New Orleans é aqui

New Orleans depois do Katrina. A cidade que emergiu dessa tragédia, com todos desafios impostos pela devastação. O porto da música e da culinária da costa Leste com sua vida cultural e cenário alternativo, uma economia decadente e conflitos sociais. É esse o plot de Treme, série de TV americana que está agora em sua quarta temporada e que tem em seu currículo os mesmos realizadores de The Wire.

É uma pintura apaixonada de uma cidade com toda sua complexidade e contradições. Leitura certamente romantizada dessa realidade, o que contudo não cria uma interpretação simples ou superficial. A paixão dos realizadores pela cidade é explícita em cada cena desse relato etnográfico. Impossível não se envolver com o lugar depois de alguns episódios. E é essa paixão que faz querer penetrar todas as razões e desrazões da cidade que fez nascer o jazz. O drama passa bem longe da história piegas de uma cidade que luta para se reerguer diante de uma catástrofe inevitável.

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Anatomia possível de um processo sigiloso

A escandalosa ordem de prisão temporária para 26 militantes.

A escandalosa ordem de prisão temporária para 26 militantes.

Quando, no dia 12/07, 26 militantes foram buscados em suas casas para serem conduzidos à prisão, muita atenção se prestou à ausência de provas apresentadas e, em especial, gerou escândalo a justificativa apresentada pelo juiz Flávio Itabaiana e defendida pelo delegado Alessandro Thiers e pelo promotor Luís Otávio Figueira Lopes de que as prisões se destinavam a evitar protestos violentos no dia da final da Copa do Mundo, isto é, punição antecipada a crimes ainda não cometidos e a respeito dos quais nenhuma evidência de planejamento foi sequer apontada. Entretanto, outro aspecto da decisão inicial destas prisões e que permanece nas decisões subsequentes, especialmente na expedição de 23 mandados de prisão preventiva, não foi talvez devidamente avaliado: o das próprias prisões serem defendidas como instrumento para a investigação do caso em si. Sinal de uma lógica perniciosa de condução do caso, em que o processo judicial se confunde com a investigação policial de forma a produzir-se a si mesmo. Continuar lendo

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Breve apresentação de Walter Benjamin

APOCALIPSE OU CIDADE DE DEUS NA TERRA DA TECNOLOGIA

INSTA. “Só a fotografia revela o inconsciente ótico, como só a psicanálise revela o inconsciente pulsional. (...) A fotografia revela... os aspectos fisionômicos, mundos de imagens habitando as coisas mais minúsculas, suficientemente ocultas e significativas para encontrarem um refúgio nos sonhos diurnos, e que agora, tornando-se grandes e formuláveis, mostram que a diferença entre a técnica e a magia é uma variável totalmente histórica.” Em “Breve história da fotografia”, OE1, pp. 94-95.

INSTA. “Só a fotografia revela o inconsciente ótico, como só a psicanálise revela o inconsciente pulsional. (…) A fotografia revela… os aspectos fisionômicos, mundos de imagens habitando as coisas mais minúsculas, suficientemente ocultas e significativas para encontrarem um refúgio nos sonhos diurnos, e que agora, tornando-se grandes e formuláveis, mostram que a diferença entre a técnica e a magia é uma variável totalmente histórica.” Em “Breve história da fotografia”, OE1, pp. 94-95.

A geração que conheceu o início e a ascensão vertiginosa da internet participou do debate, polarizado em duas vertentes extremas, entre os detratores da rede mundial de computadores (que a acusavam de tornar o ser humano cada vez menos que um objeto, um simples invólucro, sem conteúdo algum) e os seus apologistas (que saudavam a novidade como a última chave que libertaria os homens dos grilhões do tempo e do espaço). Enquanto o debate acerca da internet permanece entre esses dois polos ele é incapaz de produzir conhecimento que nos sirva à vida; mas existiria um modo de lidar com um fenômeno social radicalmente novo, encarnado em uma novidade tecnológica, ou coisa que o valha, que conseguiria transcender a mera disputa por sua permanência ou dissolução?

Certa vez, ao discorrer a respeito das tecnologias do mundo moderno e da Indústria Cultural, o escritor Umberto Eco afirmou que havia dois tipos de pensadores: os “apocalípticos” e os “integrados”.[1] Aqueles que veem no mundo moderno uma constante ameaça, cujas inovações tecnológicas invocariam a imagem do fim dos tempos, foram classificados como apocalípticos, pois a única solução para estes seria a extinção da vida tal qual a conhecemos. Os que veem, no entanto, nesse mundo, apenas a imagem gloriosa do fim da luta humana pela emancipação, da vinda do reino da tão esperada felicidade, foram denominados integrados, pois estariam em tamanha concordância com a vida contemporânea, que não lhes restaria nenhum senso crítico com relação a ela, nenhum indício da vontade de mudança. Continuar lendo

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Acordamos em 1964

 

Algo que háa muito tempo já vem sendo apontado, o autoritarismo de Estado brasileiro, teve no último final de semana (com o fim da copa da FIFA) seu momento de maior avanço nos últimos tempos. Com 19 presos políticos no sábado (12/07) e cerceamento dos direitos de se manifestar e de ir e vir (lembrem-se, garantidos pela constituição) durante ato no domingo (13/07). O Estado pôs acima dos direitos básicos da população a realização de um evento que visa o lucro de diversas entidades privadas e que deixa como legado um abismo ainda maior entre a cidade e aqueles que nela vivem.

