado com indigência intelectual, desprezo à verdade e vontade de criminalização da contestação política. Estamos em um momento em que é preciso reafirmar noções mais elementares de justiça e de razão contra o arbítrio estatal e seus comparsas, que pairam como um perigo não apenas contra esses ativistas mas sobre todos nós. Todas as afirmações aqui pretendem ser amparadas pelos links. Convidamos os leitores a somarem informações e referências ao caso, bem como indicar possíveis imprecisões. Continuar lendo

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New Orleans é aqui

New Orleans depois do Katrina. A cidade que emergiu dessa tragédia, com todos desafios impostos pela devastação. O porto da música e da culinária da costa Leste com sua vida cultural e cenário alternativo, uma economia decadente e conflitos sociais. É esse o plot de Treme, série de TV americana que está agora em sua quarta temporada e que tem em seu currículo os mesmos realizadores de The Wire.

É uma pintura apaixonada de uma cidade com toda sua complexidade e contradições. Leitura certamente romantizada dessa realidade, o que contudo não cria uma interpretação simples ou superficial. A paixão dos realizadores pela cidade é explícita em cada cena desse relato etnográfico. Impossível não se envolver com o lugar depois de alguns episódios. E é essa paixão que faz querer penetrar todas as razões e desrazões da cidade que fez nascer o jazz. O drama passa bem longe da história piegas de uma cidade que luta para se reerguer diante de uma catástrofe inevitável.

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Anatomia possível de um processo sigiloso

A escandalosa ordem de prisão temporária para 26 militantes.

A escandalosa ordem de prisão temporária para 26 militantes.

Quando, no dia 12/07, 26 militantes foram buscados em suas casas para serem conduzidos à prisão, muita atenção se prestou à ausência de provas apresentadas e, em especial, gerou escândalo a justificativa apresentada pelo juiz Flávio Itabaiana e defendida pelo delegado Alessandro Thiers e pelo promotor Luís Otávio Figueira Lopes de que as prisões se destinavam a evitar protestos violentos no dia da final da Copa do Mundo, isto é, punição antecipada a crimes ainda não cometidos e a respeito dos quais nenhuma evidência de planejamento foi sequer apontada. Entretanto, outro aspecto da decisão inicial destas prisões e que permanece nas decisões subsequentes, especialmente na expedição de 23 mandados de prisão preventiva, não foi talvez devidamente avaliado: o das próprias prisões serem defendidas como instrumento para a investigação do caso em si. Sinal de uma lógica perniciosa de condução do caso, em que o processo judicial se confunde com a investigação policial de forma a produzir-se a si mesmo. Continuar lendo

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