Uma nota sobre democracia e capitalismo

As pessoas vêm ao mundo em uma sociedade cujas normas e relações parecem tão fixas e imutáveis quanto o céu que nos protege. O “senso comum” de uma época se faz saturado de uma ensurdecedora propaganda do status quo, mas o elemento mais forte dessa propaganda é simplesmente o fato da existência do existente.”

E. P.Thompson

  “Democracia” é um termo que está em constante disputa. Ele é formalmente entendido como positivo pela esquerda e pela direita, mas seu significado é bastante variável. A nossa ditadura empresarial-militar (1964-1985) muito pouco se assumiu como ditadura e se justificava como garantidora democrática. Se “democracia” é uma bandeira erguida pela militância dos direitos humanos contra o massacre à população pobre, também é o termo que escolheu um dos principais redutos do ruralismo pistoleiro brasileiro, o DEMOCRATAS (ex-PFL). Setores mais progressistas pontuam que sem saúde e educação não há democracia, enquanto outros reduzem seu significado à possibilidade de voto. Diante desse leque, parece que o mais fundamental é reparar que a noção de democracia mais difundida não considera algumas dinâmicas capitalistas centrais da constituição do mundo. Continuar lendo

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Entrevista com Marcelo Dias Carcanholo

Marcelo Dias Carcanholo é professor de economia da Universidade Federal Fluminense e presidente da Sociedade de Economia Política Latino-americana (SEPLA). Nesta semana, ele concedeu uma entrevista ao site argentino Notas, onde analisa a atual conjuntura eleitoral e a situação política e econômica brasileira. Segue abaixo uma tradução do Tim Marx. 

- Como era a política econômica antes da chegada do PT ao poder e o que mudou?

-Nos anos classicamente chamados do neoliberalismo, o que ocorre é que, em um nível de abstração maior, se administrou uma estratégia de desenvolvimento neoliberal. Isto é, reformas liberalizantes, abertura comercial e financeira, privatizações. Ou seja, o pacote que em geral se implementou na América Latina. Em um nível de abstração menor, isto é, no manejo da política monetária, cambial e fiscal, houve fases.

Desde 1999 até o final do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso mudou-se um pouco a cara da política econômica. A política monetária, que antes era de combate à inflação, entra em um regime de metas inflacionárias. O tipo de câmbio, que não era fixo como na Argentina, mas de bandas cambiais, onde há um teto e um piso dentro do qual o mercado resolve, se manejava conforme a conjuntura. O que acontece depois da crise cambial do Brasil entre 1999 e 2001, é que se muda o manejo dessa política.

Isto é, o câmbio que se diz flutuante na verdade não o é, porque o Banco Central intervém para regular. Seguiu sendo o mesmo que antes, a diferença é que não se anuncia previamente quais são o teto e o piso, mas eles existem e o mercado sabe quais são. A política monetária passou a ser seguida de um regime de metas inflacionárias, ou seja, o Banco Central utilizava todos os instrumentos de política monetária para obter essa meta pré-fixada. Continuar lendo

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“Fogo amigo”: A incorporação da pauta da mídia corporativa e a criminalização da esquerda pela esquerda

* Texto de Luana Sidi e Rafael Maul (professores de História).

Em outubro de 2013, jornal O Globo publica edição criminosa, remetendo a 1969

Em outubro de 2013, jornal O Globo publica edição criminosa, remetendo a 1969

Quando nos convidaram para refletir sobre a criminalização dos movimentos sociais no Brasil na imprensa atual, nos perguntamos como poderíamos contribuir para este debate. Dos pontos de vista acadêmico e jurídico existem diversas contribuições sobre as formas de perseguição e criminalização dos movimentos pelo Estado (stricto senso) e também por suas articulações com organizações privadas legais e ilegais. Na mídia corporativa são inúmeros os exemplos para ilustrar o processo de criminalização em curso. Desde a obsessão da imprensa com os Black Blocs, a capa histórica d’O Globo de 17 de outubro de 2013, que nos fez acordar em pleno 1969, a ridícula caracterização da personagem “Sininho”, dando um show de desrespeito e capacidade ficcional na imprensa, a cobertura sensacionalista e manipuladora da morte do cinegrafista Santiago e a condenação prévia de Fábio e Caio são alguns desses exemplos. Enfim, o processo em curso é bastante claro. Vozes dentro da esquerda, e às vezes, de forma muito localizada, de dentro dos meios de comunicação da mídia corporativa, estão a denunciá-lo. Continuar lendo

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A necessidade de uma política: as eleições brasileiras de 2014 e os dilemas da esquerda socialista no segundo turno

Por Marcelo Badaró Mattos

Desde 1994 as eleições presidenciais no Brasil são polarizadas por disputas entre os candidatos do PSDB e do PT. Após doze anos à frente do governo federal, o PT chega novamente a um segundo turno contra uma candidatura do PSDB. Nada de novo no ar?

