“Fogo amigo”: A incorporação da pauta da mídia corporativa e a criminalização da esquerda pela esquerda

* Texto de Luana Sidi e Rafael Maul (professores de História).

Em outubro de 2013, jornal O Globo publica edição criminosa, remetendo a 1969

Em outubro de 2013, jornal O Globo publica edição criminosa, remetendo a 1969

Quando nos convidaram para refletir sobre a criminalização dos movimentos sociais no Brasil na imprensa atual, nos perguntamos como poderíamos contribuir para este debate. Dos pontos de vista acadêmico e jurídico existem diversas contribuições sobre as formas de perseguição e criminalização dos movimentos pelo Estado (stricto senso) e também por suas articulações com organizações privadas legais e ilegais. Na mídia corporativa são inúmeros os exemplos para ilustrar o processo de criminalização em curso. Desde a obsessão da imprensa com os Black Blocs, a capa histórica d’O Globo de 17 de outubro de 2013, que nos fez acordar em pleno 1969, a ridícula caracterização da personagem “Sininho”, dando um show de desrespeito e capacidade ficcional na imprensa, a cobertura sensacionalista e manipuladora da morte do cinegrafista Santiago e a condenação prévia de Fábio e Caio são alguns desses exemplos. Enfim, o processo em curso é bastante claro. Vozes dentro da esquerda, e às vezes, de forma muito localizada, de dentro dos meios de comunicação da mídia corporativa, estão a denunciá-lo. Continuar lendo

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A necessidade de uma política: as eleições brasileiras de 2014 e os dilemas da esquerda socialista no segundo turno

Por Marcelo Badaró Mattos

Desde 1994 as eleições presidenciais no Brasil são polarizadas por disputas entre os candidatos do PSDB e do PT. Após doze anos à frente do governo federal, o PT chega novamente a um segundo turno contra uma candidatura do PSDB. Nada de novo no ar?

Há uma inegável continuidade de um quadro partidário que multiplica legendas, mas tende a uma polarização bipartidária, determinada pelas características de um regime democrático que restringe a participação às eleições e transforma o processo eleitoral em uma disputa pautada pelos “investimentos” em marketing, cuja eficácia depende da “generosidade” das empresas que “doam” recursos à campanha.

Há, no entanto, algo de diferente nessas eleições. Guilherme Boulos, em instigante artigo publicado na Folha de São Paulo, identifica uma “onda conservadora”, que associa ao fato de os campeões de voto para a Câmara Federal serem figuras nefastas da vida política brasileira: defensores da pena de morte, da redução da maioridade penal, viúvas da ditadura, que se esmeram em representar o conservadorismo homofóbico, racista e elitista. É com base no mesmo vento à direita que se pode explicar o crescimento, na reta final do primeiro turno, da candidatura de Aécio Neves, do PSDB, que de fato representa hoje o perfil eleitoralmente viável das tendências mais reacionárias da classe dominante brasileira. Eleitoralmente tão viável que conquista votos entre setores da classe trabalhadora urbana, apresentando-se como representação dos anseios por “mudança”.

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Entrevista com Marcelo Badaró Mattos

Marcelo Badaró Mattos é professor de História da Universidade Federal Fluminense. Dedica-se a estudos sobre a classe trabalhadora, entre outros assuntos, e publicou diversos livros como “Novos e velhos sindicalismos no Rio de Janeiro” e “Trabalhadores e sindicatos no Brasil”. Em uma conversa com Tim Marx, Mattos falou sobre algumas questões da esquerda e da atual conjuntura.

TIM MARX: A onda de protestos ocorrida a partir de junho de 2013 teve como uma de suas expressões mais visíveis a desconfiança a partidos e organizações de esquerda. Essa falta de identificação não indicaria alguma incapacidade por parte das organizações tradicionais dos trabalhadores críticas à ordem social?

MATTOS: A resposta a esta pergunta comporta uma outra pergunta: de que organizações tradicionais se está falando? Há uma dimensão da crítica aos partidos envolvida nos protestos de junho que não diz respeito especificamente à esquerda. Trata-se de uma crítica ao sistema político/partidário brasileiro em geral, baseado na dinâmica da “pequena política”, do clientelismo, da troca de apoios políticos por cargos e benesses, da corrupção, etc. Continuar lendo

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Legalizar o aborto pela vida das mulheres: links úteis

"As ricas abortam, as pobre morrem. Hipócritas!"