Acordamos em 64, mas não porque militares tenham tomado o poder, e sim porque o Estado, através dos seus aparelhos de repressão continuam ao lado (e em favor) do Capital.

E a cada dia há mais prisões arbitrárias, e a cada direito cerceado, e a cada grito que calamos ficamos mais perto de um Estado de exceção absoluto.

Ato pela libertação de todos os presos políticos.

Ato pela libertação de todos os presos políticos.

Se manifestar não é crime! Por isso, hoje (15/07) vamos todos ao ato exigindo a libertação de todos os presos políticos, fim de toda perseguição e anistia de todos os processos.

Quando : 15/07
Onde: Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (Av. Presidente Antônio Carlos – Centro)
Horário : 17h

 

 

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Imagens da ditadura

Para fechar o Dossiê Golpe e Ditadura, fizemos uma seleção de fotos icônicas do período. Das manifestações aos generais, dos momentos de beleza aos de dor, imagens que nos perseguem ou inspiram. Imagens que valem lembrar do período que não podemos esquecer.

Clique nas fotos para vê-las em sequência e em maior resolução.

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Nota de repúdio às prisões arbitrárias que ocorreram hoje, 12/07

Na manhã de hoje, dia 12 de julho de 2014, a partir das 06:30, a Polícia Civil do Rio de Janeiro invadiu as casas de militantes, realizando prisões e apreensões de aparelhos de comunicação. Pelo menos 19 militantes já foram presos, incluindo uma prisão realizada em Porto Alegre, e estão sendo interrogados na Cidade da Polícia, mas há nove foragidos e o número total de alvos pode chegar a 60 pessoas. As acusações ainda não foram divulgadas, mas já a sua punição provisória: Cinco dias de prisão temporária.

Repete-se, assim, na véspera da final da Copa do Mundo em escala ampliada a operação do dia 11 de junho, véspera da abertura do mesmo evento. A coincidência não é casual, a polícia bota mais uma vez em prática uma nova estratégia de repressão preventiva a protestos, atacando diretamente parte da militância e buscando intimidar o seu conjunto. Pretende, dessa forma, alcançar dois objetivos: 1) Assegurar a realização dos grandes eventos que são alçados à condição de prioridade pública, acima de qualquer garantia constitucional; 2) Passar da punição a granel dos cassetetes e bombas para a punição jurídica exemplar. Militantes são presos sob os pretextos mais frágeis, punidos preventivamente e indiciados de acordo com o resultado dos próprios mandados. São expostos depois ao circo da mídia, convocada a aplaudir o absurdo em coletiva de imprensa já anunciada pela Polícia e para a qual já foram barrados os representantes da mídia alternativa.

Mais uma vez as diversas esferas do Estado se coordenam para a criminalização da crítica aos seus projetos. Esta criminalização se encaminha para a bizarra condenação preventiva e a formação de listas negras de alvos perenemente sob a ameaça de investigação e prisão. A militância do Rio de Janeiro precisa reagir e se articular para resistir a mais esse ataque e poder prestar toda o apoio e assistência às vítimas desses processos absurdos. É crucial que todos os movimentos busquem esse objetivo.

E não podemos permitir que esta estratégia seja bem-sucedida em nenhum dos seus objetivos. Para tanto, é fundamental a presença no ato de amanhã, às 13h, na praça Saens Peña, na Tijuca.

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O neoconservadorismo mauricinho

idiota

Felipe Moura Brasil, blogueiro da Veja e olavete.

Um dos produtos típicos da era lulista foi a emergência de um novo e curioso tipo de militante político, que não apresentava nenhum dos tradicionais símbolos de rebeldia aos quais nos acostumamos a associar a esta espécie de atividade. É impossível confundi-los por sua aparência e comportamento com o clichê habitual do militante. Suas roupas tendem a ser formais, seus cabelos e eventuais barbas são bem aparadas. Parecem, não por acidente, terem acabado de sair de um escritório. E dificilmente eles poderão ser achados em assembleias ou passeatas (ainda bem). Mais fácil encontrá-los em blogs e fóruns na internet – e, cada vez mais, em artigos e colunas nos principais veículos da mídia empresarial. Seus slogans costumam ser voltados contra a “bolchevização” ou a “cubanização” do Brasil que estaria sendo promovida por seus adversários fundamentais, os “petralhas”, “esquerdalhas” e outros tipos de gentalha.