Há uma inegável continuidade de um quadro partidário que multiplica legendas, mas tende a uma polarização bipartidária, determinada pelas características de um regime democrático que restringe a participação às eleições e transforma o processo eleitoral em uma disputa pautada pelos “investimentos” em marketing, cuja eficácia depende da “generosidade” das empresas que “doam” recursos à campanha.

Há, no entanto, algo de diferente nessas eleições. Guilherme Boulos, em instigante artigo publicado na Folha de São Paulo, identifica uma “onda conservadora”, que associa ao fato de os campeões de voto para a Câmara Federal serem figuras nefastas da vida política brasileira: defensores da pena de morte, da redução da maioridade penal, viúvas da ditadura, que se esmeram em representar o conservadorismo homofóbico, racista e elitista. É com base no mesmo vento à direita que se pode explicar o crescimento, na reta final do primeiro turno, da candidatura de Aécio Neves, do PSDB, que de fato representa hoje o perfil eleitoralmente viável das tendências mais reacionárias da classe dominante brasileira. Eleitoralmente tão viável que conquista votos entre setores da classe trabalhadora urbana, apresentando-se como representação dos anseios por “mudança”.

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Entrevista com Marcelo Badaró Mattos

Marcelo Badaró Mattos é professor de História da Universidade Federal Fluminense. Dedica-se a estudos sobre a classe trabalhadora, entre outros assuntos, e publicou diversos livros como “Novos e velhos sindicalismos no Rio de Janeiro” e “Trabalhadores e sindicatos no Brasil”. Em uma conversa com Tim Marx, Mattos falou sobre algumas questões da esquerda e da atual conjuntura.

TIM MARX: A onda de protestos ocorrida a partir de junho de 2013 teve como uma de suas expressões mais visíveis a desconfiança a partidos e organizações de esquerda. Essa falta de identificação não indicaria alguma incapacidade por parte das organizações tradicionais dos trabalhadores críticas à ordem social?

MATTOS: A resposta a esta pergunta comporta uma outra pergunta: de que organizações tradicionais se está falando? Há uma dimensão da crítica aos partidos envolvida nos protestos de junho que não diz respeito especificamente à esquerda. Trata-se de uma crítica ao sistema político/partidário brasileiro em geral, baseado na dinâmica da “pequena política”, do clientelismo, da troca de apoios políticos por cargos e benesses, da corrupção, etc. Continuar lendo

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Legalizar o aborto pela vida das mulheres: links úteis

"As ricas abortam, as pobre morrem. Hipócritas!"

“As ricas abortam, as pobre morrem. Hipócritas!”

Ontem, dia 28 de setembro, foi  dia latino-americano de luta pela descriminalização e legalização do aborto. O coletivo do blog Capitalismo em Desencanto aproveita a data para demarcar a importância fundamental dessa questão dentre as pautas da esquerda.

A luta pela legalização do aborto envolve uma série de pontos sobre os quais precisamos ser irredutíveis: a laicidade do Estado, a autonomia das mulheres em relação ao seu próprio corpo, as desigualdades de classe e de gênero etc. Mas, principalmente, lutar para legalizar o aborto é defender a vida das mulheres. Pessoas que lutam pela criminalização do procedimento, auto-intituladas “pró-vida”, estão na verdade defendendo uma proibição que resulta na morte de inúmeras mulheres; elas impõem sua posição pessoal sobre o corpo de cada mulher, negando-lhes subjetividade, autonomia e, com frequência, a própria sobrevivência. É preciso, sim, ser pró-vida: pró-vida das mulheres.

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Carta aberta de apoio ao Goleiro Aranha

Olá, Aranha. Espero que esta carta encontre-o bem, se um dia chegar a ti.