“As ricas abortam, as pobre morrem. Hipócritas!”

Ontem, dia 28 de setembro, foi  dia latino-americano de luta pela descriminalização e legalização do aborto. O coletivo do blog Capitalismo em Desencanto aproveita a data para demarcar a importância fundamental dessa questão dentre as pautas da esquerda.

A luta pela legalização do aborto envolve uma série de pontos sobre os quais precisamos ser irredutíveis: a laicidade do Estado, a autonomia das mulheres em relação ao seu próprio corpo, as desigualdades de classe e de gênero etc. Mas, principalmente, lutar para legalizar o aborto é defender a vida das mulheres. Pessoas que lutam pela criminalização do procedimento, auto-intituladas “pró-vida”, estão na verdade defendendo uma proibição que resulta na morte de inúmeras mulheres; elas impõem sua posição pessoal sobre o corpo de cada mulher, negando-lhes subjetividade, autonomia e, com frequência, a própria sobrevivência. É preciso, sim, ser pró-vida: pró-vida das mulheres.

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Carta aberta de apoio ao Goleiro Aranha

Olá, Aranha. Espero que esta carta encontre-o bem, se um dia chegar a ti.

Escrevo para falar do assunto que te ronda no momento, e manifestar meu apoio. Uma coisa que tem que ficar claro é que tudo o que eu como não-negro posso oferecer é isso: apoio. Porque aprendi mais do que nunca sobre o racismo quando fui professor da rede pública estadual no Rio de Janeiro. Durante minha formação na Universidade, diversas leituras e discussões nunca foram o suficiente para me sensibilizar e ter ideia do quanto o racismo impregna as nossas relações sem que saibamos. Ou melhor, como é comum na nossa sociedade, reconhecia o racismo, mas ele nunca estava “em mim”, sempre no outro. Como tantos outros, reconhecia a existência do racismo, mas não conseguia identificá-lo, principalmente quando partia de mim. Continuar lendo

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A ascensão de Marina Silva e as perspectivas para o pós-eleições

Marina Silva no velório de Eduardo Campos, de quem herdou a candidatura à presidência

Marina Silva no velório de Eduardo Campos, de quem herdou a candidatura à presidência

As semanas que antecederam imediatamente a eleição presidencial de 2010 foram marcadas pela rápida e significativa ascensão da candidatura de Marina Silva, então filiada ao PV, que alcançou mais de 19 milhões de votos (19,3% dos votos válidos), terminando a corrida em terceiro lugar. Em agosto de 2014, a queda do avião em que viajava o candidato do PSB, Eduardo Campos, tornou a fazer de Marina – que compunha a chapa na condição de candidata à vice-presidência – uma postulante a ocupar o mais alto cargo da república.

Diferentemente do cenário de quatro anos atrás, a primeira pesquisa do Datafolha com Marina na cabeça de chapa – realizada nos dois dias seguintes à morte de Campos – já apontava para um elevado percentual de intenções de voto. Nas semanas seguintes, essas intenções cresceram ainda mais, a ponto da nova candidata do PSB virtualmente condenar o pleiteante do PSDB, Aécio Neves, a observar o segundo turno da arquibancada. Em pesquisa realizada pelo mesmo Datafolha nos dias 17 e 18 de setembro, Marina polarizava o cenário com a presidenta Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, tendo ambas, respectivamente, 30% e 37% das intenções de voto, enquanto Aécio patinava nos 17%. Continuar lendo

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Sob qual democracia vivemos?

* Texto escrito por Ivan Martins, Lucas Hipólito e Marco Pestana.

O Congresso e o povo.

O Congresso e o povo.

A cada dois anos somos convocados a contribuir, por meio do depósito de votos digitais em urnas eletrônicas, para o fortalecimento de nossa galardoada democracia, nascida com a missão histórica de nos salvar do terror que envolveu o Brasil ao longo dos 21 anos de ditadura empresarial-militar entre 1964 e 1985. Entretanto, a cada nova convocação para a festa maior da democracia, nos deparamos com um insípido e limitado cardápio, em que as principais opções se reduzem a variações de algo que já experimentamos e não gostamos. Mesmo nos intervalos entre cada minguada porção de ração democrática bienal, cresce vertiginosamente a indisfarçável sensação de que a realidade cotidiana não corresponde ao idílico quadro de redenção e consolidação democrática do país. Assim, torna-se cada vez mais evidente que nem mesmo a onipresente cortina de fumaça lacrimogênea é capaz de seguir ocultando a pergunta que teima em se apresentar a cada esquina: sob qual democracia vivemos? Continuar lendo

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Eleições: o boicote, o voto nulo e o projeto revolucionário

*Texto escrito por Adolpho Ferreira a convite do Tim Marx.