Este tipo bem-comportado de militante, como se pode ver, não tem como alvo de crítica a ordem social existente, mas as próprias críticas a esta ordem. Se consideram liberais em uma terra em que a liberdade é tanto a única força eficiente quanto a mais frágil das bases, ameaçada não somente pela ação consciente dos estatólatras e socialistas, mas também pela falta de confiança dos que a estes se opõem. São, assim, sintoma interessante da crise pela qual a direita brasileira se viu na última década. Continuar lendo

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A festa dos piratas do futebol

Agradeço a Bárbara Araújo Machado por ajudar com o texto

 

O escudo do St. Pauli e a bandeira “skull and crossbones” (“caveira e ossos cruzados”) adotada pelo seus torcedores

O escudo do St. Pauli e a bandeira “skull and crossbones” (“caveira e ossos cruzados”) adotada pelo seus torcedores

Nesses meses de Junho e Julho de 2014 estamos presenciando uma “festa” de escala mundial, tendo o Brasil como palco. Trata-se da encenação de mais um capítulo desse esporte que “é passional porque é jogado pelo pobre ser humano”, como disse Nelson Rodrigues. E se é observável a atração de grande parte da população brasileira desde o início do torneio e de um certo sentimento de cosmopolitismo com o afluxo de estrangeiros, apenas peço aos leitores que não se deixem hipnotizar, ainda que se permitam (com todo o direito) desfrutar da emoção esportiva.

Pois essa festa possui traços muito específicos que não passam despercebidos à maioria dos observadores; batendo recordes de audiência e lucro a Copa do Mundo da FIFA é a imagem e semelhança da sociedade (capitalista) que tem-se construído, o que significa toda uma série de problemas (alguns deles abordados no Dossiê Copa do Brasil). É por isso que agora é um bom momento para pensarmos que assim como tantas outras esferas de nossas vidas, o futebol é também um ponto de disputa e de que há aqueles que procuram nele algo que não se reduz a frieza nos cálculos de conta dos lucros da FIFA; é uma boa hora para olharmos o Fußball-Club Sankt Pauli von 1910: “os piratas da Bundesliga”.

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Os impactos da Copa do Mundo de 2014 na cidade de São Paulo

* Texto escrito por Uiran Gebara da Silva e Lucas Tadeu Marchezin

A escolha do Brasil para sediar a Copa de 2014 foi cercada de muitas expectativas, tanto por parte das autoridades públicas quanto do empresariado brasileiro e da população em geral. Desde 2007, ano em que o país foi anunciado como sede do evento, falou-se muito sobre o legado que a Copa deixaria para o Brasil, sobre o impacto deste evento na economia nacional e as possibilidades que a realização de tal evento criaria para a população brasileira, em especial nas cidades sedes. Sete anos depois este tom de expectativa foi completamente abandonado, ao menos no que diz respeito à população brasileira.

Em São Paulo o que se coloca hoje não é a questão do suposto legado que tal evento deixaria para a cidade, mas sim os impactos dele para a cidade: de que maneira as intervenções feitas na cidade para a realização deste evento mudou, ou poderá mudar, a vida daqueles que nela vivem. Uma das questões principais que levou a tal mudança de perspectiva é a absoluta falta de informação sobre tudo que não se relaciona com as partidas de futebol. Houve muitas intervenções na cidade, intervenções que vão desde a construção do estádio em Itaquera, passando pela criação de rotas exclusivas para ônibus no ano passado e muitas mudanças na orientação do trânsito pela cidade. Mas não há qualquer fonte confiável de informações a respeito de tais transformações e seus impactos na cidade. Continuar lendo

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Por que o discurso dos homens vale mais do que o das mulheres?

 

Antes de tudo, é preciso esclarecer que esse texto parte de reflexões pessoais – portanto, não é baseado em estudos acadêmicos. Meu objetivo é debater um tipo de comportamento masculino que é recorrente nas relações entre homens e mulheres (para além das relações amorosas) e que acaba por reforçar a desigualdade entre esse dois gêneros. Não pretendo fazer uma generalização comportamental, como a que vem implícita naquelas expressões do senso comum, do tipo: “todos os homens são mentirosos” ou “mulher é tudo igual”. Meus argumentos não se baseiam nesse tipo de pensamento, mas sim na observação de algumas experiências pessoais e de outras mulheres com quem tive a oportunidade de conviver e de debater. Logo, não tenho a pretensão de chegar em maiores desdobramentos conceituais sobre o assunto; quero apenas destacar uma questão que merece ser analisada com mais cuidado. Continuar lendo

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