Escrevo para falar do assunto que te ronda no momento, e manifestar meu apoio. Uma coisa que tem que ficar claro é que tudo o que eu como não-negro posso oferecer é isso: apoio. Porque aprendi mais do que nunca sobre o racismo quando fui professor da rede pública estadual no Rio de Janeiro. Durante minha formação na Universidade, diversas leituras e discussões nunca foram o suficiente para me sensibilizar e ter ideia do quanto o racismo impregna as nossas relações sem que saibamos. Ou melhor, como é comum na nossa sociedade, reconhecia o racismo, mas ele nunca estava “em mim”, sempre no outro. Como tantos outros, reconhecia a existência do racismo, mas não conseguia identificá-lo, principalmente quando partia de mim. Continuar lendo

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A ascensão de Marina Silva e as perspectivas para o pós-eleições

Marina Silva no velório de Eduardo Campos, de quem herdou a candidatura à presidência

Marina Silva no velório de Eduardo Campos, de quem herdou a candidatura à presidência

As semanas que antecederam imediatamente a eleição presidencial de 2010 foram marcadas pela rápida e significativa ascensão da candidatura de Marina Silva, então filiada ao PV, que alcançou mais de 19 milhões de votos (19,3% dos votos válidos), terminando a corrida em terceiro lugar. Em agosto de 2014, a queda do avião em que viajava o candidato do PSB, Eduardo Campos, tornou a fazer de Marina – que compunha a chapa na condição de candidata à vice-presidência – uma postulante a ocupar o mais alto cargo da república.

Diferentemente do cenário de quatro anos atrás, a primeira pesquisa do Datafolha com Marina na cabeça de chapa – realizada nos dois dias seguintes à morte de Campos – já apontava para um elevado percentual de intenções de voto. Nas semanas seguintes, essas intenções cresceram ainda mais, a ponto da nova candidata do PSB virtualmente condenar o pleiteante do PSDB, Aécio Neves, a observar o segundo turno da arquibancada. Em pesquisa realizada pelo mesmo Datafolha nos dias 17 e 18 de setembro, Marina polarizava o cenário com a presidenta Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, tendo ambas, respectivamente, 30% e 37% das intenções de voto, enquanto Aécio patinava nos 17%. Continuar lendo

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Sob qual democracia vivemos?

* Texto escrito por Ivan Martins, Lucas Hipólito e Marco Pestana.

O Congresso e o povo.

O Congresso e o povo.

A cada dois anos somos convocados a contribuir, por meio do depósito de votos digitais em urnas eletrônicas, para o fortalecimento de nossa galardoada democracia, nascida com a missão histórica de nos salvar do terror que envolveu o Brasil ao longo dos 21 anos de ditadura empresarial-militar entre 1964 e 1985. Entretanto, a cada nova convocação para a festa maior da democracia, nos deparamos com um insípido e limitado cardápio, em que as principais opções se reduzem a variações de algo que já experimentamos e não gostamos. Mesmo nos intervalos entre cada minguada porção de ração democrática bienal, cresce vertiginosamente a indisfarçável sensação de que a realidade cotidiana não corresponde ao idílico quadro de redenção e consolidação democrática do país. Assim, torna-se cada vez mais evidente que nem mesmo a onipresente cortina de fumaça lacrimogênea é capaz de seguir ocultando a pergunta que teima em se apresentar a cada esquina: sob qual democracia vivemos? Continuar lendo

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Eleições: o boicote, o voto nulo e o projeto revolucionário

*Texto escrito por Adolpho Ferreira a convite do Tim Marx.

Estamos às vésperas de novas eleições. Este momento tem grande importância para o debate mais aprofundado da conjuntura, da luta de classes, do Estado burguês, dos princípios de luta e da prática das organizações políticas no movimento da classe trabalhadora. No entanto, é necessário o questionamento sobre a forma de atuação diante das eleições da democracia burguesa. Como dizia Brecht, “nada deve ser natural”: a participação nas eleições não deve ser algo naturalizado para aqueles que lutam pela transformação profunda da sociedade.

O debate sobre a participação ou não nas eleições, sobre o voto nulo e o boicote às eleições, não é novidade na teoria revolucionária. São formas de atuação legítimas dos trabalhadores diante das eleições, sempre precedidas de avaliação da conjuntura e do movimento da classe trabalhadora. Desta forma, as questões que devem orientar a atuação dos revolucionários neste período eleitoral são: qual posição faz a luta de classes avançar mais a nosso favor? Que ação ou que propaganda deve ser realizada para fazer a consciência de classe avançar mais e, assim, favorecer a organização e a luta da classe trabalhadora? Continuar lendo

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