Estamos às vésperas de novas eleições. Este momento tem grande importância para o debate mais aprofundado da conjuntura, da luta de classes, do Estado burguês, dos princípios de luta e da prática das organizações políticas no movimento da classe trabalhadora. No entanto, é necessário o questionamento sobre a forma de atuação diante das eleições da democracia burguesa. Como dizia Brecht, “nada deve ser natural”: a participação nas eleições não deve ser algo naturalizado para aqueles que lutam pela transformação profunda da sociedade.

O debate sobre a participação ou não nas eleições, sobre o voto nulo e o boicote às eleições, não é novidade na teoria revolucionária. São formas de atuação legítimas dos trabalhadores diante das eleições, sempre precedidas de avaliação da conjuntura e do movimento da classe trabalhadora. Desta forma, as questões que devem orientar a atuação dos revolucionários neste período eleitoral são: qual posição faz a luta de classes avançar mais a nosso favor? Que ação ou que propaganda deve ser realizada para fazer a consciência de classe avançar mais e, assim, favorecer a organização e a luta da classe trabalhadora? Continuar lendo

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Não me convidem pra essa festa pobre!

“Se votar mudasse alguma coisa, era proibido!” Sabedoria popular

Participação especial de Raphael Motta

Então é isso: depois da nossa linda festa do futebol, outubro tá aí, anunciando uma linda festa da democracia! Parece que o Superior Tribunal Federal fez algum pacote promocional com o Governo da Bahia e já vimos Carlinhos Brown, Daniela Mercury e Bell Marques nos chamando, super felizes e confiantes, para este “carnaval”!
vem-pra-urnaAo contrário do que tais anúncios e outros tantos meios de comunicação tentam nos vender, esse carnaval não vai ser colorido, não vai ser plural, não vai ser surpreendente e transformador como prometem ser os carnavais de fevereiro ou aquelas tais manifestações que insistem em não acabar. Essa festa vai ser bege, vai ser matinê, sem álcool, com hora para acabar e para terminar, bem marcada, regrada e delimitada.
Calma, calma, caro leitor! Não vou defender aqui o voto nulo (outro artigo vai), nem vou dizer que se é assim, que nos vendamos logo a essa política baixa e votemos apenas nos menos piores. O que eu quero defender aqui é: não, eleições não são a essência da festa da democracia; democracia é muito, mas muito mesmo, mais complexo do que uma simples urna. Continuar lendo

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A esquerda sem futuro

Tem-se a impressão de que a esquerda está imobilizada, no nível da teoria e por conseguinte no da prática, pela ideia de que deve ficar o tempo todo revolvendo as entranhas do presente em busca de sinais de catástrofe e salvação. É melhor olhar para o pescrai e o maruflicchio com ironia infinita – uma ironia camponesa, com seu justificado desdém pelo futuro – do que apostar em uma política fundada, mais uma vez, em uma multidão de terracota que espera a hora de sair marchando do túmulo do imperador.” (T. J. Clark, Por uma esquerda sem futuro, pp. 18-19)

A multidão de terracota prestes a ressurgir.

A multidão de terracota prestes a ressurgir.

No começo de 2012, logo após, portanto, um ano em que viu-se reaparecer movimentos de massa em várias partes do mundo, um artigo escrito por um veterano crítico de arte ventilou polêmica nos meios da esquerda, especialmente a europeia e americana, mas sem deixar de alcançar nossas paragens (traduzido em tempo recorde para o português e lançado em livro pela Editora 34). Não era pra menos, uma vez que o artigo era, de fato, uma peça de polêmica aberta, um ensaio-manifesto cujo objetivo era propor uma reorientação estratégica de como a esquerda deveria se pensar e se apresentar na arena política mundial. E justamente por se dedicar à consideração e crítica de um elemento fundamentalmente cultural da tradição da esquerda, não poderia deixar de ser fonte de algum escândalo. A tese de T. J. Clark, o autor de tal artigo, era de que, para que pudesse se reinventar e se por novamente à altura dos desafios do nosso tempo, a esquerda deveria romper uma antiga aliança, entre ela e o futuro. Continuar lendo

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